GLOBALIZAÇÃO: De Ho Chi Minh a Glauber Rocha...
Em 1968, estabeleceu-se uma ponte energética, um teletransporte que tinha uma cabeça no Vietnã e outra em Porto Alegre. Para ser mais preciso, a cabeça no Vietnã ficava no meio da selva em que fuzileiros navais americanos e vietcongues travavam sangrentas batalhas: o Sul capitalista contra o Norte comunista. O fluxo energético dava-se da terra de Ho Chi Minh em direção à capital gaúcha, que vivia seus anos de chumbo promovidos pela Ditadura Militar. A ponte de transporte durou átimos de segundo, mas foi suficiente para teletransportar dois vietcongues das selvas para um cinema na cidade brasileira.
A casa cinematográfica exibia Terra em Transe, de Glauber Rocha, um dos expoentes do Cinema Novo no Brasil. Os guerrilheiros comunistas caíram no pátio, nos fundos do cine, portando dois AK-47 e indumentária camuflada de marrom e verde. Ouvindo o ruído dos corpos orientais, funcionários foram averiguar o que havia ocorrido. Atônitos, os vietcongues encostaram os fuzis na cabeça dos empregados da casa de exibição cinematográfica. Após momentos de tensão e pânico, houve um incipiente diálogo que misturava palavras em inglês e mímicas.
Na realidade, não era um cinema comercial, mas sim uma fachada — um "aparelho" da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), com o fim de dar suporte aos guerrilheiros urbanos que lutavam contra a ditadura. O governo militar começava a fechar o cerco contra os revolucionários tupiniquins. Torturas, sequestros, fuzilamentos e o ato de jogar guerrilheiros (ou supostos comunistas) em alto-mar eram alguns dos meios de que a ditadura se servia para livrar-se dos opositores. Os membros da VPR, assim como os de todos os outros grupos de luta armada, nutriam o sonho utópico de tomar o poder e tornar a sociedade brasileira mais justa.
Era o ar que se respirava nos anos sessenta e no início dos anos setenta, após o êxito de Fidel Castro e Che Guevara em Cuba. Na época, Régis Debray lançava a bíblia da esquerda, Revolução na Revolução; em Paris, no movimento de maio de 68, o lema era "é proibido proibir"; em todo o mundo pululavam ideias revolucionárias que embalavam as mentes em busca de um mundo melhor. Eram hippies, beats, maoistas, trotskistas e um leque amplo de rótulos dos que queriam transformar o mundo pela política, pelas armas, pelo comportamento, pelas drogas, pela música...
Foi depois da última sessão no cinema que os membros da VPR se reuniram para deliberar sobre os dois vietcongues. Na mesa redonda, copos e cinzeiros fumegantes testemunhavam as facções da esquerda — até então diluídas no objetivo comum — verem as divergências emergirem. A ala maoista queria entregá-los para a ditadura militar; já os trotskistas, apesar da divergência figadal com a ala soviética, concordaram em mantê-los no cinema até aparecer uma oportunidade de mandá-los ao país de origem; outras tendências divergiam. Contudo, a ponderação e a solidariedade perduraram; afinal, todos vinham da ideologia marxista e tinham um inimigo prioritário em comum: o imperialismo americano. Os vietcongues ficariam no aparelho da VPR, o cinema de fachada, até aparecer a oportunidade de enviá-los para casa.
O problema da moradia estava resolvido: ficariam no porão do cinema, apesar de insalubre e pouco iluminado. Estavam bem melhor acomodados do que nos túneis que cavavam e onde permaneciam a maior parte do tempo no Vietnã, como verdadeiras toupeiras humanas. A alimentação vinha do restaurante macrobiótico estabelecido no centro de Porto Alegre. Uma vez por semana, buscávamos arroz cateto integral e cozinhávamos diariamente para nossos hóspedes asiáticos. A higienização dava-se após o fechamento do cinema: os dois subiam até os toaletes e mantinham os corpos limpos. Alimentados e higienizados, os vietcongues dedicaram-se a aprender o idioma português e logo começaram a estabelecer pequenos diálogos com os guerrilheiros tupiniquins.
CORTE NO TEMPO:
Decorreram vinte anos. A estadia dos vietcongues no Brasil foi "legalizada". Os escaninhos paralelos da esquerda revolucionária providenciaram documentos. Já não havia o apetite da revolução social; agora o mundo estava empenhado em acelerar sistemas baseados no silício, em sintaxes de linguagens computacionais, erguer shopping centers e esconder os miseráveis nos subúrbios das megalópoles. As drogas agora estavam criminalizadas, alguns ex-hippies operavam em Wall Street, surgiam os yuppies e o capitalismo estava consagrado no Ocidente. Os que professavam ideologias marxistas eram taxados de "idiotas da América".
As flores das comunidades alternativas agora eram admiradas nas telas dos primeiros Macintosh. Foi nesse contexto que os dois vietcongues embarcaram no Aeroporto de Porto Alegre em direção ao seu país de origem. Alguns ex-guerrilheiros, sobreviventes da mão pesada da ditadura, acompanharam os amigos asiáticos ao iniciarem o voo em direção ao Oriente misterioso — de uma China politicamente comunista e economicamente capitalista...

















