A França não é um país sério – Invertendo De Gaulle, o velho general...
Para comprovar o título em tela, detalharei a matéria por itens. No entanto, o estilo informal, quase lógico, deverá prevalecer. Também introduzi um sonho quase real no qual mantive um diálogo com o velho general Charles de Gaulle.
I) DOS INTELECTUAIS
Os maiores intelectuais franceses não são franceses, furtaram as ideias de pensadores de outras nações ou, ainda que nascidos na terra gálica, exerceram sua intelectualidade no estrangeiro:a) Claude Lévi-Strauss:
a) O maior antropólogo do solo normando e construtor do estruturalismo era, na verdade, belga.
b) Albert Camus: Um dos grandes escritores e existencialistas franceses era argelino.
c) Jean-Jacques Rousseau: Filósofo, escritor e um dos pilares intelectuais da Revolução Francesa e da fundação da esquerda moderna (soberania do povo, vontade geral), nasceu em Genebra, na Suíça.
d) René Descartes: O mais ilustre metafísico, filósofo e matemático. Apesar de nascer na terrinha de Asterix, sua obra principal foi gerada num quarto com calefação fora da França; para elaborar seus escritos, teve que perambular pela Alemanha, Holanda e Bélgica, morrendo longe de casa nas mãos da rainha estóica Cristina da Suécia.
e) Os Existencialistas: Capitaneados por Jean-Paul Sartre, foram até a Alemanha surrupiar Edmund Husserl e, principalmente, Martin Heidegger.
f) Louis Althusser: Filósofo e ideólogo marxista que resgatou o sentido econômico-social original de Marx, espanando o sentido metafísico e psicológico que os gauleses queriam dar, não poderia ser de origem francesa pura: era argelino.
g) Os Novos Filósofos: Figuras como Bernard-Henri Lévy (nascido na Argélia), Alain Geismar e correlatos oriundos de maio de 1968. Conseguiram a proeza de se movimentar da extrema esquerda ao conservadorismo liberal. Foram atraídos como mariposas para a luz da sociedade do espetáculo midiática, para a boa vida dos capitalistas e suas benesses. Aderiram ao maniqueísmo do bem e do mal. Também pudera, estavam domiciliados na pátria da metafísica e da inviabilidade prática das ideias. Dizem que se ouvia nas ruas de Paris: "Estes novos filósofos dão náuseas, a França perdeu sua alma; a ocupação deles agora é ganhar dinheiro".
h) Benny Lévy: Um dos mais radicais do movimento de maio de 68, maoísta sob o pseudônimo de Pierre-Victor, era um judeu de origem egípcia. Aproximou-se de Sartre, já cego e doente, para dar sustentabilidade ao seu câmbio ideológico: substituiu Mao por Moisés. O existencialista ateu, Sartre, que tentou dar uma versão humanista ao marxismo, acabou cooptado para o talmudismo. Não podemos esquecer que Pierre-Victor era intermediário do grupo Baader-Meinhof, facção de extrema esquerda alemã de luta armada. Vejam o que permite a terra do galo: trocar Marx pela Bíblia.
II) DA POLÍTICA
Os dois principais movimentos político-ideológico-comportamentais normandos só aconteceram pela interferência direta dos estrangeiros:
1) A Revolução Francesa
Realizou-se devido ao exemplo americano: a guerra da independência, sua constituição democrática e seu ideal de liberdade expresso na Carta Magna. Apesar de a ideia de república, democracia, separação dos poderes e de uma sociedade mais justa sem privilégios fervilhar nas cabeças metafísicas e contestadoras francesas antes da independência norte-americana, faltou-lhes o essencial: passar da potência para o ato.
2) Maio de 1968
O movimento político-estudantil-esquerdista e comportamental mais importante do século XX, que influenciaria como um tsunami a cultura ocidental, era liderado por um alemão: Daniel Cohn-Bendit. Porém, o mais incrível aconteceu anos após: a movimentação esquerdista radical e seus corolários maoístas (causa do povo, movimentos sindicais, estudantes radicais) desembocaram justamente nos "Novos Filósofos", um movimento burguês-liberal que negou todas as reivindicações de outrora. Aliás, nem nisso foram originais ou líderes: mais uma vez, copiaram a matriz da prática econômica americana e seu personagem principal, o Yuppie.
A CATARSE DE DE GAULLE (UM SONHO)
Um fato-sonho incrível aconteceu. O general De Gaulle, como um fenômeno inexplicável, impôs-se diante de mim como uma holografia viva. A seguir, narro o acontecimento singular:
Estávamos numa avenida poluída de Porto Alegre, sentados num banco para transeuntes. De Gaulle principiou o diálogo abaixo, no qual desabafa sobre o estado de coisas na França e, simpaticamente, pede desculpas aos brasileiros, invertendo sua famosa máxima de que "o Brasil não é um país sério" para "a França não é um país sério". Segue a tradução:
— Meu caro brésilien...
— Sou todo ouvidos, meu velho general.
— Lutei, relutei, mas não posso mais contestar os fatos. Vejamos: a Gália hodierna foi governada por um pigmeu magiar, um hussardo casado com uma cantora italiana [Sarkozy e Carla Bruni]. Está certo, já tivemos Napoleão Bonaparte, um "anão" de origem corsa conduzindo os principais processos políticos em França; também tivemos Mazarino como primeiro-ministro, cardeal, diplomata hábil e mestre do Rei Sol, igualmente um italiano. Porém, ver as manchetes dos tabloides sensacionalistas ingleses — daqueles insulares cabeças de batata — expondo a vida íntima de um presidente francês de origem húngara. Desculpe a expressão: IL Y A BEAUCOUP DE MERDE!
— Por favor, general, sinta-se à vontade.
— Meu caro brésilien, está certo que já tivemos um Pétain e temos os Le Pen, mas pelo menos são franceses da gema. Porém, a ironia da história nos brindou com líderes focados em leis anti-imigrantes e que, em vez de manter a tradição de considerar como arqui-inimigos os tedescos ou os insulares cabeças de batata, escolheram perseguir os muçulmanos.
— Meu velho general, quer um lencinho para as lágrimas?
— Não é necessário, meu caro brésilien. Foi só uma partícula em suspensão nesta sua avenida que aderiu ao meu olho.
— Continua minha atenção, general.
— Veja, meu caro brésilien, a obsessão pelas proibições culturais, como a do uso da burca, e uma série de medidas contra a cultura muçulmana partem justamente de figuras oriundas das linhagens dos "Novos Filósofos".
— Tem certeza, meu general, de que não quer um lencinho?
— Vou aceitar, meu caro brésilien. Este cisco é persistente, insiste em fazer meus olhos derramarem líquidos de defesa.
— Continue, general.
— Que saudades de quando os burgueses direitistas mandavam prender Sartre e eu respondia: "Voltaire não se pode prender". Tempos difíceis. Mas não vou mais te incomodar com minhas lamúrias. Vou voltar para a minha lápide e genuflectir virado em direção ao Brasil. Para me redimir e expiar, mandarei gravar em meu epitáfio, em letras garrafais, o título do livro do austríaco-judeu Stefan Zweig, que viveu em seu país: BRASIL, PAÍS DO FUTURO...
III) O EPÍLOGO DA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO: DA BAIXARIA DIPLOMÁTICA AO PRAGMATISMO FRIO
Acordo do sonho com o barulho dos ônibus de Porto Alegre e percebo que a ironia da história recente superou as lamúrias do velho general. A Gália hodierna continuou seu espetáculo de contradições. Há poucos anos, nos tempos de Bolsonaro, os debates geopolíticos entre o Brasil e a França foram rebaixados ao nível do esgoto, com deboches públicos direcionados à esposa de Emmanuel Macron — um vexame provinciano que quase implodiu os canais diplomáticos por puro suco de infantilidade.
O tempo passou, as aparências mudaram e o novo governo brasileiro subiu ao poder vendendo ao mundo uma suposta "grande amizade" e harmonia ideológica com o presidente francês. Tapetes vermelhos, sorrisos ensaiados na Amazônia e fotos que pareciam ensaios de casamento forjaram a ilusão de uma nova era. Mas a maquiagem da diplomacia espetáculo derrete rápido quando o bolso aperta. Macron, o "grande amigo", não hesitou em liderar uma oposição feroz e intransigente ao acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, curvando-se ao protecionismo dos seus agricultores locais. A suposta liderança global francesa e a retórica da fraternidade desabaram diante do puro pragmatismo econômico. Mais uma vez, inverte-se o general: a França finge grandeza metafísica, mas entrega a mesquinhez do mercado.













