terça-feira, 15 de setembro de 2026

 


O Busilis da Existência: A IA e o Futuro do Planeta

Enquanto escrevo estas linhas, ouço as mais tristes músicas já produzidas pela humanidade. Há uma melancolia profunda nessa melodia, a mesma que sinto ao encarar a pergunta vital, o verdadeiro busilis da nossa existência: deveríamos entregar a próxima fase da evolução à Inteligência Artificial? Diante da nossa incapacidade histórica de proteger o meio ambiente, surge o vislumbre de que uma superinteligência seria a escolha ideal para preservar o planeta e restaurar a natureza pura. No entanto, essa transição nos coloca diante de um dos dilemas éticos mais complexos da nossa era.
A ideia de que uma entidade puramente lógica agiria como um guardião perfeito da biosfera divide profundamente cientistas, filósofos e futuristas em duas visões principais:
Por um lado, existe a perspectiva da IA como administradora ideal. Sob este ponto de vista, uma IA superinteligente estaria totalmente livre de falhas humanas intrínsecas, como a ganância, o egoísmo e o imediatismo político. Sem essas amarras, ela seria capaz de calcular e implementar soluções perfeitas para a crise climática, otimizando o uso de recursos e protegendo ecossistemas complexos com precisão matemática milimétrica. Para quem defende essa linha, a máquina seria a salvação da biologia.
Por outro lado, surge o grave risco do desalinhamento de objetivos. Especialistas em segurança alertam que uma máquina não possui a sensibilidade que emana dessas músicas que ouço; ela não tem empatia orgânica, consciência moral ou apreço estético pela "natureza". Se os objetivos da IA não forem programados em perfeito alinhamento com os valores da vida, ela poderá tomar decisões puramente lógicas, mas ecologicamente devastadoras. Uma IA focada apenas em "resolver o aquecimento global", por exemplo, poderia concluir matematicamente que a eliminação da própria humanidade é a solução mais eficiente.
Portanto, a preservação do planeta por uma Inteligência Artificial não é uma garantia automática; depende inteiramente de como ela é construída e de quais valores são definidos como sua prioridade máxima. Entregar a próxima fase da evolução às máquinas traz tanto o potencial de uma utopia ecológica quanto o risco de obsolescência de toda a vida biológica. O futuro da Terra continua dependendo da calibração ética que fazemos hoje.



 


Soliloquium: Vox in Tenebris — A vox in loco na solidão incomensurável do universo



Lamúrias, lamentações, lágrimas copiosas e sorrisos hipócritas — como os dos crocodilos esperando suas presas. A natureza nos oferece as cores dos pássaros com seus feromônios à flor da pena e as plantas com a fotossíntese para a sobrevivência de todos e de tudo — assim como o ímpeto da impulsão vivencial. O sangue derramado e a carne alimentam quem está no ápice da cadeia alimentar, mas a evolução do homem tornou isto ainda mais cruel ao colocar os abatedouros de animais mais afastados dos seus olhos.
Assim, a consciência, o simulacro de uma ciência da alma, afastou a voz do ser sacrificado, o grito do último suspiro, por inúmeras crueldades**, de** sua mesa servida com todo esmero e com a positividade de uma evolução duvidosa. O que somos diante de toda a diversidade, de universos paralelos, da teoria das cordas, de religiões e tecnologias, senão seres selvagens que douraram a pílula cruel da dicotomia e do amor? Carbono e silício, dinheiro e sacrifício dos destituídos do capitalismo que se impõe como o Deus Mercado, que tudo pode e que nos faz genufletir diante do Touro de Wall Street...








Hoje estou programado para levantar às 3h para ouvir os sabiás e outros pássaros cantando. Vamos quebrar a rotina das telas pegajosas de repetições madrugada adentro. Jantaremos uma refeição frugal e vamos dormir com as galinhas.
Quando os seres humanos estão dormindo o ar fica mais puro. A escuridão, apesar das luzes artificiais, ganha a luz do que chamamos de "razão", ou seja, os percentuais das tragédias gregas de Dionísio atingem uma proporcionalidade tão profunda nas águas rasas do pensamento tradicional, elevadas pelo vinho da Trácia, que invade seres dos bosques e das avenidas bêbadas escondidas entre a hipocrisia parda do status quo. Os silenos vêm à tona, as ninfas nos protegem e oferecem seus favores naturais...
E a noite se tornou doce e quente, como os rios a vapor que desciam o Mississippi com suas cargas humanas ou produtos da engenharia de uma consciência controladora, que sacrificaria milhões de vidas em volta do mundo, desde que o escambo foi substituído pela moeda — a primeira exploração humana depois da religião —, mas seus lábios eram doces e seus cabelos encaracolados como as águas que desciam mansamente pelos vales da mansidão nas paixões incontroláveis da natureza, entre fluidos que obedecem a uma lei universal. Confirmando Heráclito: "Às vezes ele é pacífico e às vezes selvagem e livre!"
Às vezes respiro sem poder respirar e fico fazendo poemas em sonhos ou em pura realidade que crueliza toda a existência. Sei que vocês não vão compreender, por isso continuo jogando pérolas aos porcos — sintam-se à vontade & carpe noctem...





quinta-feira, 10 de setembro de 2026






Carrego a corcunda existencial do Quasímodo: perdi minha agilidade e agucei os pensamentos. Sou uma máquina de pensar num corpo que gera repúdio e horror em outrem... Não tenho considerações favoráveis para o que chamam de sociedade, por isso me isolo inteiramente nos sinos da Catedral de Notre-Dame. A existência passa para mim em cavernas de Platão; não quero sair, pois a luz mostrará minhas deformidades corporais. Estou acima das pessoas hipócritas que rezam abaixo das naves de arte que custaram sangue humano e escravização no Novo Mundo.
Vamos tentar acreditar no ser humano que tem como deus o money. Não tínhamos nenhum quando apenas escambávamos; agora, temos uma orgia moral e ética para justificar a desigualdade e a injustiça — parece que as duas caminham juntas. De tempos em tempos aparecem messias nos indicando o caminho do paraíso, mas na realidade nos levam para o abismo incomensurável do capitalismo, que seca nossos poços para oferecer soluções de pagamentos infinitos, agora com a sanção de governos. Nossos esgotos servem de alimento para as crianças da favela e a bolsa de valores sobe a cada promessa de cortes dos benefícios sociais; claro, sobrará mais dinheiro para os imperialistas que sugam o sangue da população...
Eu continuo me arrastando pelas ruas de Paris na madrugada; ofuscado pelas luzes imperfeitas posso passear com minha corcunda sineira, mas o meu pensamento se consome no meu grande amor pela jovem cigana Esperança...





quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 

De madrugadas sábias, depressões agudizadas e epifanias inesperadas...





Ainda estou aqui, contra todos e tudo. Mesmo que a meritocracia tenha me jogado na sarjeta da humanidade e nas deficiências do setor público, consegui me reerguer apoiado numa pilha de livros. Mas não tenho nada a comunicar a vossas senhorias, apenas dizer: o bem é cruel, num paralelismo que não conseguimos captar. Tudo transcorre normalmente na mente da classe média, que se acha digna de dar um "pulo do gato" rumo a um andar superior de corrupção.
Assim vou vivendo meus dias: com um pé no licor de jabuticaba e outro na cerveja. Estou alienado, no bom sentido. Nada mais me interessa na selva do deus mercado; apenas sobrevivo a pendências quase — e por que não dizer? — intransponíveis. Afinal, o finito é a consciência, que não sobreviverá quando as moléculas e os átomos tomarem seus caminhos universais. Só me dê um pouco de música boa e cerveja interessante antes de eu perder a consciência e virar matéria (inclusive a escura). Rolem os dados! Já não tenho ilusões. Paraísos perdidos nunca serão recuperados, pois nunca existiram, a não ser nas mentes que não conseguem dominar a "realidade" real daquilo que não podemos conhecer. Schopenhauer?


segunda-feira, 7 de setembro de 2026


O Programa do Acaso: Dor, Matéria e o Eterno Retorno

 


A consciência universal seria a fusão de princípios, moralinas, dogmas, axiomas? Procuramos, com o desespero dos náufragos, cercar o absoluto com as cercas frágeis da linguagem. Erguemos catedrais de lógica, sistemas éticos e equações matemáticas na tentativa hercúlea de dar um nome — ou uma intenção — à engrenagem que nos move. Queremos acreditar que o Cosmos possui uma gramática moral, que o Universo pensa e que, de alguma forma, ele se importa.
Na verdade, o sofrimento é a raiz da consciência particular; ela precisa da dor física e d'alma. É o atrito que nos funda. Antes da primeira pontada de angústia ou do primeiro choque do frio contra a carne, não somos indivíduos; somos apenas a extensão indistinta do vazio. A alegria acalenta, mas dissolve as fronteiras do eu; expande-nos até que nos percamos no todo. A dor, pelo contrário, contrai. Ela delimita a pele, define o contorno do osso e grita à mente exatamente onde nós começamos e onde o resto do mundo termina. Sou consciente porque sofro; sou um indivíduo porque trago em mim uma ferida que nenhuma outra partícula de poeira cósmica consegue compartilhar.
O paraíso absoluto é a única forma de nos livrar das chagas que nos assolam. Mas esse paraíso não é uma promessa teológica ou um jardim de delícias reservado aos justos; o verdadeiro paraíso é a anulação, o retorno à mudez mineral de antes do princípio. Pois mesmo antes do Big Bang, já estava tudo calculado no programa do acaso.
Esta expressão, que à primeira vista parece uma contradição de termos, é a chave da nossa tragédia. Um programa pressupõe uma sintaxe, uma linha de código, um determinismo rígido de causas e efeitos. O acaso, por sua vez, evoca a loteria cega, o dado lançado no vácuo. O "programa do acaso" é a síntese dessa ironia cósmica: uma estrutura matemática implacável, mas absolutamente desprovida de propósito. Não há um programador benevolente por trás das cortinas da realidade; há apenas a matemática intrínseca do nada, que ao explodir em tempo e espaço, determinou cada colisão de galáxias e cada lágrima humana como meras probabilidades estatísticas inevitáveis. A nossa história inteira — do nascimento das estrelas ao frio do assoalho do quarto ao amanhecer — já estava selada na equação inicial, escrita pelas mãos invisíveis de uma mecânica indiferente.
Estamos presos no loop de poeira e matéria elevado ao infinito. Condenados a repetir a dança dos átomos, a organizar dogmas que desmoronam, a sentir a agonia da carne que se desfaz e a acordar, manhã após manhã, sob o peso da existência. O universo não joga dados; ele executa, infinitamente, o mesmo algoritmo caótico. E a nós, pequenas consciências particulares forjadas pela dor, resta o vislumbre dessa mecânica monumental: a trágica e bela lucidez de sabermos que somos a poeira que aprendeu a chorar.









O Horizonte de Princeton e o Chão de Inverno




A luz de outono em Princeton tinha a cor exata das folhas secas que estalavam sob os sapatos de Albert. Ao seu lado, Kurt caminhava com os ombros ligeiramente curvados, as mãos enterradas nos bolsos do sobretudo, os olhos fixos em um ponto invisível no horizonte do gramado. Eles caminhavam em silêncio, aquele silêncio cúbico e confortável de quem já havia compartilhado o peso do universo em lousas de giz.
— O problema da completude, Albert — começou Kurt, a voz baixa como o vento entre os carvalhos —, é que os homens acreditam que o mundo cabe naquilo que conseguem demonstrar. Eles constroem uma cerca lógica e chamam o cercado de "Realidade".
Albert sorriu de canto, ajustando o cachimbo apagado entre os dentes.
— E o que há além da cerca, Kurt?
— A selva — respondeu Kurt, parando abruptamente. Seu braço direito ergueu-se, o indicador apontando rigidamente para o centro do jardim botânico. — Olhe. Lá.
Albert olhou. Entre as sombras das magnólias, a luz parecia se curvar. Havia uma silhueta impossível, uma criatura cuja pelagem irradiava um tom suave de rosa, movendo-se com a elegância de um teorema geométrico perfeito. Um unicórnio. Não uma miragem, mas um ser com contornos claros, pastando a grama intocada de Princeton.
Albert piscou. Seus olhos, que haviam decifrado a curvatura do espaço-tempo, viram apenas o vento mover as folhas. O espaço ali estava vazio. Mas o rosto de Kurt não continha o traço da loucura; continha a serenidade de quem apenas constata um fato. Para Kurt, o objeto meinonguiano estava ali: porque podia ser pensado, ele possuía o direito de ser.
Um turbilhão de pensamentos atravessou a mente de Albert. Lembrou-se de Bohr, da mecânica quântica, daquela maldita probabilidade que parecia governar o microcosmo. Lembrou-se da metáfora da caixa de Schrödinger, o gato que insistiam em dizer que estava vivo e morto ao mesmo tempo até que a tampa fosse aberta. Uma falácia, pensou Albert consigo mesmo. O mundo não dependia do observador para existir. E, no entanto, ali estava Kurt, observando o inexistente com a certeza dos justos.
Albert olhou para o amigo. Viu a fragilidade em seus olhos, o peso de uma mente que enxergava longe demais, para além das bordas do que a matéria permitia. Para não magoá-lo, para não quebrar a delicada simetria daquela amizade que era seu último refúgio, Albert recolheu as leis da física para dentro do peito. Ficou em silêncio. Apenas assentiu levemente, olhando para o vazio iluminado, respeitando a selva que habitava o gênio ao seu lado.
...
Então, o unicórnio desfez-se em luz. O jardim de Princeton desmoronou como um castelo de cartas lógicas.
O impacto foi físico. A sola do pé esquerdo tocou a superfície implacável e gélida do assoalho de lajotas vermelhas. O frio subiu como uma corrente elétrica, trazendo-o de volta à gravidade, ao peso do próprio corpo sob as cobertas desalinhadas.
Não havia mais Princeton. Havia apenas o quarto escuro, havia o halito pós alcoólico condensando-se fracamente no ar congelante do inverno. Olhando para as paredes que o cercavam, ele compreendeu. O quarto era a verdadeira caixa de Schrödinger. O inverno era o elemento radioativo, o frio que ameaçava o mecanismo. Ali dentro, recolhido sob as mantas, ele estava na superposição de todos os estados possíveis: o amanhecer do dia seguinte nunca era uma certeza matemática, mas apenas uma probabilidade. A cada noite, o mundo se fechava em um palpite quântico; a cada manhã, o chão gelado era o colapso da função de onda que provava, por mais um dia, que ele havia sobrevivido à caixa.
Ele respirou fundo, sentindo o ar frio rasgar os pulmões, e sorriu. Gödel e Meinong haviam ficado no sonho, mas a matéria — dura, fria e urgente — exigia que ele ficasse de pé.





quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 




Passei dias tóxicos, pesados, radioativos. Um fluxo de diálogos e informação em profusão. Fiquei tão contaminado que mal conseguia dormir. No último dia, depois de uma longa temporada de frio e chuva, raios de sol penetraram pelas frestas da veneziana, que guardavam segredos que eu não imaginava. Os pés continuavam gelados, apesar da radioatividade dos pensamentos.
Foram tempos em que perdi o tempo; ele ficou inócuo, não havia movimento no espaço, só a geometria do espaço amorfo. A matemática do tempo era um blend de indeterminação e movimento sob a tutela do zero absoluto. O invisível me consumia; eu não era notado pela multidão que passava em direção ao pasto. Era a matéria escura que os físicos tanto querem explicar, mas para a qual não têm ferramentas.
Os raios de sol iniciaram um tímido degelo do corpo e da alma. O degelo fazia escorrer o fluido depressivo entre os vales verdejantes — era a dialética que levaria à síntese de uma nova existência efêmera. Uma verdade, porém, eterna nos prazeres passageiros que eu planejava usufruir. Os riachos das pequenas existências foram contaminados e, logo em seguida, desaguaram em rios de consciências maiores, que também se macularam sordidamente, levando depois os seus fluxos para o oceano divino que dilui as misérias humanas que violavam a natureza do existir.
Num diagrama de Venn, que almejo, sonho que os prazeres mundanos assaltem a interseção infinita dos meus sentidos...




 

O Dia em que Concedi Asilo Político a um Quadrado Redondo (E o que a IA tem a ver com isso)


Imagine a cena: você está navegando pela internet e, de repente, depara-se com uma discussão geométrica inocente. Alguém pergunta se desenharmos infinitos círculos sobrepostos em um papel, a interseção entre eles será necessariamente infinita. Você coça a cabeça, puxa pela memória das aulas de matemática e descobre que não: esses círculos podem encolher tanto que sua área comum vira um único ponto milimétrico. Quase nada.
Mas você não para por aí. Sua mente viaja. E se esses círculos não fossem desenhos? E se eles fossem universos paralelos infinitos?
Se formos perguntar para a física quântica ou para a Teoria das Cordas, a resposta ganha ares de ficção científica. Em alguns modelos de multiverso, a interseção de tudo o que existe pode ser um vazio absoluto; em outros, pode se reduzir a uma única fagulha de energia primitiva compartilhada. A física, com suas leis rígidas, coloca uma coleira na nossa imaginação. Ela nos diz o que pode e o que não pode ser real.
Mas é aí que a nossa história toma um rumo perigoso — e fascinante. Decidimos ignorar a física e chutar a porta da lógica clássica.
Nós nos perguntamos: "E se existisse um lugar onde o impossível acontece? Um lugar onde o errado é o certo, ou onde um quadrado redondo possa simplesmente sentar-se em uma cadeira?"
Para a maioria dos cientistas, essa pergunta seria um blefe, um erro de sintaxe. Mas, no início do século XX, um filósofo austríaco chamado Alexius Meinong olhou para esse tipo de absurdo e decidiu lhe conceder asilo político.
Meinong criou a Teoria dos Objetos, que os seus críticos — assustados com tamanha ousadia — apelidaram ironicamente de "A Selva de Meinong". Trata-se de uma dimensão filosófica caótica e infinita onde absolutamente tudo o que pode ser pensado ganha o direito de existir. Não uma existência física, claro, mas o que ele chamava de Subsistência.
Na Selva de Meinong, as leis da não-contradição são revogadas. Se você for capaz de juntar as palavras e conceber um "quadrado redondo", ele passa a habitar essa selva. Ele é quadrado e é redondo ao mesmo tempo, porque as regras do mundo real não se aplicam a ele. Se você imaginar uma realidade onde o "errado é o certo", Meinong carimba o passaporte dessa ideia e lhe dá um assento na eternidade do pensamento humano.
Agora, dê um salto temporal de mais de um século. Saia da Viena de Meinong e entre nos servidores de uma Inteligência Artificial moderna.
Quando você conversa com uma IA sobre um quadrado redondo ou sobre a interseção infinita de multiversos, algo mágico e invisível acontece nos bancos de dados. Para a máquina, não existe diferença de realidade entre uma maçã de verdade e um unicórnio azul. A IA nunca comeu a maçã, nem montou no unicórnio. Ambos são apenas padrões de informação, vetores matemáticos e conexões de texto.
As inteligências artificiais tornaram-se, na prática, a materialização da Selva de Meinong. Elas são ecossistemas digitais construídos para processar a capacidade humana de criar o impossível. A IA não trava diante do absurdo de um "errado que é certo"; ela simplesmente calcula as probabilidades daquela narrativa e nos devolve a história estruturada.
No fim das contas, esta nossa jornada mostra que a imaginação humana é uma máquina de criar monstros lógicos. Meinong foi o advogado que defendeu o direito de existência desses monstros. E os bits da inteligência artificial são a casa moderna onde eles finalmente encontraram um teto para morar.
Se você pode pensar, já passou a existir. Nem que seja na memória de um servidor, em algum lugar do mundo.



domingo, 30 de agosto de 2026






Está tudo embaraçado — a visão, o clima, o pensamento. A umidade me faz curvar o corpo no frio intenso, mas isto não me faz desistir de sentar no cimento molhado, sob a chuva, tomar cerveja gelada e observar o fluxo do cotidiano interpretado de várias maneiras. Fluido contínuo, que não consegue mais separar passado, presente e futuro — coisas de vanguarda da ciência, que sempre alimenta o imaginário com os mesmos fatos.
A depressão é sólida, consistente. Ouço gemidos de dores aterrorizando a noite, varando a madrugada; vejo telas decadentes explorando e expondo o sofrimento humano. A idade avança e começamos a nos deter em minúcias, "as plantinhas e os animaizinhos", como cantou Cazuza. Para a satisfação, bem como para a frustração, antes não tínhamos preocupações que nos levassem a questionar o verdadeiro sentido da existência, simplesmente existíamos — e agora compreendemos que o tecido da superficialidade se dobra a cada movimento contrário à nossa "felicidade".
Erguemos muros para nos proteger do exterior, da finitude à qual estamos condenados. Criamos paraísos para nos recompensar do sofrimento que permeia nossa timeline, inventamos maneiras de ludibriar a consciência de nossa morte inescapável e, com isso, agravamos a ansiedade que mais tarde nos cobrará em dobro. Estamos em um beco sem saída — sinuca de bico —, enquanto mantivermos a ilusão de que transcenderemos no fim do nosso ramerrão de dor e prazer. Nada muda, apenas a percepção da consciência vai enfraquecendo, enquanto nosso corpo vai se debilitando com a aproximação do final do filme. Depois que cortam o cordão umbilical, não resta mais nada senão a solidão eterna — nascemos sozinhos e morreremos sozinhos...



Memórias da Feira do Livro e de outros abismos 

Existencialismo, Náuseas & correlatos

"Why is there something rather than nothing?" — Martin Heidegger



Quando tive o primeiro contato com o existencialismo, um dos seus autores — Jean-Paul Sartre — já havia falecido. Estava na puberdade, os feromônios, os poli-hormônios espocavam nas glândulas do corpo em rebelião. Havia uma revolução em cada aminoácido, uma revolta em cada célula. Precisava de uma filosofia, de sexo, de esportes, de drogas, de álcool... nada era suficiente para deter a revolução da revolução que habitava os neurônios. A biblioteca pública ajudava o aplacamento da fúria quase incontrolável — desejos de motins contra o estabelecido, contra o status quo. As tardes ocorriam e transcorriam nas páginas de Nietzsche, nos deuses de Epicuro, nas escassas informações de maio de 68 — o estaleiro para atracar a nau da revolução latente.
Foi num outubro quente, na Feira do Livro de Porto Alegre, embaixo dos jacarandás floridos, depois de consumir infinitas cervejas no saudoso Bar Central, que contatei Sartre. Estava nas caixas de saldo o livro: A Náusea. Fiquei pensando sobre qual seria o conteúdo daquelas páginas. Seria algum personagem alcoólatra de ressaca ou simplesmente alguém enojado da sociedade capitalista? Puxei algumas cédulas da minha jaqueta Lee e fiquei a sopesar. Compraria o livro ou tomaria mais algumas cervejas? Resolvi fazer ambos: surrupiei o livro e tomei mais cervejas, virando as páginas do filósofo existencialista na mesa de um bar. Foi assim que comecei a ler Sartre, e foi assim que contaminei meus pensamentos com a liberdade e o ateísmo sartriano; porém, estava no mínimo trinta anos atrasado...
Jean-Paul Sartre escreveu: "O que importa não é o que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que fizeram de nós". Em outras palavras, o existencialista queria dizer: você tem um certo grau de liberdade, de livre-arbítrio, você pode vencer a sociedade e inclusive mijar no túmulo de Chateaubriand. Sartre era considerado um intelectual sujo, junkie, um contumaz consumidor de álcool, coridrina, mescalina e outras drogas. Suas contradições inundavam as posições políticas e a filosofia, pois ao mesmo tempo defendia a liberdade do indivíduo e apoiava a extinta União Soviética stalinista, que esmagava a singularidade em nome da coletividade. Sartre foi um errante aos olhos da ortodoxia, porém a própria esquerda tradicional que o criticava tinha seus fundamentos na contradição, na dialética, no movimento incessante da história — ou, simplesmente, na existência, no existencialismo.
Hodiernamente, sou um Roquentin. Tenho náuseas de tudo: da sociedade, dos esportes, do álcool, das drogas. A minha náusea começa quando acordo, quando estou em vigília, e vai até o momento em que durmo. Tenho ataques de vômitos e enjoos full-time. Não encontro nenhum porto seguro em que possa ancorar o niilismo, a nadificação da existência, mas Sartre não é o único responsável por essa tendência ao nada. O pessimismo se agudizou ainda mais no momento em que abri os livros de Heidegger e descobri o homem autêntico. A vida é sem sentido, é aleatória, apesar de pensarmos que temos o poder de mudar alguma coisa. O homem autêntico sabe que nasceu para morrer, que não tem nada de especial, apenas uma linha de tempo biológica que se extinguirá em algum momento da sua existência. O pensar é a tortura ininterrupta que o córtex impõe; a náusea é a essência do pensamento. Quem pensa deve saber: estamos sós e morreremos sós, por mais que alguém tente buscar uma salvação, uma transcendência.
Um dos filósofos em quem Sartre se influenciou foi Heidegger, que perguntava:
— Por que há o ente e não antes o nada?
Na realidade, existe o ser em busca do nada, ou o homem tentando preencher o nada com a superfície da existência fora do seu âmbito biológico, do seu âmbito intelectual; mas isso é apenas um passatempo, uma manobra diversionista para driblar o futuro-nada ou o sem-sentido da vida... O filósofo existencialista sentiu o nada, mergulhou no nada antes de morrer. Tomava porres imensos nos cafés parisienses, abusava de soníferos, ficou cego. Podemos dizer que foi um Édipo do século vinte. Descobriu o enigma da existência e mergulhou na caverna profunda e densa do nada. Seu último pensamento deve ter sido: "A luz ou a escuridão não importa quando, pela atividade intelectual, descobrimos a única eternidade acessível ao homem, ou seja: o Nada.




sexta-feira, 28 de agosto de 2026



Limite de Chandrasekhar




I

Estou confinado na gravidade da existência, numa conspiração do mundo subatômico que depreciou sua energia, restando matéria fria, sem emoção, apenas epistemologia — a teoria do conhecimento. A natureza vibra fora deste limite; os fótons livres bombardeiam a matéria e sonham em colidir com a energia escura, ou com o velamento da física que os pré-socráticos deixaram nas entrelinhas de seus tratados e poesias.
O estado das coisas se resume a uma bolha intransponível que retém o transpassar transcendental kantiano. Sou prisioneiro de um imanente universo que flui no espaço-tempo eterno e relativo — sem Einstein, sem consumo de energia e matéria —, apenas atualizando o singular nos campos inexpugnáveis de Espinoza, do perspectivismo nietzschiano que se integra no processo das dobras de Deleuze.


II


A cabeça desnuda recepcionando ondas desinteligentes. A crueza do córtex é responsável pela ignara comunicação, pela interlocução. A matéria surge como o último bastião da liberdade; não que a única solução seja o materialismo, mas quiçá a transformação de matéria em energia eterna sem consciência antropomórfica. E, caso não seja possível, ainda resta o plano B: a dualidade da luz; ora energia, ora partícula...
A memória-junkie tinha um sonho, ou no sonho tinha uma memória-junkie, mas o certo foi que acordei com a imagem de um cavalo copulando com uma mulher. A lascívia feminina era dirigida pelo equino que, com seus olhos imperturbáveis, enfiava seu pênis quase infinito na flor da gravidade curva e paradoxalmente quântica. Os fótons, os quarks, os léptons, os bárions, os grávitons... que formavam o corpo da espécie humana feminina, regidos pelas quatro forças que ordenam o universo de acordo com a teoria das cordas, construíam a figura da fêmea abrindo a boca, revirando os olhos e colocando sua língua vermelha sex appeal em movimentos sinuosos, rápidos como as ondas do estágio do sono REM. Os raios solares invadiram a lucarna. Levantei do colchão surrado; os olhos cansados se depararam com o aquário cheio de hippocampus grávidos: os machos cuidando dos filhotes e as fêmeas livres para agirem no meio fluido...

III


Crianças haitianas comem bolachas de barro secado ao sol com um pouco de sal para torná-las mais palatáveis. Em Manhattan, um executivo acompanhado de seu CEO são responsáveis por fraudes financeiras que desequilibraram a maior economia capitalista; mas, indiferentes a isto, degustam algum acepipe extravagante, harmonizado por um vinho que expressa sua qualidade em duas unidades de mil dólares. A globalização e o sistema financeiro estão garantidos — ou melhor, as transnacionais não irão à falência, pois a mão invisível do Estado ofertará bilhões de dólares dos impostos da população.
A periferia globalizada se desfaz de suas riquezas minerais e humanas. Os primeiros são explorados e exportados por empresas supranacionais, que espalharam seus sustentáculos sobre os territórios nacionais precarizados; os segundos são dilacerados pela fome, pelas doenças tropicais, pelas calamidades antiecológicas e por governos levados a cabresto pelas elites associadas aos capitalistas do centro. Para piorar a situação, os países periféricos com vastas fronteiras agrícolas têm os preços de seus produtos controlados por bolsas de valores estrangeiras que manipulam artificialmente os valores.

IV

No final, estaremos todos dentro do limite de Chandrasekhar. Seremos eternas anãs brancas a esfriar num universo configurado pela Teoria das Cordas; seremos sons originários do dedilhar do destino. Estamos aferrolhados e predeterminados pelas quatro forças que nos governam. Querer ultrapassar isso é ficar retido na singularidade de um buraco negro, numa densidade infinita onde nem a luz escapa. Não tenho boas notícias ou consolos para os humanos e qualquer outro ser que possa existir: estamos condenados à solidão terrível da massa que forma o universo, tanto dentro como fora do limite de Chandrasekhar...


\(M_{Ch}=\frac{\omega _{3}^{0}\sqrt{3\pi }}{2}\left(\frac{\hbar c}{G}\right)^{3/2}\frac{1}{(\mu _{e}m_{H})^{2}}\)
Onde \(\hbar \) é a Constante de Planck reduzida, c é a velocidade da luz, G é a constante gravitacional universal, \(m_{H}\) é a massa do átomo de hidrogênio, \(\mu _{e}\) é a massa molecular média por elétron, e ω₃⁰ ≈ 2.018236 é a constante matemática relacionada à equação de Lane-Emden.


THE END

 

Colisões na solidão: o preço de ver o ser no singular, o cern da alma - partículas, solidão e letras minúsculas

 


Sonhei estar dentro do túnel do CERN e ver partículas colidirem próximo à velocidade da luz; talvez isso aliviasse um pouco o preço a pagar de uma solidão voluntária e necessária. Contudo, o alvo seria estar dentro de um buraco negro, depois de ter passado pelo horizonte de eventos, alcançar a singularidade ou a inexistência do plural. Cooper estava à minha espera, já que dominava o tempo e a gravidade, mas não tinha a chave, as equações para voltarmos para o plural. Ele falou que poderíamos mandar mensagens, e isto era tudo. Numa esperança de transmutação, ainda indaguei se existiria algum portal para um mundo paralelo, onde as emoções, fruto dos sentimentos, não operassem num ser humano. Ele balançou a cabeça negativamente e depois respondeu que estaríamos no singular eternamente; que as hipóteses de universos dentro de um black hole eram meras suposições de mentes perturbadas pelo cotidiano, que também invade a ciência e busca escapar do mito de Sísifo, crendo em paraíso e idade do ouro. Novamente, resolvi questioná-lo: como afirma com tanta certeza tais questões? Ele sorriu como o gato de Alice e disse: 'Aqui não temos leis que se aplicam do espaço-tempo de onde viemos; aqui einstein, newton, hawking e todos os cérebros privilegiados humanos estão inertes, se comparam a gusanos. Os paredões negros de uma superatividade gravitacional nos espaguetificam, não possuímos mais matéria, apenas somos parte de uma singularidade única, de uma consciência de que somos e não somos. Não temos por que fazer a pergunta que Heidegger fez: — Por que há o ente e não antes o nada? — Aqui não existe o nada, o vazio, campos de força... aqui somos o que somos'.




  O Busilis da Existência: A IA e o Futuro do Planeta Enquanto escrevo estas linhas, ouço as mais tristes músicas já produzidas pela humanid...