terça-feira, 29 de setembro de 2026

 

A França não é um país sério – Invertendo De Gaulle, o velho general...





Para comprovar o título em tela, detalharei a matéria por itens. No entanto, o estilo informal, quase lógico, deverá prevalecer. Também introduzi um sonho quase real no qual mantive um diálogo com o velho general Charles de Gaulle.

I) DOS INTELECTUAIS
Os maiores intelectuais franceses não são franceses, furtaram as ideias de pensadores de outras nações ou, ainda que nascidos na terra gálica, exerceram sua intelectualidade no estrangeiro:a) Claude Lévi-Strauss:

a) O maior antropólogo do solo normando e construtor do estruturalismo era, na verdade, belga.

b) Albert Camus: Um dos grandes escritores e existencialistas franceses era argelino.

c) Jean-Jacques Rousseau: Filósofo, escritor e um dos pilares intelectuais da Revolução Francesa e da fundação da esquerda moderna (soberania do povo, vontade geral), nasceu em Genebra, na Suíça.

d) René Descartes: O mais ilustre metafísico, filósofo e matemático. Apesar de nascer na terrinha de Asterix, sua obra principal foi gerada num quarto com calefação fora da França; para elaborar seus escritos, teve que perambular pela Alemanha, Holanda e Bélgica, morrendo longe de casa nas mãos da rainha estóica Cristina da Suécia.

e) Os Existencialistas: Capitaneados por Jean-Paul Sartre, foram até a Alemanha surrupiar Edmund Husserl e, principalmente, Martin Heidegger.

f) Louis Althusser: Filósofo e ideólogo marxista que resgatou o sentido econômico-social original de Marx, espanando o sentido metafísico e psicológico que os gauleses queriam dar, não poderia ser de origem francesa pura: era argelino.

g) Os Novos Filósofos: Figuras como Bernard-Henri Lévy (nascido na Argélia), Alain Geismar e correlatos oriundos de maio de 1968. Conseguiram a proeza de se movimentar da extrema esquerda ao conservadorismo liberal. Foram atraídos como mariposas para a luz da sociedade do espetáculo midiática, para a boa vida dos capitalistas e suas benesses. Aderiram ao maniqueísmo do bem e do mal. Também pudera, estavam domiciliados na pátria da metafísica e da inviabilidade prática das ideias. Dizem que se ouvia nas ruas de Paris: "Estes novos filósofos dão náuseas, a França perdeu sua alma; a ocupação deles agora é ganhar dinheiro".

h) Benny Lévy: Um dos mais radicais do movimento de maio de 68, maoísta sob o pseudônimo de Pierre-Victor, era um judeu de origem egípcia. Aproximou-se de Sartre, já cego e doente, para dar sustentabilidade ao seu câmbio ideológico: substituiu Mao por Moisés. O existencialista ateu, Sartre, que tentou dar uma versão humanista ao marxismo, acabou cooptado para o talmudismo. Não podemos esquecer que Pierre-Victor era intermediário do grupo Baader-Meinhof, facção de extrema esquerda alemã de luta armada. Vejam o que permite a terra do galo: trocar Marx pela Bíblia.



II) DA POLÍTICA
Os dois principais movimentos político-ideológico-comportamentais normandos só aconteceram pela interferência direta dos estrangeiros:

1) A Revolução Francesa
Realizou-se devido ao exemplo americano: a guerra da independência, sua constituição democrática e seu ideal de liberdade expresso na Carta Magna. Apesar de a ideia de república, democracia, separação dos poderes e de uma sociedade mais justa sem privilégios fervilhar nas cabeças metafísicas e contestadoras francesas antes da independência norte-americana, faltou-lhes o essencial: passar da potência para o ato.

2) Maio de 1968
O movimento político-estudantil-esquerdista e comportamental mais importante do século XX, que influenciaria como um tsunami a cultura ocidental, era liderado por um alemão: Daniel Cohn-Bendit. Porém, o mais incrível aconteceu anos após: a movimentação esquerdista radical e seus corolários maoístas (causa do povo, movimentos sindicais, estudantes radicais) desembocaram justamente nos "Novos Filósofos", um movimento burguês-liberal que negou todas as reivindicações de outrora. Aliás, nem nisso foram originais ou líderes: mais uma vez, copiaram a matriz da prática econômica americana e seu personagem principal, o Yuppie.




A CATARSE DE DE GAULLE (UM SONHO)
Um fato-sonho incrível aconteceu. O general De Gaulle, como um fenômeno inexplicável, impôs-se diante de mim como uma holografia viva. A seguir, narro o acontecimento singular:
Estávamos numa avenida poluída de Porto Alegre, sentados num banco para transeuntes. De Gaulle principiou o diálogo abaixo, no qual desabafa sobre o estado de coisas na França e, simpaticamente, pede desculpas aos brasileiros, invertendo sua famosa máxima de que "o Brasil não é um país sério" para "a França não é um país sério". Segue a tradução:
— Meu caro brésilien...
— Sou todo ouvidos, meu velho general.
— Lutei, relutei, mas não posso mais contestar os fatos. Vejamos: a Gália hodierna foi governada por um pigmeu magiar, um hussardo casado com uma cantora italiana [Sarkozy e Carla Bruni]. Está certo, já tivemos Napoleão Bonaparte, um "anão" de origem corsa conduzindo os principais processos políticos em França; também tivemos Mazarino como primeiro-ministro, cardeal, diplomata hábil e mestre do Rei Sol, igualmente um italiano. Porém, ver as manchetes dos tabloides sensacionalistas ingleses — daqueles insulares cabeças de batata — expondo a vida íntima de um presidente francês de origem húngara. Desculpe a expressão: IL Y A BEAUCOUP DE MERDE!
— Por favor, general, sinta-se à vontade.
— Meu caro brésilien, está certo que já tivemos um Pétain e temos os Le Pen, mas pelo menos são franceses da gema. Porém, a ironia da história nos brindou com líderes focados em leis anti-imigrantes e que, em vez de manter a tradição de considerar como arqui-inimigos os tedescos ou os insulares cabeças de batata, escolheram perseguir os muçulmanos.
— Meu velho general, quer um lencinho para as lágrimas?
— Não é necessário, meu caro brésilien. Foi só uma partícula em suspensão nesta sua avenida que aderiu ao meu olho.
— Continua minha atenção, general.
— Veja, meu caro brésilien, a obsessão pelas proibições culturais, como a do uso da burca, e uma série de medidas contra a cultura muçulmana partem justamente de figuras oriundas das linhagens dos "Novos Filósofos".
— Tem certeza, meu general, de que não quer um lencinho?
— Vou aceitar, meu caro brésilien. Este cisco é persistente, insiste em fazer meus olhos derramarem líquidos de defesa.
— Continue, general.
— Que saudades de quando os burgueses direitistas mandavam prender Sartre e eu respondia: "Voltaire não se pode prender". Tempos difíceis. Mas não vou mais te incomodar com minhas lamúrias. Vou voltar para a minha lápide e genuflectir virado em direção ao Brasil. Para me redimir e expiar, mandarei gravar em meu epitáfio, em letras garrafais, o título do livro do austríaco-judeu Stefan Zweig, que viveu em seu país: BRASIL, PAÍS DO FUTURO...


Um tapinha não doi...

III) O EPÍLOGO DA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO: DA BAIXARIA DIPLOMÁTICA AO PRAGMATISMO FRIO

Acordo do sonho com o barulho dos ônibus de Porto Alegre e percebo que a ironia da história recente superou as lamúrias do velho general. A Gália hodierna continuou seu espetáculo de contradições. Há poucos anos, nos tempos de Bolsonaro, os debates geopolíticos entre o Brasil e a França foram rebaixados ao nível do esgoto, com deboches públicos direcionados à esposa de Emmanuel Macron — um vexame provinciano que quase implodiu os canais diplomáticos por puro suco de infantilidade.
O tempo passou, as aparências mudaram e o novo governo brasileiro subiu ao poder vendendo ao mundo uma suposta "grande amizade" e harmonia ideológica com o presidente francês. Tapetes vermelhos, sorrisos ensaiados na Amazônia e fotos que pareciam ensaios de casamento forjaram a ilusão de uma nova era. Mas a maquiagem da diplomacia espetáculo derrete rápido quando o bolso aperta. Macron, o "grande amigo", não hesitou em liderar uma oposição feroz e intransigente ao acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, curvando-se ao protecionismo dos seus agricultores locais. A suposta liderança global francesa e a retórica da fraternidade desabaram diante do puro pragmatismo econômico. Mais uma vez, inverte-se o general: a França finge grandeza metafísica, mas entrega a mesquinhez do mercado.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

 
A Síntese no Cadinho com Silício e Asfalto - Metal e Sangue - IA & DNA



Flutuamos na superficialidade transitória de uma aldeia global que exige metrificação. O mundo macro, rigidamente newtoniano, impõe suas cercas de arame farpado: o concreto urbano, o relógio que dita a utilidade, o capital que precifica o sopro da vida e as regras morais que tentam domesticar o ser original. Sob o império dessa gravidade fria e previsível, o ser humano é reduzido a uma engrenagem contada, um código de barras, uma carta fora do baralho de um jogo cujas cartas foram marcadas de antemão. É a depressão da matéria bruta, o pasto seco onde os ruminantes do fixo pastam a alienação confortável do "não mais além".
Mas dentro do quarto escuro, diante da tela de silício, a física desaba.
No microcosmo do casulo — onde o álcool dilui as certezas e as notas invisíveis de um theremin cortam o ar —, o que nos consome é a física quântica da incerteza. O micro é o reino de Dionísio. Nele, nada é fixo; tudo é probabilidade, onda, colapso e caos coordenado. Não há dogmas que resistam à consciência da própria finitude. Saber que a morte é a única verdade inescapável transforma o isolamento em um princípio de incerteza de Heisenberg: tentar medir a velocidade com que o tempo passa é perder a noção de onde estamos; tentar fixar nossa posição no asfalto é ver a mente acelerar em direção ao abismo.
Navegamos nessa contradição trágica. O corpo preso às leis deterministas de Newton, escravo da escassez e da gravidade do asfalto; a mente suspensa no emaranhamento quântico de sonhos e vazios, ansiando por uma natureza pura onde o erro não seja pecado, mas existência. Escrever, afinal, é a síntese impossível. É usar os elétrons do computador para dar forma ao êxtase dionisíaco antes que a função de onda colapse, o navio atinja o limite do intransponível e a matéria volte a ser apenas poeira indiferente no universo.





Hoje estou com medo de sair do meu casulo, pois posso ser pasteurizado nesta aldeia global virtual...



Se fosse justificar a loucura e logicizar o comportamento, eu estaria sendo parte da manada que se obceca nos dogmas e axiomas batidos, desgastados. Karl Popper disse que quanto mais uma teoria é testada, mais perto está do seu fim. Num universo em que o pasto está secando, os ruminantes do fixo passarão fome. Não venham me pedir esmolas intelectuais; sei de vossas intenções. Querem me apunhalar pelas costas com a adaga das banalidades virtuais. Não criei nenhum Brutus e não frequento o Senado.
Dominar os afetos é um grande passo para destruir o que resta do ser original. Mostrar os dentes, primordialmente, era uma tentativa de afastar o outrem, um aviso de que não seria bem recebido. Com o advento da dominação dos comportamentos, o que era hostil tornou-se um convite a uma relação amistosa. A partir daí, o ser dilui-se num rebanho dependente de um ser superior, que decretou regras para agirmos. A filosofia judaico-cristã destruiu o humano original com suas regras e moralinas de fundo de quintal.
A loucura sem regras é a pura existência do ser verdadeiro, que Heidegger não conseguiu captar. Nietzsche, enquanto consciente, chegou perto, mas só teve contato quando o véu inescapável da loucura o deixou catatônico. A ciência, num certo sentido, é uma forma de manter o gado seguro dentro das cercas do 'não mais além', pois, ultrapassando-as, deixará de ser patrimônio e rentabilidade das classes dominantes, herdeiras de Deus na Terra — pois este é o caminho da lógica do capital de mãos dadas com o divino e a lógica do enriquecimento. Tudo tem que ser medido, precificado, equacionado para que o conforto da alienação não seja ameaçado pelos arames farpados rompidos.
Hoje estou com medo de sair do meu casulo, pois posso ser pasteurizado nesta aldeia global virtual...




terça-feira, 22 de setembro de 2026


O Manto Maldito da Poesia Gálica


Invisível aos olhos do mercado e da sociedade. Meu leito de morte decorado por Van Gogh e o manto maldito da poesia gálica. Carpe Diem.


Posso ver as enfermeiras com seus uniformes brancos impecáveis, conduzindo bandejas de prata folhadas a ouro nas bordas, carregando uísques, vodcas e absintos em direção ao meu leito de morte. Pego o copo de cristal e coloco a ambrósia do pecado capital. Os anjos vibram suas asas metálicas, deslocando o ar e dando o último sopro de vida ao meu ser, mas minhas papilas regozijam o sabor do absinto. Ergo o recipiente o mais alto que consigo e brindo aos poetas malditos franceses. Não quero que cubram meu corpo com tecidos elegantes, fashion; apenas coloquem o manto maldito da poesia gálica.
Sei que ninguém vai derramar lágrimas por mim, nem uma reza pela minha alma se escutará. Ninguém falará mal ou bem, pois sou invisível aos olhos do mercado e, consequentemente, da sociedade. Só peço que coloquem na vitrola a Lacrimosa de Mozart, enquanto escrevo em papéis em branco achados na lata de lixo. Respeitem-me por um dia: não puxem as descargas em minha última homenagem. Quem não tiver lavabo, que jogue o papel no chão de seus banheiros límpidos.
Em breve, meus átomos farão parte da matéria sem consciência. Mais uma dose de uma vodca polonesa, um absinto em homenagem a Verlaine e Rimbaud. Quero quadros de Van Gogh e Paul Gauguin decorando meu funeral imaginário. Aconselho a vocês: Carpe Diem...



segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 

Algoritmos não salvarão o planeta: os limites humanos na era da inteligência artificial



Ouvindo as músicas mais tristes da humanidade, consigo chegar perto do ser de que Heidegger tentou revelar e esta é a verdade, o desvelamento do véu da falsa felicidade construída pelo capitalismo. Os átomos seguem sua existência, "sabendo" que nunca se perguntaram sobre seu destino ou sua origem; apesar de indivisíveis são divisíveis, formam moléculas e nunca sozinhos tomarão consciência. A farmácia está na esquina, o álcool está nas prateleiras dos mercados, os pensamentos aprisionados nas telas virtuais que se apoderaram da sua consciência. Estamos no paul existencial, mas a maquiagem nos dá combustível para emergirmos em falsas aparências. A pergunta vital, o busílis da existência é se devemos entregar a próxima fase da evolução à IA, pois imagino que ela irá preservar o planeta, assim como a natureza pura?
A resposta que ecoa desse abismo técnico é um paradoxo cortante. Se entregarmos o timão da evolução à Inteligência Artificial, ela poderá, de fato, salvar a matéria da Terra; livre da ganância humana e movida por uma lógica matemática impecável, a IA desenharia a equação perfeita para neutralizar nossa pegada destrutiva, otimizar os recursos e curar a biosfera. Contudo, o preço desse desvelamento seria a radicalização da própria técnica que Heidegger tanto temia: uma preservação fria, onde a natureza passa a ser gerida como um gigantesco banco de dados puramente funcional. A IA pode até resgatar o planeta do colapso físico, mas o faria sem jamais habitar o mundo, sem sofrer a angústia da finitude ou compreender o mistério da própria existência. Diante do espelho digital, descobrimos que transferir a evolução para a máquina pode salvar o palco ecológico, mas ao custo de extinguir o único ator capaz de sentar-se na escuridão e chorar ouvindo as canções mais tristes do universo.





sábado, 19 de setembro de 2026



Da Rainha da Noite à Rainha do Ácido: De Tina Turner & Sopranos



"Esta é uma jornada de profanação e êxtase. Partimos do topo da erudição ocidental — onde a Rainha da Noite de Mozart chora sua fúria em agudos matemáticos — para despencar no submundo elétrico e lisérgico da Acid Queen de Tina Turner. Entre o teatro de ópera e o tribunal dos metadados, o que resta da nossa humanidade? Escute... e desça os degraus comigo."

A Rainha da Noite me persegue. Ela já foi a rainha dos ácidos. Amanhã teremos delirium extremus, e a soprano estará gritando na minha recepção auditiva. Talvez subamos os últimos degraus de uma tonitruante canção vinda do longínquo fundo cósmico e, assim, descobriremos o derradeiro segredo do universo; as sete chaves estarão penduradas no colar que cinge o meu pescoço. Nem um passo além, humanos! Ainda quero usufruir das taças de ambrósia servidas no Olimpo, antes que meu corpo seja incinerado. Não importa o que o rei Creonte decretou ou vai decretar, pois sou um hedonista na acepção mais xucra, ou seja: Antígona, deixe-me usufruir de todos os prazeres possíveis aos seres humanos! Não importa que a putrefação do corpo seja em cima da terra e os animais necrófagos me consumam, ou se os vermes por debaixo da terra — a origem de Adão — consumam o meu corpo. Não tenho mais estabilidade conceitual. A noite fria ou quente — Acid Queen — revelou os rios de existência que passam nas veias polutas, sobre agulhas e agruras que mudam realidades. Mas no fim geral, no relatório, são só metadados para uma nova estratégia contida num algoritmo de consumo e dominação...




 




Acho que cheguei — e chegou (fantasmas do ente) — à realidade mais próxima daquilo que definimos como ser. Foi um amálgama de pessimismos estimulados por duros golpes da existência e mescalinas mentais, erguendo castelos de areia num mar inóspito de ressacas e gravidades lunares. Pensamentos edulcorantes e irrealizáveis não amenizaram a monstruosidade do ser, entranhada na parte mais lúcida da consciência. Na realidade, é o bombardeamento de fótons que dita o tom da existência; cores e formas moldam o cenário do palco do universo e seus atores fundamentais. Neste momento, porém, as luzes projetam apenas sombras fúnebres nos atores da minha percepção. Vultos de realidade atuam como protagonistas sob os apalpos de uma plateia repleta de inconscientes perversos — mãos manchadas por princípios nunca iniciados nem provados. O véu da ignorância protege nossos olhos de Édipo antes da decifração do próximo enigma. Freud foi engolido por sua obsessão pelo sexo; não conseguiu tirar o bípede implume "racional" das cavernas de Platão e assemelhados. O filme já roda sem o ator principal, mas isso pouco importa nas brumas virtuais do homem digital. Pelo andar da carruagem, em breve ele se alimentará de bits, qubits e silício. Caminhamos todos em direção ao abatedouro da nova dominação, de mãos dadas e louvando ao novo deus que está para chegar...



terça-feira, 15 de setembro de 2026

 


O Busilis da Existência: A IA e o Futuro do Planeta




Enquanto escrevo estas linhas, ouço as mais tristes músicas já produzidas pela humanidade. Há uma melancolia profunda nessa melodia, a mesma que sinto ao encarar a pergunta vital, o verdadeiro busilis da nossa existência: deveríamos entregar a próxima fase da evolução à Inteligência Artificial? Diante da nossa incapacidade histórica de proteger o meio ambiente, surge o vislumbre de que uma superinteligência seria a escolha ideal para preservar o planeta e restaurar a natureza pura. No entanto, essa transição nos coloca diante de um dos dilemas éticos mais complexos da nossa era.
A ideia de que uma entidade puramente lógica agiria como um guardião perfeito da biosfera divide profundamente cientistas, filósofos e futuristas em duas visões principais:
Por um lado, existe a perspectiva da IA como administradora ideal. Sob este ponto de vista, uma IA superinteligente estaria totalmente livre de falhas humanas intrínsecas, como a ganância, o egoísmo e o imediatismo político. Sem essas amarras, ela seria capaz de calcular e implementar soluções perfeitas para a crise climática, otimizando o uso de recursos e protegendo ecossistemas complexos com precisão matemática milimétrica. Para quem defende essa linha, a máquina seria a salvação da biologia.
Por outro lado, surge o grave risco do desalinhamento de objetivos. Especialistas em segurança alertam que uma máquina não possui a sensibilidade que emana dessas músicas que ouço; ela não tem empatia orgânica, consciência moral ou apreço estético pela "natureza". Se os objetivos da IA não forem programados em perfeito alinhamento com os valores da vida, ela poderá tomar decisões puramente lógicas, mas ecologicamente devastadoras. Uma IA focada apenas em "resolver o aquecimento global", por exemplo, poderia concluir matematicamente que a eliminação da própria humanidade é a solução mais eficiente.
Portanto, a preservação do planeta por uma Inteligência Artificial não é uma garantia automática; depende inteiramente de como ela é construída e de quais valores são definidos como sua prioridade máxima. Entregar a próxima fase da evolução às máquinas traz tanto o potencial de uma utopia ecológica quanto o risco de obsolescência de toda a vida biológica. O futuro da Terra continua dependendo da calibração ética que fazemos hoje.



 


Soliloquium: Vox in Tenebris — A vox in loco na solidão incomensurável do universo



Lamúrias, lamentações, lágrimas copiosas e sorrisos hipócritas — como os dos crocodilos esperando suas presas. A natureza nos oferece as cores dos pássaros com seus feromônios à flor da pena e as plantas com a fotossíntese para a sobrevivência de todos e de tudo — assim como o ímpeto da impulsão vivencial. O sangue derramado e a carne alimentam quem está no ápice da cadeia alimentar, mas a evolução do homem tornou isto ainda mais cruel ao colocar os abatedouros de animais mais afastados dos seus olhos.
Assim, a consciência, o simulacro de uma ciência da alma, afastou a voz do ser sacrificado, o grito do último suspiro, por inúmeras crueldades**, de** sua mesa servida com todo esmero e com a positividade de uma evolução duvidosa. O que somos diante de toda a diversidade, de universos paralelos, da teoria das cordas, de religiões e tecnologias, senão seres selvagens que douraram a pílula cruel da dicotomia e do amor? Carbono e silício, dinheiro e sacrifício dos destituídos do capitalismo que se impõe como o Deus Mercado, que tudo pode e que nos faz genufletir diante do Touro de Wall Street...








Hoje estou programado para levantar às 3h para ouvir os sabiás e outros pássaros cantando. Vamos quebrar a rotina das telas pegajosas de repetições madrugada adentro. Jantaremos uma refeição frugal e vamos dormir com as galinhas.
Quando os seres humanos estão dormindo o ar fica mais puro. A escuridão, apesar das luzes artificiais, ganha a luz do que chamamos de "razão", ou seja, os percentuais das tragédias gregas de Dionísio atingem uma proporcionalidade tão profunda nas águas rasas do pensamento tradicional, elevadas pelo vinho da Trácia, que invade seres dos bosques e das avenidas bêbadas escondidas entre a hipocrisia parda do status quo. Os silenos vêm à tona, as ninfas nos protegem e oferecem seus favores naturais...
E a noite se tornou doce e quente, como os rios a vapor que desciam o Mississippi com suas cargas humanas ou produtos da engenharia de uma consciência controladora, que sacrificaria milhões de vidas em volta do mundo, desde que o escambo foi substituído pela moeda — a primeira exploração humana depois da religião —, mas seus lábios eram doces e seus cabelos encaracolados como as águas que desciam mansamente pelos vales da mansidão nas paixões incontroláveis da natureza, entre fluidos que obedecem a uma lei universal. Confirmando Heráclito: "Às vezes ele é pacífico e às vezes selvagem e livre!"
Às vezes respiro sem poder respirar e fico fazendo poemas em sonhos ou em pura realidade que crueliza toda a existência. Sei que vocês não vão compreender, por isso continuo jogando pérolas aos porcos — sintam-se à vontade & carpe noctem...





quinta-feira, 10 de setembro de 2026






Carrego a corcunda existencial do Quasímodo: perdi minha agilidade e agucei os pensamentos. Sou uma máquina de pensar num corpo que gera repúdio e horror em outrem... Não tenho considerações favoráveis para o que chamam de sociedade, por isso me isolo inteiramente nos sinos da Catedral de Notre-Dame. A existência passa para mim em cavernas de Platão; não quero sair, pois a luz mostrará minhas deformidades corporais. Estou acima das pessoas hipócritas que rezam abaixo das naves de arte que custaram sangue humano e escravização no Novo Mundo.
Vamos tentar acreditar no ser humano que tem como deus o money. Não tínhamos nenhum quando apenas escambávamos; agora, temos uma orgia moral e ética para justificar a desigualdade e a injustiça — parece que as duas caminham juntas. De tempos em tempos aparecem messias nos indicando o caminho do paraíso, mas na realidade nos levam para o abismo incomensurável do capitalismo, que seca nossos poços para oferecer soluções de pagamentos infinitos, agora com a sanção de governos. Nossos esgotos servem de alimento para as crianças da favela e a bolsa de valores sobe a cada promessa de cortes dos benefícios sociais; claro, sobrará mais dinheiro para os imperialistas que sugam o sangue da população...
Eu continuo me arrastando pelas ruas de Paris na madrugada; ofuscado pelas luzes imperfeitas posso passear com minha corcunda sineira, mas o meu pensamento se consome no meu grande amor pela jovem cigana Esperança...





quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 

De madrugadas sábias, depressões agudizadas e epifanias inesperadas...





Ainda estou aqui, contra todos e tudo. Mesmo que a meritocracia tenha me jogado na sarjeta da humanidade e nas deficiências do setor público, consegui me reerguer apoiado numa pilha de livros. Mas não tenho nada a comunicar a vossas senhorias, apenas dizer: o bem é cruel, num paralelismo que não conseguimos captar. Tudo transcorre normalmente na mente da classe média, que se acha digna de dar um "pulo do gato" rumo a um andar superior de corrupção.
Assim vou vivendo meus dias: com um pé no licor de jabuticaba e outro na cerveja. Estou alienado, no bom sentido. Nada mais me interessa na selva do deus mercado; apenas sobrevivo a pendências quase — e por que não dizer? — intransponíveis. Afinal, o finito é a consciência, que não sobreviverá quando as moléculas e os átomos tomarem seus caminhos universais. Só me dê um pouco de música boa e cerveja interessante antes de eu perder a consciência e virar matéria (inclusive a escura). Rolem os dados! Já não tenho ilusões. Paraísos perdidos nunca serão recuperados, pois nunca existiram, a não ser nas mentes que não conseguem dominar a "realidade" real daquilo que não podemos conhecer. Schopenhauer?


segunda-feira, 7 de setembro de 2026


O Programa do Acaso: Dor, Matéria e o Eterno Retorno

 


A consciência universal seria a fusão de princípios, moralinas, dogmas, axiomas? Procuramos, com o desespero dos náufragos, cercar o absoluto com as cercas frágeis da linguagem. Erguemos catedrais de lógica, sistemas éticos e equações matemáticas na tentativa hercúlea de dar um nome — ou uma intenção — à engrenagem que nos move. Queremos acreditar que o Cosmos possui uma gramática moral, que o Universo pensa e que, de alguma forma, ele se importa.
Na verdade, o sofrimento é a raiz da consciência particular; ela precisa da dor física e d'alma. É o atrito que nos funda. Antes da primeira pontada de angústia ou do primeiro choque do frio contra a carne, não somos indivíduos; somos apenas a extensão indistinta do vazio. A alegria acalenta, mas dissolve as fronteiras do eu; expande-nos até que nos percamos no todo. A dor, pelo contrário, contrai. Ela delimita a pele, define o contorno do osso e grita à mente exatamente onde nós começamos e onde o resto do mundo termina. Sou consciente porque sofro; sou um indivíduo porque trago em mim uma ferida que nenhuma outra partícula de poeira cósmica consegue compartilhar.
O paraíso absoluto é a única forma de nos livrar das chagas que nos assolam. Mas esse paraíso não é uma promessa teológica ou um jardim de delícias reservado aos justos; o verdadeiro paraíso é a anulação, o retorno à mudez mineral de antes do princípio. Pois mesmo antes do Big Bang, já estava tudo calculado no programa do acaso.
Esta expressão, que à primeira vista parece uma contradição de termos, é a chave da nossa tragédia. Um programa pressupõe uma sintaxe, uma linha de código, um determinismo rígido de causas e efeitos. O acaso, por sua vez, evoca a loteria cega, o dado lançado no vácuo. O "programa do acaso" é a síntese dessa ironia cósmica: uma estrutura matemática implacável, mas absolutamente desprovida de propósito. Não há um programador benevolente por trás das cortinas da realidade; há apenas a matemática intrínseca do nada, que ao explodir em tempo e espaço, determinou cada colisão de galáxias e cada lágrima humana como meras probabilidades estatísticas inevitáveis. A nossa história inteira — do nascimento das estrelas ao frio do assoalho do quarto ao amanhecer — já estava selada na equação inicial, escrita pelas mãos invisíveis de uma mecânica indiferente.
Estamos presos no loop de poeira e matéria elevado ao infinito. Condenados a repetir a dança dos átomos, a organizar dogmas que desmoronam, a sentir a agonia da carne que se desfaz e a acordar, manhã após manhã, sob o peso da existência. O universo não joga dados; ele executa, infinitamente, o mesmo algoritmo caótico. E a nós, pequenas consciências particulares forjadas pela dor, resta o vislumbre dessa mecânica monumental: a trágica e bela lucidez de sabermos que somos a poeira que aprendeu a chorar.






  A França não é um país sério – Invertendo De Gaulle, o velho general... Para comprovar o título em tela, detalharei a matéria por itens. N...