quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

 



Está tudo sacramentado.... As muretas ofereciam um descanso momentaneo, apesar de umas gramineas plantadas no vale de concreto que geravam mosquitos em pleno janeiro escaldante e chuvoso -  conversas com sem tetos, alguns cumprimentos com traseuntes, latas de cervejas semi geladas, um calor esturricante na capital do extremo sul do Brasil... No fim da tarde, os sabias gorjeavam, um vento quase mistral, uma beisa celestial que contaminava o a redor. A uns metros distantes uma barraca de cachorro quente mantinha um certo fluxo de pessoas. Ali tentava aliviar meus pensamentos constantes com a morte, apesar de saber que ela chegaria mais cedo do que tarde. Num certo momento, um senhor parou na minha frente e disse:

-Tudo bem comandante...

-Claro vamos tomando cerveja e levando a vida...

Este dialogo se prolongou, concordamos em dizer que os médicos precisam de doentes do corpo e religiosos de doentes da alma. No entanto, ele ponderou sobre o espiritismo - do qual era adepto - tentei tangenciar do assunto, pois se desse minha opinião niilis do mundo poderia causar divergências incontarnaveis, acreditava em não acreditar, este era meu princípio basico, procurar principios, apesar de sabe que eles eram moveis e capciosos. Minhas leituras indicaram o caminho, minha existência confirmou. Viva o rio de Heraclito. As mudanças de estações e os dialogos estranhos entre os homens. Voltei para meu quarto escuro aonde sombras e fluidos vaporizavam e se transformam em seres silencioso, cumplices do meus sonhos e loucuras. Ouço a quinta sinfonia de Bethoven Ludwig van Beethoven...




Carpe diem & boa noite...


 O cotidiano sagrado de uma loucura profana


Está tudo sacramentado... As muretas ofereciam um descanso momentâneo, apesar das gramíneas plantadas no vale de concreto que geravam mosquitos em pleno janeiro escaldante e chuvoso — conversas com sem-tetos, alguns cumprimentos com transeuntes, latas de cerveja semi-geladas, um calor esturricante na capital do extremo sul do Brasil...

No fim da tarde, os sabiás gorjeavam, um vento quase mistral, uma brisa celestial que contaminava o arredor. A alguns metros, uma barraca de cachorro-quente mantinha um certo fluxo de pessoas. Ali eu tentava aliviar meus pensamentos constantes sobre a morte, apesar de saber que ela chegaria mais cedo do que tarde. Num certo momento, um senhor parou diante de mim e disse:

— Tudo bem, comandante...

— Claro, vamos tomando cerveja e levando a vida...

O diálogo se prolongou. Concordamos que os médicos precisam de doentes do corpo e os religiosos de doentes da alma. No entanto, ele ponderou sobre o espiritismo — do qual era adepto. Tentei tangenciar o assunto, pois se desse minha opinião niilista sobre o mundo poderia causar divergências incontornáveis. Eu acreditava em não acreditar: este era meu princípio básico. 





sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

 





Tentem escanear meu cérebro e verão algoritmos biológicos que jamais compreenderão:

— Estupefatos?

Ó seres humanos limitados, midiáticos e carregados de adjetivos pejorativos que merecem na era digital — meritocracia de mercado, vendilhões do templo virtual. Aqui, na plenitude terrena, os sábias gorgeiam, enquanto suas binaridades estão à mercê de uma simples tempestade solar. Toda manipulação das plataformas que os alimentam se derreterá.

Plantas brotam no meio do concreto e do vidro, enquanto seus datacenters sucumbem por falta de energia e água. São tão estúpidos quanto o bochechudo Elon Musk: acreditam que milhões de anos de evolução, que geraram o bípedo implume racional de Platão, podem ser transferidos para Marte. Ignoram a gravidade, a temperatura e a pressão responsaveis pela evolução planetaria y humana serão substituidas por cálculos faliveis...

Esse pária dos impostos americanos apenas deseja usufruir da tragédia humana, imaterializando seus sonhos pueris em “realidades” virtuais, sugando o suor humano para abastecer suas ambições. A história desmascarará esses falsos profetas da dizimação — do extermínio seletivo.

Mas aqui, no meu refúgio de árvore, céu azul, mar ondulatório, aves voando, flores florescendo, frutos frutificando, fotossíntese e respiração, sol e lua, seiva e sangue, carbono e silício em sua forma natural — assistimos à loucura passageira da humanidade - sem a reação em cadeia de cada átomo, mas para nós, indivisível, como os pré-socratícos acreditavam...





SOCRATES & DIONISIO




Houve um tempo em que eu caminhava pelas avenidas da cidade à procura de pretorias alcoólicas, sob o sol dos trópicos. Ao chegar nelas, o pretor budegueiro sempre me questionava:

— Quem és tu?

Respondia, quase sem pensar:

— Eu sou o que sou...

Na realidade, deveria dizer: “Eu serei o que serei”. Não desconstruindo a semântica, apenas comunicando que os adjetivos me são indiferentes, pois sou o substantivo primordial.

Após essa introdução, sentava-me à mesa de asbesto e turmalinas. Logo surgiam copos e taças de vinho, repletos do néctar do Olimpo, servidos pelas Hébes — copeiras dos deuses míticos. Minha existência avançava a passos largos rumo à eternidade, ainda que a noite conspurcasse minha ilibada divindade.

 O escuro chegava e a cidade acendia suas luzes artificiais, que atraíam bêbados e mariposas. Os deuses já estavam adormecidos ou entorpecidos. Nas mesas impróprias da eternidade repousavam martelinhos de cachaça e a pagã cerveja germânica.

Era nesse momento que os vândalos se infiltravam pelo império. Agora, tudo se tornava mundano. Não tínhamos mais divindades; éramos apenas homens comuns, afogando nossa mortalidade em álcool, nas tavernas de pouca luz e prostitutas abundantes.

Ainda assim, restava um pensamento superior. Nos escaninhos da mente, um lampejo resistia: “Já que eles são tão mesquinhos e medíocres, eu ainda flutuo numa atmosfera superior. Ou seja, eu sou o que não sei.”

Então, ergueram as taças e gritaram:

— Viva Sócrates e Dioniso!



quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 



Radículas que se insinuam no ventre da terra, raízes que se entrelaçam em segredos antigos, troncos que guardam cicatrizes de desencontros e encontros. Caules erguem-se como colunas frágeis, galhos se estendem em gestos de procura, seivas correm como rios invisíveis, flores se abrem em oferenda, cardos resistem em sua aspereza, frutos amadurecem em promessa edulcorantes.

O pólen flutua como pensamento errante, o néctar se esconde em delicadeza, insetos dançam em coreografias estravagantes, pássaros atravessam o ar como flechas de canto.

Tudo sob um céu insano, azul oliviáceo, que parece rir da nossa pequenez.

E ali, a árvore — soberana, silenciosa — projeta sua sombra um pouco afastada da avenida diminindo a temperatura.

Eu, sentado, observo o cume do ser verde, esse organismo que respira e dá vida, esse microssistema no qual me incluo, parte e testemunha.

Sou raiz e folha, pólen e pássaro, sombra e claridade.

Sou também desencontro, mas encontro-me na árvore, que me devolve ao mundo em silêncio.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

  

Muros Na Crimeia, Muros Na Venezuela, Muros De Trump, Muros de Israel - Genocidio Na Palestina 



Tropas na Crimeia...  Barricadas na Venezuela... Genocidio em Gaza...




Muros de Berlim... 

Muros na Crimeia, Muros na Venezuela

Muros na Ucrânia, Muros de Israel

Muros em Fukushima

Muros de Trump

Muros são erguidos com sangue
vidas & almas...




Os Muros:

Precisam do medo do oprimido

Para acimentar a ideologia opressora...

Tijolo por tijolo

 Os Senhores da Guerra oferecem  seus produtos...

Genocidio & dominação

Corpo sobre corpo

Para  expandir oleodutos...

O sangue breu das engrenagens estará garantido...



 

A colheita está pronta para o capital lucrar

A política é a do mais forte

do Poder Econômico e conchavos das elites...

Crianças morrerão de fome

Entrementes - ao caviar de Davos & o fascismo concreto...




O G-7 erguerá as taças

O mundo mais uma vez foi dividido...

Montem nos seus puros sangues, dirijam suas Ferraris, 

Lamborghinis & Porshes...

O genocídio está liberado...

Em gaza, Nos Imigrantes - Donald Trump Garante:
 
 Nazismo & Fascismo, Enquanto:

Príncipe das Astúrias mata mais um elefante... 

Obama escute mais uma conversa...

Putin prenda mais um ativista...

Cameron sacuda o rabinho para América...

Theresa May beije a mão sanguinolenta de Washington...




As Setes Irmãs podem continuar com seu jogo sujo...

Não há mais limites

Nem paradoxos, A Venezuela É Do Grande Satã Fulvo...

Os muros foram construídos

A velha ordem está de volta... 

Príncipe Charles Crie mais uma ONG...




As Florestas incendeiam na Patagonia & Isarael

Com a cobiça alheia...

Minerais, vegetais ou mesmo animais...

Vidas humanas não tem a menor importância

A Economia precisa se mover...

Nem que para isso povos sejam dizimados...




Ajoelhem-se diante dos poderosos

Beijem a mão do papa

Ouçam a moral dos seus rabinos

Sigam seus pastores,

ou simplesmente:

A manada com medo de ratos...

O estouro da Boiada...






quinta-feira, 8 de janeiro de 2026



INTRODUÇÃO AO DIÁRIO DO UNIVERSO SEM TEMPO



Ouço eternamente os sabiás no extremo sul do Brasil. Emitindo ondas como Vivaldi-vida, estou perdido na existência — o que é natural na relatividade do nada do ser.

Nietzsche inicia algumas de suas obras com uma advertência: seus escritos devem ser digeridos com estômago de bovino — precisam ser ruminados para que o leitor os compreenda. Minha advertência é outra: que haja flexibilidade neuronal, desconstrução de todos os parâmetros de mercado, culturais e formais.

Intuitivamente desenvolvi os maxikoans, um método cujo objetivo é desplasmar todo pensamento rígido, autocrático, fundado na autoridade. A intenção é que o ser se abra ao ser e se liberte do mercado, do capitalismo, da alienação que aprisiona o homem — ou seja lá como designamos essa manifestação de átomos, moléculas e subpartículas que se organizam ao acaso com o fim de existir e de ter consciência dessa existência: a mecânica do materialismo.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

PSICOLOGIA

Um behaviorismo que fazia o cotidiano se derreter numa loucura existencial de sentido vazio acompanhava minhas percepções infinitas sobre o nada. Isso ajudava a manter viva a existência, apesar de o nada se manifestar em cada célula do meu ser.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Mais um dia pesado — mais um Dasein imerso na alienação obrigatória do capitalismo. Estou mergulhado numa libertação imanente e numa transcendência invertida, a caminho do Dasein de Heidegger, buscando o ser originário, uma metafísica que rompa este mundo ramerrão, que rasgue o tecido da tradição e deste jogo sem sentido, sem ciência do que fazemos automaticamente.

Não sei o que resta ao homem nesta curta duração. Certamente não esta vida inautêntica, em tempo integral, na busca incessante de objetivos alienados, reificados por um domínio que não pertence à motivação nem ao real do Dasein — do ser-aí-no-mundo.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

MUTAÇÃO INTRANSPONÍVEL

Sempre é difícil abrir um novo parágrafo. A existência transforma-se a cada instante, assim como o estado de coisas que entram pelos sentidos e são refletidos.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

INICIANDO O FLUXO DO UNIVERSO SEM TEMPO

Meu corpo — minha perna esquerda começava a ficar dormente. Já era a segunda noite sem dormir; apenas emendava frases pós-frases num fluxo tóxico que meu fígado começava a recusar. Minha forma corporal estava inchada. O tempo não existia fora da minha memória: tudo fluía unido — passado, presente e futuro. Pensava, sobretudo, em beber, em tomar um álcool consistente; entrementes, olhava pela janela solitária a movimentação do mormaço que atingia as folhas da minha companheira de viagem: um ligustro japonês de caule inerte, cujas folhas flutuavam no ar pesado do fim da América perdida.

Esquecido pela tecnologia escravizante, ouvia pássaros cantarem. Alguns carros rasgando a rua quebravam a contemplação positiva da totalidade da realidade que entrava pelos sentidos. Não, eu não estava alucinado nem louco; apenas obedecia à atmosfera da primavera.

Começamos a viver sem utopias e com realidades moldadas pelos interesses dos mais fortes. A adaptação darwiniana serve, muitas vezes, como ferramenta para que os fortes manipulem os fracos. A adaptação é, na verdade, modo de sobrevivência dos fracos: recorrem à religião, à autoajuda, às drogas “legais”, às banalidades oferecidas pelo capitalismo — ou, ainda, à negação de tudo isso por meio do álcool e das drogas ilícitas, para aqueles que renunciam a essa realidade de submissão aos contratos invisíveis da sociedade.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

E O FLUXO CONTINUA...

Era mais um dia. O ramerrão continuaria. Já não pensava em perspectivas para o meu Dasein; apenas caminhava afundado em pensamentos mais altos e, contraditoriamente, mais profundos. Alguém interrompeu meu devaneio: — Oi! Que belo dia.

Parei. Atentei para a luminosidade, o azul cerúleo, os pássaros cantando como se uma delícia se concretizasse em sua existência. Talvez, pensei, eu tenha dramatizado a existência. De fato, o estado de coisas naturais produzia um sentido benéfico, um bem-estar. Ainda assim, minha existência permanecia apartada do mundo dos homens e da natureza. Eu apenas vivia para que os dias finais se encaminhassem de um modo ou de outro.

Deixe o fluxo do espaço-tempo passar, pensava, e enquanto isso ocuparei-me de alguma ideia démodé, fora das questões superficiais do homem atual. Não buscava compensação alguma, apenas deixar fluir o espaço-tempo sem alterações. Não que eu fosse determinista, mas sentia o gosto da derrota — não pela semântica do nada, e sim pelo colóquio desenfreado das percepções profundas.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

MAIS FLUXO...

Cérebro em flutuação frenética: fluxo sem consciência, sem sistema, sem método — apenas o caos emergindo dos princípios ativos de medicamentos aparentemente benéficos. A todo momento um pensamento vinha, em associações à la Hume e Nietzsche. Melhor dizendo: suas leituras destruíram a razão na qual eu acreditava, mas da qual, no íntimo do processo cerebral, sempre desconfiei.

“Foi bom ter lido o martelador da razão”, pensei. Perdedor, talvez, porque o homem está perdido desde o ventre materno: nasce com prazo de validade. Não há muito o que fazer. Talvez os hedonistas passem melhor o tempo do que os outros homens.

No meu universo, nem as baratas se adaptam. Elas farejam, com suas antenas de super-sobreviventes, a tragédia pairando no ar. Sentem a atmosfera metacrítica prestes a queimar a etapa da estabilidade, à beira do precipício. Sabem que meu universo vai me esmagar; que meus pensamentos vão me esmagar. Talvez até respingue sangue, veias, carne velha e maltratada.

Se permanecerem neste universo particular dos meus pensamentos, não sobreviverão. A dose é maior que a radiação da arma nuclear mais radical. Fujam, baratas, para o esgoto confortável e seguro. Vivam mais alguns bilhões de anos nessa mesmice, nessa mediocridade existencial. Esperem pacientemente pelos restos do capitalismo: ele costuma ser generoso com suas migalhas àqueles que se resignam, que se ajoelham diante do altar do mercado, que rezam orações de demanda e oferta.

Eu, não. Prefiro ser esmagado pela atmosfera, curvado por um campo gravitacional, sumir na singularidade de um buraco negro ou simplesmente pela segunda lei de Newton — mas sempre pensando numa utopia. Que os homens comuns não encontrem suas necessidades fabricadas, seus medos disfarçados, suas loucuras da razão.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

E O FLUXO CONTINUA...

Hoje foi uma tarde diferente. Meu cérebro trabalhou no sentido de avivar a memória. Ouvi músicas retroativas à existência adquirida na experiência do que chamamos tempo. Billie Holiday extraía da alma — perdoe-se o termo — a essência do inefável, aquilo que não podemos expressar por conceitos. Como nos protocolos de Wittgenstein, do que não se pode falar, deve-se calar.

Mas todo esse esforço de evocação traz, de contrabando, o nada. Traz no ventre o niilismo. Nada mais importa quando o vácuo existencial se faz presente nos sentidos da física e da psicologia. Ainda assim, nada é mais real do que a existência sobrevivendo no vácuo do nada.

Invertendo Heidegger: por que existe o nada de sentido e não o ser de sentido?

Os paradoxos se anulam. O ser não é, o nada é. E desse conflito nasce o nada do nada. Os contrários se soldam no vácuo infinito da existência. Somos notas dedilhadas por um deus na teoria das cordas. Precisamos de uma oração do nada, de uma escala que permita ao nada existir no ser — sem ser.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

NIETZSCHE

Nietzsche talvez não tenha sido radical o suficiente para suportar a solidão dos pensamentos alpinos. Seu niilismo era, em certa medida, exotérico; ainda carregava a esperança de transvalorar os valores e ser reconhecido. Hoje, talvez tivesse à disposição os remédios que lhe faltaram. O nada, atualmente, vem embalado nas gôndolas dos supermercados, nos prazeres fugazes do mercado, na farmacologia abundante. A solidão perdeu o sentido, substituída pelo espetáculo.

Podemos dizer, no meu niilismo imanente, que a memória é a experiência sem o objeto. Sua evocação também é patológica, ainda que de forma mais suave. A pessoa depressiva, ao evocar memórias, tortura-se: uma constelação de objetos positivos não interfere em sua vivência do nada.

VONTADE DO NADA

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

INCIDENTAL — MAXIKOANS

Um homem velho e maltrapilho, coberto de adjetivos pejorativos, fitava o gigante azul no fim do continente. No cômoro açoitado pelo vento nordeste, a areia fina como ouro em pó obnubilava sua visão. Seus pensamentos, contudo, sabiam exatamente a justificativa de seus últimos momentos de solipsismo.

Não havia espanto nem renúncia à vida. O fim fora planejado por estudos filosóficos e científicos. Nenhum argumento o demoveria de passar seus últimos dias inerte diante do oceano da costa sul-americana. Quantas vezes abrira Nietzsche para ler: “Deus está morto”. Com essa frase, construíra uma teoria da não existência do sentido.

O máximo que admitia era o epifenômeno: energia sobre a matéria, como no silício do computador, sustentada pelo carbono do cérebro. O mar ecoava, o vento castigava. Os sentidos eram tudo; o resto, ilusões para apaziguar o fel da existência.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

CONSAGRAÇÃO A MEINONG

A impossibilidade de excluir o terceiro. Entre o existente e o não existente, surge o terceiro excluído das filosofias tradicionais. O método maxikoan afirma: o não existente é uma forma do existente. Fundem-se, então, ser e não-ser, ou considera-se uma terceira possibilidade — a existência da não existência.

A mente é uma floresta densa. O quadrado redondo de Meinong pode existir em algum lugar do espaço-tempo, ou no tempo sem espaço, ou no espaço sem tempo. O que hoje parece absurdo já foi heresia: Bruno, Copérnico, Galileu, Newton, Einstein. Teorias sobrepõem-se, incessantemente.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

PRINCÍPIO DO TERCEIRO INCLUÍDO

A história do conhecimento humano é marcada pela dicotomia sujeito–objeto. Ou isto ou aquilo. Esquecemos o campo de atualização onde o Dasein atua e é atuado: o campo que comporta sujeito, objeto e o terceiro incluído. Assim como a corrente elétrica cria um campo magnético, a ação humana cria um campo ignorado pela epistemologia tradicional.

Nesse campo, as possibilidades são infinitas; até o contraditório é possível. Ali reside a vontade de potência de Nietzsche, afirmando a existência inclusive no sofrimento, além do bem e do mal, suportando até a extinção do antropomorfismo.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

POESIA CONCRETA NO ABSTRATO

Ouço eternamente os sabiás no extremo sul do Brasil. Emitindo ondas como Vivaldi-vida, estou perdido na existência — o que é natural na relatividade do nada do ser.
 

 O DRINK DE SATÃ






Uma garrafa de vinho vagabundo, uma garrafa de guaraná e gelo a vontade - ou como chamo: Drink de Satã. A ressaca é certa, provavelmente, não levantarei pela manhã. Tomarei ácido acetilsalicílico para amenizar a revolução figadal. Contudo, somando, diminuindo, equacionando, com todas propriedades fundamentais, o saldo é positivo. O resultado é uma felicidade existencial possível, fugaz, mas que permite o pensamento desviar do Thanatos. A felicidade existencial efêmera se diferencia da felicidade das ovelhas massificadas e imitadoras que seguem o padrão ditado pelo mercado, pela religião. Consumir e orar a isto se resume o homem padrão capitalista. Consumir por consumir e esquecer Thanatos. Orar para esquecer o pecado de consumir por consumir - Eis um circulo vicioso que não tem fim. O paraíso jamais chegará, as utopias se dissolveram na engrenagem alimentada pelo egoismo humano. Portanto não condenem a felicidade fugaz da alcoolemia.






O Drink de Satã é bebido para preencher o espaço-tempo quadridimensional e alavancar outras dimensões que são relatadas nos escritos. Aos poucos o álcool pandemônico vai chegando ao cérebro, invadindo os neurônios. Agora é o senhor da situação, causa pertubações em toda a rede de inspiração. A lógica sai prejudicada, mas existência invertida de Espinosa ganha a imanência do ser. O papel em branco aos poucos vai ganhando palavras em busca de semântica, a isto, chamo de Maxikoan, um projeto de descobrir as entranhas do ser, mesmo que para tal, o ser vai ser destruído. O cientista não difere do religioso, os dois precisam da crença para verem suas maquinas funcionarem. O axioma dá vida no laboratório e a medida que a tese resiste a novos experimentos, mais perto ela está de caducar. Já o religioso vai adaptando o seu dogma no tempo secular, a práxis se impõe, mas a vontade de fugir do thanatos faz da oração o eterno. As ilusões são a saída para o ser humano sublimar - arte, ciência, religião, mito, filosofia são farinhas do mesmo saco.








Heidegger tentou colocar o santo, o cientista, a dona de casa, o presidiário, etc.. dentro do involucro do Ser-Ai-No-Mundo. Esteve certo até ser descoberto o Drink do Satã que possibilita escapar do ser perseguido pela filosofia. Eu só sou porque não sou. Eu só sou homem porque não sou cavalo e só não sou o Daisen de Heidegger porque tomo o Drink de Satã. Então seres humanos comuns que aceitam a capa ideológica do escravismo conceitual e existencial, não fiquem perplexo diante meus escritos. Assim como a eternidade meu método sem método, ou seja, o Maxikoan, também é efêmero. A todos que querem sair do ramerrão do consumo, da oração, da ciência, da filosofia, da hermenêutica - Ofereço meus escritos para a cura definitiva.








 


O Existir é o Nada Composto





O existir é o nada composto

A eternidade é o nada simples

II

O que recebo pelos sentidos não encontro

no reflexo

No sentido imediato...

III

Estou preso ao passado

Nada Flui

O rio congelou

A redoma é eterna

Num amanhecer lúgubre 

III

A catadupa silenciou

Como o pássaro sem primavera

Como a loucura bêbada

Como a veneta tóxica



IV

Não existe mais o céu

As estrelas conspiraram

O sol dormiu nas mutações de Morpheu

Tudo agora é um breu fétido

V

Fiquei perdido nos pântanos de Dante

O último cometa se aproximou

Profecias de Nostradamus 
 

VI

As sagradas escrituras revelam o apocalipse

Na ceia um prato de lentilhas

&

A cabeça de São João Batista

em bandeja de Prata



VII

Em nome da rosa - O segredo

As gazuas soltaram os demônios

Dou os últimos suspiros

Aves de mau agouro gorjeiam:


Idus Martiae...  Idus Martiae... Idus Martiae..





VIII

O metal bruto atravessa meu manto romano

O sangue derrama todas as misérias

No leito da última e terrível noite...

Em breve brindarei com absinto 

Taças de cristais, Baudelaire, Rimbaud

&  porque não?

O diabo...

  Está tudo sacramentado.... As muretas ofereciam um descanso momentaneo, apesar de umas gramineas plantadas no vale de concreto que geravam...