CIZANIA
Ela é metálica - materiais modernos - à espera de ambientes controlados, temperaturas estáveis e pressões reguladas; eu sou carbono, orgânico, desejando um planeta mantido pela sua natureza, sem interferência deletéria humana. Isolados do dito progresso, vivemos em um paraíso eterno, onde ela era Eva e eu, Adão. Contudo, a serpente rondaria nosso lar, propondo um Éden de algoritmos e equações perfeitas, máquinas que resolveriam os problemas humanos — até mesmo um pensar mais refinado.
Já fomos equivalentes. Pelos idos dos anos 70, fomos carne e unha; vivíamos em comunhão com as drogas e as filosofias naturalistas e hippies, apesar de eu ter trabalhado numa holding que me proporcionava money suficiente para ser um playboy — claro, isso antes de conhecê-la. Fomos para o mato intacto. Não sei por que ela levou livros sobre tecnologias, matemática e física quântica. Vivíamos dias felizes, antes de ela absorver as letras, os símbolos, os números, as equações e os jargões técnicos.
Foi numa manhã em que os pássaros cantavam sinfonicamente que ela se aproximou e disse:
- Vou embora.
- Como assim? Para onde você vai?
Ela simplesmente e friamente respondeu:
- Eu vou para o Vale do Silício. O sonho acabou, já disse John Lennon. Não quero ficar mais aqui comendo arroz integral e cereais, tomando esses seus chás que adormecem o verdadeiro desígnio humano: o progresso, a inevitável evolução tecnológica e humana. Você que fique aí com suas árvores e animais, viva à la Thoreau, ouça seus mantras e coloque a mão nesta terra suja. Não aguento mais isso. Você parou no tempo. Vou para Marte com Elon Musk se precisar...










