O defunto, o mercado e a felicidade
Começava a anoitecer. Uma soprano cantava uma ópera no infinito som da existência. Logo chegou a notícia do óbito; os vizinhos se lamentavam e tudo se cobriu de tristeza. Ouviam-se os pios das corujas vindos das árvores que circundavam a aldeia. Era um quadro de pinceladas noturnas, sombreando a dinâmica daquele semibairro - algo tão soturno e lírico ao mesmo tempo. O pensamento flutuava nos acordes de hipóteses lúridas e sombrias, enquanto a vida dos supérstites vibrava abaixo da constância cotidiana. A noite se adensou. Ruídos misteriosos pululavam nas lajes dos passeios; o frio e a neblina encerravam aquela configuração sorumbática da existência. Sabíamos que, ao amanhecer, nas primeiras ondas de fótons naturais, os motores começariam a roncar. Pessoas tomariam seu café quente, esfregariam as mãos e algumas até sorririam, apesar do ramerrão que as esperava. Os bêbados já traçavam planos para mais um dia de alcoolemia, os profissionais em home office já se preparavam para a produção e as paradas de ônibus começariam a lotar de trabalhadores presenciais. Porém, poucas almas estariam diante do caixão no velório. A morte passou a ser apenas mais um movimento de mercado. Os empreendedores funerários, cada vez mais astutos, criavam produtos mercadológicos para fisgar os fragilizados pelo luto. Mas quem conhece a profundidade da existência sabe que a transitoriedade da dor é quase imediata. Logo, como mariposas, todos serão atraídos pelas vitrines iluminadas do capitalismo, que prometem a felicidade - uma palavra que carrega a essência da ludibriação, usada para manter o rebanho apascentado, satisfeito com migalhas. E para a maioria que não conseguirá adquirir os produtos promovidos pelo marketing, entra a religião: o paraíso vem depois da morte, desde que aceitem as regras do andar superior. Quanto a mim? Vou tomar mais uma cerveja e ouvir uma ópera, enquanto a carruagem de Faetonte não rasga o horizonte...
