terça-feira, 14 de julho de 2026



E O FLUXO CONTINUA....





Hoje foi uma tarde diferente, meu cérebro trabalhou no sentido de avivar a memória. Ouvi músicas retroativas à existência adquirida na experiência do que chamamos tempo >>> Billie Holiday extraindo essência da sua alma (perdão pelo termo), extrai um suco do que chamamos inefável, o que não podemos expressar por conceitos >>> que por palavras não podemos expressar (um dos protocolos de Wittgenstein). Mas todo este esforço de evocação carrega de contrabando o nada, isto mesmo, traz no seu ventre o niilismo. Estou no nada, nada mais importa quando o vácuo existencial se faz presente nos sentidos da física e da psicologia >>> porém, nada mais real que a existência sobrevivendo no vácuo do nada, no niilismo, invertendo Heidegger: — por que existe o nada de sentido e não o ser de sentido?.... Mais uma vez entramos nos protocolos de Wittgenstein >>> o que não podemos falar, devemos nos calar... Estamos duplamente impedidos, pois o ser não é e o nada é >>> estes paradoxos se anulam e se tornam o nada do nada >>> os contrários se soldam no infinito vácuo da existência, somos notas de músicas dedilhadas por um deus na teoria das cordas. Precisamos de uma oração do nada, uma escala de notas que permita o nada existir no ser, sem ser...

NIETZSCHE

Nietzsche não foi radical o suficiente para suportar a solidão de quem tem os pensamentos alpinos. Não assumia o nada da existência; seu niilismo era exotérico, escondia em seu cérebro a esperança de mudar os valores que no fundo refletia — que seus escritos fossem reconhecidos, o trouxessem de novo aos círculos sociais, aos braços do antigo amigo Wagner >>> Faltou-lhe, ou não quis admitir, que a existência é o nada, sendo o nada a condição para viver. Os budistas compreenderam isso e procuram se eternizar no nada. Pobre filósofo, se vivesse em nossos dias, teria os remédios de que tanto necessitava; hodiernamente, adquirimos os nadas embalados nas gôndolas dos supermercados, nos prazeres fugazes que o mercado oferece, nas farmacologias à disposição >>> sua solidão não teria mais sentido, pois o sentido da existência, o nada, seria preenchido pela sociedade do espetáculo, pela substituição do Deus cristão pelo deus mercado >>> ele não se sentiria sozinho...
Podemos dizer, no meu niilismo imanente, que a memória, sua evocação >>> é a experiência sem o objeto, da mesma forma que o objeto causa afetações no homem. Sua lembrança, o ato de memória, também é patológico, talvez de maneira mais suave >>> se bem que uma pessoa depressiva evocando memórias se tortura, se coloca abaixo da existência de outros, e parece que uma constelação de objetos positivos não interfere na sua existência depressiva...

VONTADE DO NADA
INCIDENTAL – MAXIKOANS

Um homem velho, maltrapilho, cheio de adjetivos pejorativos e preconceituosos mirava o gigante azul do fim do continente, no comoro açoitado pelo vento nordeste. A areia fina como ouro em pó voava e obnubilava sua visão, mas o importante era que seus pensamentos, seu cérebro, sabia exatamente a justificativa dos seus últimos momentos de solipsismo. Não havia nenhum espanto, nenhuma renúncia à vida; o fim da existência tinha sido planejado, elaborado por estudos filosóficos e científicos. Nenhum argumento, por mais racional ou irracional, o demoveria de passar seus últimos dias ali, inerte diante do oceano que molhava a selvagem costa da Sul-América. Quanta determinação havia sido inserida neste momento da existência! Quantas vezes abriu os livros de Nietzsche e leu: "— Deus está morto". Com esta simples frase, tinha construído uma teoria da não existência, da não existência de sentidos, e não haveria nenhuma metafísica ou alguma ciência açucarada, edulcorada, que lhe convencesse do contrário >>> o máximo que admitia era o epifenômeno, a energia sobre a matéria que causaria o que chamamos de pensamento, assim como o silício do computador deixa circular a energia, o cérebro de carbono suportaria a energia >>> o mar ecoava, o vento o castigava >>> os pensamentos mitigavam o sofrimento na pele, nos sentidos; não havia muito mais que isso, os sentidos, o resto eram ilusões para apaziguar o fel da existência...







E O FLUXO CONTINUA...


Era mais um dia, o ramerrão iria continuar, não pensava mais em perspectivas para o meu Dasein, apenas caminhando afundado em pensamentos mais altos e, contraditoriamente, mais profundos. Alguém interrompeu o meu devaneio: "— Oi! Que belo dia". Parei, então prestei atenção na luminosidade, no azul cerúleo, nos pássaros cantando como se a delícia se concretizasse em sua existência; certo, pensei, talvez tenha dramatizado a existência. Com efeito, o estado de coisas naturais dava um sentido benéfico, um bem-estar, porém minha existência estava separada, apartada do mundo dos homens e da natureza, apenas vivia para que os dias finais se encaminhassem de um modo ou de outro — pensava: deixe o fluxo do tempo-espaço passar, mas, enquanto isso, me ocuparia de alguma ideia démodé, fora das questões superficiais do homem atual. Não que desejasse alguma compensação, apenas, repito, deixar o fluxo do espaço-tempo fluir sem alterações; não que fosse um determinista, mas sentia o gosto da derrota, não pela semântica do nada, mas sim pelo colóquio desenfreado das percepções profundas...

MAIS FLUXO......

Cérebro >>> numa flutuação frenética, num fluxo sem consciência, sem sistema, sem método, apenas o caos emergindo dos princípios ativos de medicamentos aparentemente benéficos. A todo o momento um pensamento vem, associação à lá Hume, Nietzsche... ou melhor, suas leituras destruíram a razão em que acreditava, mas de que no íntimo do processo cerebral desconfiava: "foi bom ter lido o martelador da razão, pois sou um perdedor, simplesmente porque o homem está perdido desde o ventre materno, nasce com prazo de validade, não há muito o que fazer, talvez os hedonistas passem melhor o tempo do que os outros homens..."
No meu universo, no meu mundo nem as baratas se adaptam, pois elas sentem, farejam com suas antenas de super-sobreviventes a tragédia pairando no ar, a atmosfera metacrítica prestes a queimar a etapa da estabilidade, de estar na beira do precipício e dar o passo. Elas sabem que meu universo vai me esmagar, meus pensamentos vão me esmagar, talvez até espirre meu sangue vermelho, minhas veias, minha carne velha e maltratada: se elas permanecerem neste universo particular dos meus pensamentos, não sobreviverão, a dose é maior que a radiação da arma nuclear mais radical. Fujam, baratas, para seu esgoto confortável, seguro, estabilizado, durem mais não sei quantos bilhões de anos nesta mesmice, nesta mediocridade existencial >>> esperem pacientemente pelos restos do capitalismo, ele custuma ser generoso com suas migalhas aos que se resignam, aos que praticam a genuflexão diante do altar do mercado, que rezam orações de demandas e ofertas >>> Não: prefiro ser esmagado pela atmosfera, pela teoria da relatividade geral, ser curvado por um campo gravitacional, sumir na singularidade de um buraco negro, ou simplesmente pela segunda lei de Newton >>> mas sempre pensando numa utopia; que os homens comuns não encontrem suas necessidades criadas, seus medos disfarçados, suas loucuras da razão >>> não há nada para eles, nem migalhas — as baratas já sabem — não se assomem à minha porta infernal, aos meus inertes diabos que me consomem lentamente na linha de tempo, lá não há orações que salvem, métodos, caminhos, taos; deixem-me sozinho no meu universo compactador, na prensa cruel de meus pensamentos, dos fluxos cerebrais que não escorrem pela realidade... pois esta é minha versão kafkiana de como eu me sinto, de como é possível ter um mundo impenetrável que produz a forclusão até nas baratas metamorfósicas ou não...





segunda-feira, 13 de julho de 2026


UM TUDO
NUM NADA


Hoje, um dia X de um mês Y de um ano Z - é mais um dia cretino, antecedido por um ordálio tedesco >>> ontem a noite bebi vodka, cerveja, vinho em grande quantidade, em doses cavalares; depois numa gastronomia digna do hades >>> comi cebola, carne, salame italiano, pão congelado, alho e balas de todos os sabores e já ia me esquecendo, tomei varios medicamentos no varejo... inconscientemente fui vitima de um ordálio, se sobrevivesse a orgia-junkie-suicida seria inocente; podia me considerar expiado, purificado e integralmente inocente de qualquer crime ou ato prejudicial praticado contra outrem...

Mansamente, uma depressão, uma pressão tomou conta do meu cortex, um vazio se fez presente no ser; mas uma sublimação canalizada no ato de escrever me fez esquecer por alguns momentos as tremedeiras, os calafrios e a revolução estomacal e intestinal que se apoderava do meu corpo... a aurora rosea de Homero pictografada além da janela do meu quarto me deixou por alguns momentos numa contemplação mística, porém o sol logo inundou a peça, espalhando suas ondas-partículas por todos os objetos, dando formas definitivas... num determinado momento uma alucinação abordou meu cérebro, invadiu repentinamente, sentia-me um comedor de ópio, um personagem do livro Paraísos Artificiais de Baudelaire... já havia muito desistido de ser um monge tibetano, as montanhas, os seus cumes são inatingíveis e meu organico não combina com meditações, mantras, contemplações eternas de um ser superior...

Como já havia dito, era mais um dia cretino onde as relações humanas trariam prejuizos para muitos e lucros para poucos... afinal estamos numa sociedade capitalista, enquanto organização social permanecemos com o cérebro de reptil, ainda não usamos o cortex para as relações sociais-economicas....






 TRIBUTO A BERKLEY


OU

EMPIRISMO EMPERRADO


O que vejo não é o que vejo. Aliás o que sinto não é o que sinto. O que penso são ideias, mas eu não existo como objeto metafísico, cartesiano. Dou suporte a pensamentos que não são percepções ordenadas oriundas dos sentidos. Não creio que há uma realidade que os modelos dos meus pensamentos possam representar fielmente. As vivências que percebo são aprisionadas pela complexidade cerebral. Resumindo: -Aquiles nunca alcançará a Tartaruga....


Levei o mundo para dentro de minha casa neuronial, mas o mundo não cabe, fica sempre incompleto (apesar da incompletude suportar o infinito). As percepções reinvidicam o conhecimento, pois não há conhecimento sem primeiro ter havido percepções. O pensamento é percebido, uma vez percebido pode ser manipulado pelo fluxo de ordem que entra pelas portas das percepções ( The Doors of Perception - Aldoux Huxley ). Porém tudo isto é ficção. O que acontece, com efeito é - só posso crer na ordem que o mundo entra pelos sentidos - ir além disso, é querer transcender para o nada, é querer imaginar o fim do infinito, acreditar em deus. Mas como disse Wittgestein no seu sétimo aforismo do Tractus "Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar".






Estar sentado, escrevendo sem direção, até mesmo sem propósito ou sentido, em meio a questionamentos existenciais. Pensamentos que partem dos coacervados até alcançar a complexidade neuronal do Homo sapiens sapiens. Mas o que quero dizer neste sítio, localizado nos subtropicais da América do Sul, sem relação com o mundo formal — senão com o mundo etílico que habita minha existência há tanto tempo? Escrevo e penso, mas sem utilidade alguma para a sociedade capitalista. Apenas metralho teclas, manipulo canetas sobre o papel em branco achado no lixo. Tento sentir a forma como a corrente elétrica se manifesta no meu corpo biológico, enquanto observo os fótons explodirem na superfície daquilo que a linguagem e a semântica convencionaram designar como objeto.




sexta-feira, 10 de julho de 2026


 

UNIVERSO SEM TEMPO




Nietzsche inicia suas obras com uma advertência: seus escritos devem ser digeridos com estômago de bovino — devem ser ruminados para que o leitor entenda sua obra. Minha advertência é que haja flexibilidade neuronal, desconstrução de todos os parâmetros de mercado, culturais, formais...
Intuitivamente desenvolvi os maxikoans, um método que tem por objetivo desplasmar todo o pensar rígido, autocrático, de autoridade... - com intuito de que o ser se abra para o ser e se liberte do mercado, do capitalismo, da alienação que aprisiona o homem, ou seja, lá o que designamos esta manifestação de átomos, moléculas, subpartículas atômicas que se organizam ao acaso com o fim de existir e ter consciência desta existência; da mecânica do materialismo...

PSICOLOGIA

Um behaviorismo que fazia o cotidiano se derreter na loucura existencial de sentido do vazio, que acompanhava minhas percepções infinitas sobre o nada — o que ajudava a manter viva a existência, apesar de o nada se manifestar em cada célula do meu ser.Mais um dia pesado — mais um Dasein imerso nesta alienação obrigatória do capitalismo. Estou mergulhado numa libertação imanente e numa transcendência invertida a caminho do Dasein de Heidegger, buscando o ser original; uma metafísica que rompa este mundo ramerrão — que rasgue todo este tecido da tradição, deste jogo sem sentido, sem ciência do que fazemos automaticamente:Não sei o que resta ao homem nesta curta duração — certamente não esta vida inautêntica, full-time — o tempo todo a busca de objetivos que vêm alienados, reificados por um domínio que não pertence à motivação, ao real do Dasein — do ser-aí no mundo...

MUTAÇÃO INTRANSPONÍVEL

Sempre é difícil abrir um novo parágrafo — a existência se transforma a cada instante, assim como o estado de coisas que entram pelos sentidos e são refletidos.

INICIANDO O FLUXO DO UNIVERSO SEM TEMPO

Meu corpo, a minha perna esquerda começava a ficar dormente, já era a segunda noite sem dormir — apenas emendava frases pós frases num fluxo tóxico que meu fígado começava a recusar... minha forma corporal estava inchada, o tempo não existia fora de minha memória, tudo fluía unido: passado, presente, futuro. Pensava principalmente em beber, tomar um álcool consistente, entrementes olhava pela janela solitária a movimentação do mormaço que atingia as folhas da minha companheira de viagem — um ligustro japonês de caule inerte e folhas que flutuavam no ar pesado no fim da América perdida...
Esquecido pela tecnologia escravizante — ouvia vários pássaros cantar, alguns carros rasgando a rua tiravam a contemplação positiva da totalidade da realidade que entrava pelos sentidos — Não, não estava ficando alucinado, louco, só obedecia à atmosfera da primavera...
Começamos a viver sem utopias e de realidades de acordo com os interesses dos mais fortes — a adaptação de Darwin serve apenas como ferramenta para os mais fortes manipularem os mais fracos. A adaptação é o modo de sobrevivência dos mais fracos; estes usam os instrumentos como os da religião, da autoajuda, das drogas "legais", das banalidades oferecidas pelo capitalismo — ou, ainda, a negação de tudo isso por meio de álcool e drogas para os que renunciam a esta realidade de submissão aos contratos invisíveis da sociedade...




quarta-feira, 8 de julho de 2026



POESIA DE VÔMITOS



Regurgito

 Digiro Bukowski

Rumino Nietzsche 

Exalto a Surra que Rimbaud Deu em Verlaine

( par Amour )

Bebo Vorazmente

Absyntho & Extratos Peçonhentos

Para Deter

 Meu Impeto Suicida...







Erguerei Infinitas Barricadas 

Em Paris

Incendiarei Todas as Bastilhas

Comerei Fogo

Beberei Plúmbeo Derretido

Colocarei meus Neurônios na Guilhotina

Imolarei meu Corpo

Subirei Nu o Everest

Tudo em Nome da Santa Liberdade

Em Nome de Todas as Liberdades...






 


BAR BUKOWSKI - só para iniciados




Dei uma volta no entorno e sentei - logo se aproximou um garção, trajado meio estilo soldado do filme Rin Tin Tin, meio parecendo um metaleiro anfetaminado perdido na natureza; solicitei imediatamente um whisky on the rocks - junto a janela, fiquei algum tempo sorvendo o malte e olhando a arcádia paisagem;

Alguma coisa pressionava meu sexto sentido, sentia que estava sendo vigiado; virei-me e enxerguei uma morena de olhos pretos, com jeans de um azul celeste indescritível, com pássaros bordados de fios de ouro; secamente, seus olhos me abduziam, convidavam para uma iluminação sexual, um insight selvagem, alguma coisa indefinida mas que trazia augúrios de prazer e perigo;

Dei um sorriso e levantei o copo a cumprimentando - o garção se aproximou e solicitamente pedi mais um whisky - porém o idílio sexual que se insinuava foi interrompido por uma voz máscula, forte que grasnou:

-Chefe..

Não tive tempo de olhar em direção a voz, somente senti uma garrafa de cerveja estourar no meio do cérebro; sangueira total - escorria e se derramava como uma catadupa em meu blusão de marinheiro, agora maculado, manchado - mas estranhamente sentia-me bem, não sentia dor; estava bêbado, ensanguentado e lucido;


Lembrei-me de um conto de Bukowski e resolvi não revidar e como o velho safado convidei o agressor e seu acompanhante para se juntarem a mesa; o garção rapidamente trouxe o Jack Daniels por mim solicitado; três copos se encheram rapidamente e da mesma forma foram esvaziados;





Quando a bebida formal acabou - o capanga do agressor puxou do bolso interno do casacão uma garrafa escura sem rotulo, com tampa de rosca - sem falar nada, derramou um insólito líquido roxo nos copos vazios; o virulento colocou um olhar frio e enérgico, impondo uma ordem silenciosa que eu deveria engolir o fluido.

A morena de jeans havia sumido - comecei absorver sucessivos copos do líquido estranho - os objetos começavam a se distorcer- psicodelia total - cores se misturavam, para depois se separarem e recombinarem; num determinado momento, senti que iria perder a coordenação, precisava agir, senão viraria churrasquinho dos brutamontes;






Juntei todas as minhas forças e consegui ir até o banheiro, por sorte havia uma janela basculante na qual poderia escapar - corri tortuosamente pela grama, entre carvalhos e olmos, até chegar a entrada do túnel, respirei por uns instantes - enquanto tudo se distorcia e se recompunha;

-Ei, vou lhe ajudar a sair daqui, pode se abraçar em mim...


A morena estava me esperando; coloquei o braço em volta da sua cintura esbelta e exotérmica; fiquei contaminado pelo calor ébano de sua derme; atravessei o túnel como um cego guiado por seu labrador - finalmente subimos as escadas para o mundo real;


Chegamos em casa, bebemos o resto do garrafão de vinho húngaro, consumimos ervas olorosas, rolamos na cama, copulamos, abri uma garrafa de licor africano, copulamos mais uma vez, dormimos lânguidos, esgotados e bêbados;


Amanheceu - o lençol estava manchado de roxo e vazio - ela já tinha indo embora, como nos filmes; pensei, enquanto a luz ocupava a casa - a vida está ficando perigosa e estranha, hoje não vou sair, ficarei de resguardo - comecei a ouvir leonard bernstein a reger mahler...



Era apenas mais uma sexta-feira do calendário dos homens. Marcando 10:00 h – Ante Meridiem.




Era apenas mais uma sexta-feira no calendário dos homens. Marcando 10:00 h — Ante Meridiem. Já estávamos na segunda chávena de Vodka & Gelo. Tocava Chopin no YouTube — Nocturne Opus 9. Junto com o álcool, era o alívio para a atmosfera pesada, cansativa de todas as mesquinharias humanas. Os segundos travavam os minutos. Os minutos freavam as horas. As horas arrastavam o dia num imenso ramerrão. Precisamos de mais movimento. O do planeta é insuficiente. Estaremos bem na velocidade da luz ou da superlumínica. Os neutrinos atravessam nossos corpos sem serem percebidos.




Os sentimentos criam raízes no neocórtex. O universo determina nossos passos. E o livre-arbítrio — uma fórmula para religião, política & economia — serve para manter as elites chicoteando os escravos do deus mercado. O joguinho de Tom & Jerry — o gato perseguindo o rato desde os primórdios da humanidade — ainda não foi percebido por quem paga a conta.
Temos ciência de que o substrato que constitui ou constituiu o universo e o homem está em constante ebulição. Átomos combinando com átomos, cambiando elétrons, formando moléculas — diversas atualizações no campo existencial-matéria. Forças hercúleas que movimentam subpartículas dentro das mesmas e geram, cada vez mais, partículas de Deus — o Bóson de Higgs. Somos enganados todos os dias com a ilusão do livre-arbítrio, mas os túneis do CERN nos mostram uma incerteza dentro da previsão, ou seja, somos predeterminados... Somos apenas espectadores.



terça-feira, 7 de julho de 2026


 Os fonemas na sua origem, etimologia aprofundada, são reflexos entre os sentidos e os objetos



8:00 AM – Já estamos embriagados ouvindo Chet Baker... Em algum lugar oculto da existência na América do Sul – LATAM. Como ratos, ficamos invisíveis diante da luz solar... Bebop – fragmentos da Beat Generation. Buscamos a purificação em quartos escuros: existencialismo, drogas & existência obscura. Na realidade, sacrificamos os corpos num pleonasmo alcoólico e literaturas em geral. Devorando demônios extremos. Pensamentos darwinianos percorrem a escuridão da extrema ermida. A amoralidade é a amora, blueberries — o fluxo nos encanamentos humanos. A moralidade é a submissão diante da desigualdade. As palavras se sobrepõem ao conceito; precisamos de pacotes de uivos que mostrem a realidade no fluxo do ser. Os fonemas na sua origem, em uma etimologia aprofundada, são reflexos entre os sentidos e os objetos.




Ofereço a maior glândula aos abutres do Cáucaso (Prometeu) — um Neo-Prometeu se fez presente... O restante, aos crocodilos do Nilo, que lacrimejam por கிளியோபாட்ரா. Pérolas aos porcos e tudo mais. Nas noites invernais e soturnas, viramos pós quânticos. Carregamos a inundação de verdades incompletas e incertezas. As moléculas vibram — antes de a energia se esgotar — dentro da matéria. No final, estaremos perto do zero absoluto, esperando um novo Big Bang. Immanuel Kant, quando falou em Paz Perpétua, queria dizer a matéria sem energia, ou a lápide fria com seus epitáfios sem sentido. A morte total, ou seja, a perda da consciência, não passa de entrarmos no rio de Heráclito sem o dom da palavra, à espera de uma nova configuração do universo.
A alcoolemia gera logorréia, mas que gera algum certo sentido num mundo pós-moderno e relativo. Sempre estamos flutuando na mesma tábula rasa de Parmênides, num infinito oceano de incertezas, mas sempre em movimento. Daríamos o mais precioso tesouro em troca da mais pobre certeza. A antiga Grécia dos pré-socráticos é nosso berço, nosso leite, nossa posição fetal.







segunda-feira, 6 de julho de 2026




GLOBALIZAÇÃO: De Ho Chi Minh a Glauber Rocha...



Em 1968, estabeleceu-se uma ponte energética, um teletransporte que tinha uma cabeça no Vietnã e outra em Porto Alegre. Para ser mais preciso, a cabeça no Vietnã ficava no meio da selva em que fuzileiros navais americanos e vietcongues travavam sangrentas batalhas: o Sul capitalista contra o Norte comunista. O fluxo energético dava-se da terra de Ho Chi Minh em direção à capital gaúcha, que vivia seus anos de chumbo promovidos pela Ditadura Militar. A ponte de transporte durou átimos de segundo, mas foi suficiente para teletransportar dois vietcongues das selvas para um cinema na cidade brasileira.
A casa cinematográfica exibia Terra em Transe, de Glauber Rocha, um dos expoentes do Cinema Novo no Brasil. Os guerrilheiros comunistas caíram no pátio, nos fundos do cine, portando dois AK-47 e indumentária camuflada de marrom e verde. Ouvindo o ruído dos corpos orientais, funcionários foram averiguar o que havia ocorrido. Atônitos, os vietcongues encostaram os fuzis na cabeça dos empregados da casa de exibição cinematográfica. Após momentos de tensão e pânico, houve um incipiente diálogo que misturava palavras em inglês e mímicas.


Na realidade, não era um cinema comercial, mas sim uma fachada — um "aparelho" da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), com o fim de dar suporte aos guerrilheiros urbanos que lutavam contra a ditadura. O governo militar começava a fechar o cerco contra os revolucionários tupiniquins. Torturas, sequestros, fuzilamentos e o ato de jogar guerrilheiros (ou supostos comunistas) em alto-mar eram alguns dos meios de que a ditadura se servia para livrar-se dos opositores. Os membros da VPR, assim como os de todos os outros grupos de luta armada, nutriam o sonho utópico de tomar o poder e tornar a sociedade brasileira mais justa.
Era o ar que se respirava nos anos sessenta e no início dos anos setenta, após o êxito de Fidel Castro e Che Guevara em Cuba. Na época, Régis Debray lançava a bíblia da esquerda, Revolução na Revolução; em Paris, no movimento de maio de 68, o lema era "é proibido proibir"; em todo o mundo pululavam ideias revolucionárias que embalavam as mentes em busca de um mundo melhor. Eram hippies, beats, maoistas, trotskistas e um leque amplo de rótulos dos que queriam transformar o mundo pela política, pelas armas, pelo comportamento, pelas drogas, pela música...



Foi depois da última sessão no cinema que os membros da VPR se reuniram para deliberar sobre os dois vietcongues. Na mesa redonda, copos e cinzeiros fumegantes testemunhavam as facções da esquerda — até então diluídas no objetivo comum — verem as divergências emergirem. A ala maoista queria entregá-los para a ditadura militar; já os trotskistas, apesar da divergência figadal com a ala soviética, concordaram em mantê-los no cinema até aparecer uma oportunidade de mandá-los ao país de origem; outras tendências divergiam. Contudo, a ponderação e a solidariedade perduraram; afinal, todos vinham da ideologia marxista e tinham um inimigo prioritário em comum: o imperialismo americano. Os vietcongues ficariam no aparelho da VPR, o cinema de fachada, até aparecer a oportunidade de enviá-los para casa.
O problema da moradia estava resolvido: ficariam no porão do cinema, apesar de insalubre e pouco iluminado. Estavam bem melhor acomodados do que nos túneis que cavavam e onde permaneciam a maior parte do tempo no Vietnã, como verdadeiras toupeiras humanas. A alimentação vinha do restaurante macrobiótico estabelecido no centro de Porto Alegre. Uma vez por semana, buscávamos arroz cateto integral e cozinhávamos diariamente para nossos hóspedes asiáticos. A higienização dava-se após o fechamento do cinema: os dois subiam até os toaletes e mantinham os corpos limpos. Alimentados e higienizados, os vietcongues dedicaram-se a aprender o idioma português e logo começaram a estabelecer pequenos diálogos com os guerrilheiros tupiniquins.




CORTE NO TEMPO:

Decorreram vinte anos. A estadia dos vietcongues no Brasil foi "legalizada". Os escaninhos paralelos da esquerda revolucionária providenciaram documentos. Já não havia o apetite da revolução social; agora o mundo estava empenhado em acelerar sistemas baseados no silício, em sintaxes de linguagens computacionais, erguer shopping centers e esconder os miseráveis nos subúrbios das megalópoles. As drogas agora estavam criminalizadas, alguns ex-hippies operavam em Wall Street, surgiam os yuppies e o capitalismo estava consagrado no Ocidente. Os que professavam ideologias marxistas eram taxados de "idiotas da América".
As flores das comunidades alternativas agora eram admiradas nas telas dos primeiros Macintosh. Foi nesse contexto que os dois vietcongues embarcaram no Aeroporto de Porto Alegre em direção ao seu país de origem. Alguns ex-guerrilheiros, sobreviventes da mão pesada da ditadura, acompanharam os amigos asiáticos ao iniciarem o voo em direção ao Oriente misterioso — de uma China politicamente comunista e economicamente capitalista...




 



A ESPERA DO ECLIPSE TOTAL






Sob a chancela de quatro paredes, aprisionando verbos, adjetivos e sujeitos, vou morrendo por osmose na inércia dos objetos. Respiro, umedeço o espírito com figuras imaginárias. Os livros se tornam animados, as figuras viram substâncias, visões consubstanciadas em palavras. Estou condenado: usei artifícios infernais, provei a maldade nietzschiana. Inalei o enxofre vaporoso das entranhas do Érebo e fiz previsões catastróficas, ultrapassei Nostradamus. Bebi a água pútrida do rio Aqueronte. Traí e fui traído, neguei todos os deuses, dormi com o corpo sujo de lascívia em cima das escrituras sagradas.
Como força, admiti a fraqueza; no delírio caótico, ofereci a carne ensanguentada ao espírito obscuro. Estou contaminado por micróbios, bactérias, miasmas, vírus, vícios e virtudes invertidas. Não tenho mais vontade de potência; imolei o corpo, sou guiado por febres, alucinações, loucuras incrustadas de naturezas ocultas que atuam nas entrelinhas do sobrenatural, na sombra da razão. Não vejo mais auroras nem crepúsculos; engulo fantasmas, expilo ectoplasmas amalgamados de vida e morte. Inspiro o ar drogado da moral escrita no remoto altar dos sacrificadores, exorcizo os sacerdotes dos demônios freudianos, vou além do além. Procuro tribos selvagens, canibais, culturas incipientes que adorem cabeças embalsamadas. Derramo a seiva no oceano da imaginação — uma hemofilia sem fim. O suicídio das ideias, a serpente peçonhenta como amiga. Ergo aços ingentes, diluo o concreto com o suco gástrico das valas do Hades; de tudo provo.
Evoco Mefistófeles, seduzo Perséfone do mundo inferior, sequestro a musa de Dante do sumo éter, espero na estação do prazer o trem do paraíso. Não tenho ícones, Windows, planilhas eletrônicas, mas surrupio as taças com ambrosia de Hebe. No target: estou fora do alvo, quase não existo, tomo o licor venenoso extraído das mandíbulas de najas. Os relógios de urânio congelaram o tempo, estão curvados no espaço-tempo, mas a carne se corrompe no tempo psicológico, no fluxo da inconsciência. Busco a matéria imaculada, sem nódoas, mas os deuses estão mortos. Herdei o chafurdar dos javalis selvagens na lama e no esgoto que formam o emplastro lenitivo das feridas eternas abertas no coração da humanidade...






E O FLUXO CONTINUA.... Hoje foi uma tarde diferente, meu cérebro trabalhou no sentido de avivar a memória. Ouvi músicas retroativas à existê...