sábado, 11 de abril de 2026





Ela era tão fragil. Consumia muitos cigarros e ficava olhando os bebados sentados no seu fim de vida. Seu sorriso era bonito na tenra idade. Uma Lolita? - Quem sabe um anjo decaído dos céus morais. Era um sabado benovolente, o azul e as cores se destacavam na incomparavel incidencia da luz outonal. Os goles de cerveja desciam maviosamente diante de tanta sensorialidade exposta pelo deus-natureza como já dizia (Espinosa). E ela na sua simplicidade encantava. E a manhã foi passando, e o alcool se acumulava no fluxo sanguineo. Ficava ali sentado sonhando com utopias romanticas. Meus pensamentos nunca conseguiam acompanhar a realidade. Tudo era projetado em reinos impossíveis de alcançar. A cabeça girava contraria a translação da terra. O sol e a lua eram referencia e encantamento. Desejava ser um indio e com arco e flexa alvejar a hipocrisia humana, porém estou sentado sorvendo cerveja y amigos do passado surgem como holografias e não tenho como distinguir o real da ilusão que sempre guiou a existência. Contudo, os olhos continuavam fixo na cinzelidade cinza da garota esbelta que consumia cigarros como seus pulmnões exigiam oxígeneo. Que manhã esdruxula. A cleopatra dos ninhos virtuais estava tate a tate, seu sorriso era mistura de deboche e doçura, ela puxou mais um cigarrete e acendeu, sempr com seu sorriso enigmático, digno de monalisa. E eu me perguntava qual o sentido disto. Pensei que ficariamos paralisado na eternidade deste kairo, momento. Nada dura para sempre, e naquele momento nuvens com semblantes de tempestades terriveis chegaram e despejaram ventos e chuvas violentas. Corremos em direção contraria, ela tentou me estender a mão, mas não foi possível segurar. As ruas ficaram inundadas, intransitáveis & assim acabou nosso entamento quantico-romantico...


Ela era tão frágil. Consumia muitos cigarros e ficava olhando os bêbados, sentados em seu fim de vida. Seu sorriso era bonito na tenra idade. Uma Lolita? Quem sabe um anjo decaído dos céus morais.


Era um sábado benevolente; o azul e as cores se destacavam na incomparável incidência da luz outonal. Os goles de cerveja desciam maviosamente diante de tanta sensorialidade exposta pelo deus-natureza, como já dizia (Espinosa). E ela, na sua simplicidade, encantava.


E a manhã foi passando, e o álcool se acumulava no fluxo sanguíneo. Eu ficava ali, sentado, sonhando com utopias românticas. Meus pensamentos nunca conseguiam acompanhar a realidade. Tudo era projetado em reinos impossíveis de alcançar.


A cabeça girava contrária à translação da Terra. O sol e a lua eram referência e encantamento. Desejava ser um índio e, com arco e flecha, alvejar a hipocrisia humana. Porém, estou sentado, sorvendo cerveja, e amigos do passado surgem como holografias; não tenho como distinguir o real da ilusão que sempre guiou a existência.


Contudo, os olhos continuavam fixos na cinzelidade cinza da garota esbelta, que consumia cigarros como se seus pulmões exigissem oxigênio. Que manhã esdrúxula.


A Cleópatra dos ninhos virtuais estava tête-à-tête; seu sorriso era mistura de deboche e doçura. Ela puxou mais um cigarro e o acendeu, sempre com seu sorriso enigmático, digno de Mona Lisa. E eu me perguntava qual o sentido disso.


Pensei que ficaríamos paralisados na eternidade deste kairós, deste momento. Nada dura para sempre. E, naquele instante, nuvens com semblantes de tempestades terríveis chegaram e despejaram ventos e chuvas violentas.


Corremos em direção contrária. Ela tentou me estender a mão, mas não foi possível segurar. As ruas ficaram inundadas, intransitáveis — e assim acabou nosso entamento quântico-romântico...



quinta-feira, 9 de abril de 2026



Uma franja de fótons lambe o semiescuro da sala, com janelas fechadas. O sabor do uísque da noite anterior ainda permanece na língua, na boca. O dia chuvoso convida ao sono reparador, enquanto a cabeça fervilha em pensamentos quebrados.

Os caminhos tortuosos são uma constante no que chamo de estar aqui por enquanto, sucedidos por períodos de santificação — arroz integral, alimentos naturais e pensamentos límpidos tentando organizar o caos anterior — repouso contínuo.

Isto está conectado, paradoxalmente, com fases de explosões irracionais, bebedeiras imensuráveis, diálogos com marginais que habitam as praças, enquanto, no campanário, os sinos dobram em frente à praça que reúne bêbados, drogados e desocupados. As latas de cerveja espocam num festival capaz de arrepiar evangélicos, moralistas e toda a gama de conservadores.

O papel digital em branco, na tela, espera que eu relate estas peripécias explosivas quase cotidianas.

Lustro o corpo e a alma com a ilusão de ser salvo pela eternidade humana, que navega desde a estrela de carbono que possibilitou a vida. Efetivamente, temos a fugaz constituição de átomos que, no futuro, se desagregarão e constituirão outros objetos.

O antropomorfismo constrói seu castelo de areia com orgulho e presunção, que, na primeira onda mais forte, se desmancha. As carpideiras choram nos velórios, cercadas de flores e sentimentos diversos, recheados de lágrimas ou satisfação — mas, no fim, sabemos que este é o destino da existência.

Non plus ultra: o pensamento não vai além do corpo; depende dele, apesar dos deuses, paraísos e infernos construídos. Aceitar o destino é o que as leis do universo — ou multiverso — nos ensinam.

O bípede implume e (ir)racional projeta o futuro no paraíso do criador, com benesses devidas ao seu bom comportamento. O homem adulto apenas substitui as puerilidades da infância por conceitos fantasiosos — mas o desejo é o mesmo que move a ilusão humana.

Os pássaros gorjeiam no amanhecer primaveril; as serpentes arrastam o ventre pela terra; os vermes habitam o subterrâneo. A macieira gerou o fruto do pecado original, mordido por Eva e Adão — mas também é verdade que Newton elaborou a lei da gravidade a partir da maçã que caiu sobre seu crânio privilegiado.

A dialética possibilitou a evolução dos antônimos — algo intuído por Darwin em sua teoria. Terras estranhas foram habitadas por homens “civilizados”, que dizimaram povos originários. Escravizaram seres sem “alma”, acorrentaram e espancaram sem piedade.

O homem moderno não tem clavas nem cavernas; porém, abriga-se em bunkers e constrói bombas atômicas — tudo em nome de um deus construído à sua imagem e semelhança.

O homem busca o bronze da eternidade, mas sua transitoriedade só oferece a oxidação do ferro — a efemeridade que faz brilhar seu passado no alto da noite.

E assim caminha a humanidade..





terça-feira, 7 de abril de 2026

 

A maçã e eternidade efemera





Uma franja de fótons rasga o semiescuro.
A sala fechada respira restos de noite — uísque, língua, memória.

Chove.
O mundo pede repouso,
mas a cabeça insiste:
ruído, fragmento, entropia.

Vivo em ciclos —
ascese e queda.
Arroz integral, pureza provisória,
uma tentativa patética de ordenar o caos.

Depois, o retorno:
álcool, excesso, vozes marginais nas praças.
Os sinos dobram — ninguém escuta.
Latas estouram como pequenas rebeliões
contra o tédio moral dos corretos.

A tela em branco exige registro.
Quase um dever físico:
transformar desordem em linguagem.


Polimento inútil:
corpo e alma esfregados
na esperança de eternidade.

Mas somos isto —
átomos provisórios
em trânsito cego.

O antropomorfismo ergue castelos
com a arrogância da maré baixa.
Uma onda — basta —
e tudo retorna ao informe.

Velórios:
flores, lágrimas, alívio disfarçado.
A morte não escandaliza —
apenas confirma.

Non plus ultra.
O pensamento não ultrapassa o corpo.
Tudo o mais é arquitetura do medo.

O bípede implume projeta recompensas:
paraísos como salário moral.
Adultos —
crianças com vocabulário ampliado.


Manhã:
aves cantam, indiferentes.
Serpentes escrevem na terra,
vermes trabalham o invisível.

Entre mito e física,
uma maçã cai.
Nunca foi pecado —
sempre foi gravidade.

Civilização:
nome elegante para a violência organizada.
Povos apagados,
corpos acorrentados,
deuses usados como justificativa.

Saímos das cavernas —
entramos nos bunkers.
Troca-se a clava
pela bomba.

Progresso.


O homem deseja o bronze da eternidade.
Recebe o ferro —
e sua lenta oxidação.

Brilha por um instante,
depois escurece.

Memória:
apenas um reflexo fraco
na superfície da noite.

E, ainda assim, insiste.

E assim caminha.


domingo, 29 de março de 2026

 


Teresópolis, ou a Última Noite que Nunca Terminou




Dizem que os bairros também envelhecem. Não pelas casas, nem pelo asfalto que se recompõe em camadas sucessivas, mas pela memória dos que caminharam suas ruas. Teresópolis, em Porto Alegre, já foi um organismo vivo — pulsava em álcool barato, risadas roucas e promessas que nunca sobreviveram ao amanhecer.

Começava cedo.

No Bar Tiaraju, antes mesmo do sol decidir se nasceria com vontade, Mr. Ceasar já ocupava seu posto. Havia nele uma liturgia silenciosa: cerveja na mão, ironia no olhar e aquele hábito estranho de trocar os óculos com as meninas que faziam ponto na esquina da Marechal Bormann com a Teresópolis. Como se, por alguns segundos, pudesse enxergar o mundo a partir de outro corpo, de outra história.

E o Galego — sempre o Galego. Às sete da manhã, já estava diante do balcão de vidro, onde os salgados envelheciam ao longo do dia. Mas ele não. Ele já começava pelos martelinhos, como quem desafia o tempo a correr mais rápido. Enquanto isso, a cidade acordava em parcelas: trabalhadores saindo, sonhadores adiando.

Mais adiante, o Ravengar nunca dormia. Seu balcão de cimento sustentava mais do que copos — sustentava versões exageradas da realidade. Servia-se de tudo: bebida, cigarros, histórias mal contadas. Diziam que a salada do almoço era lavada no mesmo tanque onde os funcionários se banhavam. Ninguém confirmava. Ninguém realmente queria saber. Havia um certo sabor na ignorância.

O Estoril tentava manter uma dignidade que não combinava com o bairro. A classe média se agarrava ali como quem segura um guardanapo limpo em meio à tempestade. Era um refúgio — ou uma ilusão de refúgio.

Mas o Cruz de Malta… ah, esse não fingia nada. Não tinha porta, não tinha pausa. Era aberto como uma ferida. A mesa de sinuca na entrada funcionava como um convite ou uma armadilha — dependia da noite. Sempre havia alguém disposto a apostar o pouco que tinha, ou o muito que devia. Os martelinhos batiam no balcão como se brotassem da madeira, e o tempo ali não era contado em horas, mas em derrotas.

O Rosângela surgia como um contraste estranho — quase elegante. Mas bastava uma noite mais quente para que os vândalos locais invadissem o ambiente e dissolvessem qualquer tentativa de ordem. A dona, paraguaia, observava com uma paciência resignada. As garotas sorriam. Nós reclamávamos da fraqueza das caipirinhas, mas, no fundo, queríamos apenas prolongar aquele estado impreciso entre juventude e excesso. E, de algum modo, ficava tudo bem.

No Colonial, a coisa mudava de tom. Era época de confusão estética e ideológica — punks, hippies tardios, aspirantes a revolucionários e figurantes da própria rebeldia. Ninguém sabia exatamente o que combatia. Talvez tudo. Talvez nada.

Foi ali que a noite ultrapassou o limite do grotesco. Naquele tempo, Mike Tyson mordia orelhas em arenas distantes. Em Teresópolis, a imitação veio sem glamour: Bene arrancou um pedaço da orelha de Jorge na esquina da Avenida Belém. O sangue escorreu sem metáfora. E alguém, no meio do caos, disse:

— Poxa, a gente só queria se divertir...

E era verdade. Sempre era.

No Bar do Chumbo, a fuga era audiovisual. Bebíamos como se o fígado fosse descartável, assistindo a vídeos de new wave e filmes como Expresso da Meia-Noite. Havia uma tentativa quase ingênua de escapar — mas ninguém realmente saía dali.

Quando a madrugada já se dissolvia, restava o ritual final: a carrocinha do Tidinho. Cachaça com abacaxi, forte e doce como uma despedida mal resolvida. Depois, o cachorro-quente — não por fome, mas por necessidade de encerrar algo que nunca começava direito.

E havia a Lucy. Sempre havia a Lucy. A porta vermelha do seu cabaré era um portal que nunca atravessávamos. Ficávamos do lado de fora, adolescentes tardios, consumidos por uma curiosidade que misturava desejo e medo. Era melhor assim. A imaginação sempre foi mais generosa que a realidade.

Na Sepé Tiaraju, os marinheiros desciam dos navios como personagens de outra narrativa. Misturavam-se ao bairro, às prostitutas cansadas, ao barulho difuso de uma noite que parecia não ter dono. Teresópolis virava um território suspenso — nem porto, nem casa.

Muito antes disso, dizem, os bondes já traziam esses homens. O bairro sempre foi passagem. Um arrabalde em trânsito constante, onde ninguém ficava — apenas permanecia por um tempo.

Hoje, o silêncio venceu.

Não há mais martelinhos explodindo no balcão, nem desafios de sinuca na madrugada. As portas — agora existentes — se fecham cedo. E nós, que antes éramos parte da noite, recolhemo-nos às nossas casas.

Talvez pela idade.

Talvez porque a noite, como Teresópolis, também tenha se cansado de nós.





quinta-feira, 26 de março de 2026



 

BADpoema - PORTO ALEGRE - EVICTION IN #POA243





BADpoema


EVICTION IN  2026

&

GENTRIFICAÇÃO






Gentes pelas ruas, sem destino, sem teto....

Árvores tombam no sentido perverso,

Espigões de concreto, aço & dólares em alta...

Lá vai gente para os rincões sem estrutura,

Porto Alegre Top: 

Na Contra-mão da sustentabilidade...

Especulação imobiliária...


Eviction In POA...





Da água que bebes do esgoto cloacal é sugada...

Os teus verdes intumescidos de carbono pedem socorro,

S.O.S. POA

Ciclistas protestam o descaso,

Ciclovias eleitorais elegem políticos,

Mendigos são mortos...

Eviction In POA...





Favelas são removidas para aviões decolarem,

Levando a salvo pés burgueses na American Airlines ...

Sapatos laborais são abandonados em latas de sardinha,

Respirando dióxido de carbono & Enxofre...

Enquanto Bla Bla Bla Online...

Eviction In POA...





Os impostos são canalizados para os abastados,



Estádios "privados" a menina dos olhos...

Dos postos de saúde se houve lamurias,

O ensino das crianças exalam carência, 

Os Jornalistas das Mídias Calados...

Eviction In POA...






EVICTION IN #POA243

PS por outrem: Entendendo que Porto Alegre não conta com uma política de auxílio às pessoas em situação de rua eficiente, a Defensoria Pública da União (DPU) ajuizou um pedido para que a União efetuasse um pagamento de auxílio-moradia. Uma ação civil pública foi ajuizada contra a própria União, o governo do estado do Rio Grande do Sul e o município de Porto Alegre. Na tarde de quinta-feira (7), porém, a 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) , por unanimidade negou o pedido...


  


MUY VALOROSA E LEAL




PÁ  -  P.A., POA, PORTO ALEGRE


teus filhos espúrios derramam-se nos seus seios,

mas tua láctea alimenta asfalto, parques, moinhos

tuas veias negras são para seres metálicos,

seus preferidos se adornam com ternos e estolas,

em meio a cristais, mezaninos  e operas;

porém no ventre da noite mendigos urinam a cachaça, destilam sangue


PÁ  -  P.A., POA, PORTO ALEGRE

teus vales estão contaminados por povo,

que labutam, estendem panos, são espancados,

teus metais de bronze em herois na praça,

são moeda de troca para matar a fome
ou sonhos vagabundos

tuas pichações não mentem:

"AS INJUSTIÇAS NÃO CABEM DENTRO DA URNA"


PÁ  -  P.A,  POA, PORTO ALEGRE

teu lago é a lagrima do excluído,

tuas luzes burguesas atraíram mariposas,

que morrem nos teus becos exalando miséria,

tuas noites, bares, desesperanças, chacinas,

teus livros e espaços públicos são a arquitetura da exclusão,

tuas crianças pobres cheiram cola,
(crack)

o vício como educação,



PÁ  -  P.A., POA, PORTO ALEGRE

teus poetas tradicionais estrupam a musa da verdade

não sei te cantar em versos,

nem exaltar teu por do sol,

o real está mais perto,

mora na cruzeiro,

circula na mostardeiro,


PA  -  P.A., POA, PORTO ALEGRE

porto alegre de todos os cheiros,

emanam da gastronomia,

das fezes e urinas no passeio,

esgoto, dilúvio e arroio,


PÁ  - P.A., POA, PORTO ALEGRE

tuas pernas roliças estão flácidas,

teu corpo rotundo,

tua barriga explicita e burguesa consome a esperança,

tuas nádegas flatulentas abafam o perfume,

que espuma hidrofobia em direção aos indigentes...




P.A.

POA

PORTO ALEGRE

PLÁ...



quarta-feira, 25 de março de 2026





Hoje: descobri -

o fundo do poço não é limite,
é interface.
há um subsolo.
(e talvez um gradiente infinito de quedas)

Ainda assim:
aves.
uma sinfonia estatisticamente improvável ao amanhecer
num bosque que não existe fora da mente
- mas existe como estado.

As ilusões não “crescem”:
elas se acumulam como ruído térmico,
aumentam a entropia informacional
até sufocar qualquer sinal de realidade.

Estou à deriva
(não metáfora: ausência de referencial inercial estável)
e os alertas de tempestade são só previsões caóticas
num sistema sensível às condições iniciais
- timeline como equação divergente.

Concertinas. arames. venenos.
topologia hostil.
tento emergir num rio
que já não conserva identidade ao longo do fluxo.

Heráclito mal interpretado:
não é o rio que muda —
é a impossibilidade de definir o mesmo estado em t₁ e t₂.

quando entender que “rio” é só uma função dependente do tempo,
talvez reste algo como consciência
(ou só mais uma ilusão de continuidade).

Flertei com o budismo:
aniquilação do eu como solução elegante.
mas recaí
em equações mal postas, mal condicionadas,
sem solução física admissível.

Carros passam:
máquinas térmicas imperfeitas
convertendo ordem em dissipação,
CO₂, NOx, partículas -
respiramos o subproduto da irreversibilidade.

Já não flutuo no rio.
sou comprimido por blocos discretizados de tempo:
passado (memória), presente (instável), futuro (probabilidade).

a seta do tempo não volta -
não por proibição moral,
mas por estatística:

ΔS≥0\Delta S \geq 0
ΔS≥0

a entropia não negocia.

Causa & efeito?
aproximação macroscópica.
no fundo: correlações, não narrativas.

a escrita do universo não é invertida -
somos nós que lemos tarde demais.

Caminhamos ao abismo, sim -
mas “abismo” é só um atrator estranho
no espaço de fases.

Multiversos?
hipóteses inflacionárias,
talvez excesso de liberdade matemática
sem evidência empírica suficiente.

armadilhas elegantes.

E ainda assim:
a intuição primitiva insiste -
voltar.

coletores. caçadores.
baixa entropia local às custas de ignorância global.

Maldita hora em que os símios olharam para o céu
e abstraíram.

Desde então:
linguagem > realidade
modelo > fenômeno

e nos perdemos no mapa.

Heidegger tentou:
ser-no-tempo
mas o tempo não “é” -
é parâmetro,
ou emergência.

A caverna não como regressão,
mas como redução de variáveis.

Esqueçam:
IA, viagens interestelares, delírios quânticos mal compreendidos.

tecnologia = amplificação da capacidade de dissipar energia.
Resta:
fermentar.
caçar.
coletar.
alterar a consciência por vias bioquímicas
(e não algorítmicas).

Deus?
não entidade.

campo.
processo.

Natureza.

E o universo -
talvez não seja mais do que isso:
um sistema fechado
onde tentamos, inutilmente,
reduzir a entropia local
enquanto o todo
silenciosamente
vence.





terça-feira, 24 de março de 2026






Estou imerso em ciclos da existência; o círculo vicioso de Sísifo é parte inseparável da vida. Garrafas de cerveja repousam no chão da peça solitária, cenário das minhas lucubrações intermináveis, que partem de um ponto geométrico e giram em trezentos e sessenta graus. Tudo permanece inerte diante da perspectiva de um futuro, pois o looping é irreversível. Os campos quânticos fazem o nada pulsar no vácuo das almas. Sou incorporado em insubstâncias inapreensíveis pelos sentidos comuns, que se desfazem diante da consciência de que não começamos nem terminamos: somos apenas partículas consolidadas do infinito eterno. Do paleolítico ao silício, as reações psicológicas ecoam como respostas da pedra que sobe a montanha e retorna pelo declive...




O garçom é reflexo de nossa alma. Não nutro simpatia por Jean-Paul Sartre quando recorre à metáfora da má-fé do garçom para sustentar sua filosofia burguesa. A Revolução Francesa é o exemplo acabado de que tudo vai e vem. Nada evolui. As mudanças são apenas a capa de um conteúdo que se perpetua no desconhecido. O manto de nossas verdades é tecido pelo vazio dos átomos, suas partículas e subpartículas, que revelam que nem no vácuo podemos afirmar a ausência do nada. Tudo é ouroboros. Convido-te a viver na natureza selvagem. A natureza selvagem é o deus selvagem, lapidando ainda mais as lentes de Espinosa. Vamos carregar nossas mochilas e seguir às cordilheiras, contemplar o universo em uma atmosfera límpida, diáfana, e passar o resto dos tempos na naturalidade do planeta-homem — assim como os aborígenes...




sábado, 21 de março de 2026





O entrelaçamento quântico não é apenas metáfora — é a imagem mais próxima que encontro para minha própria assimetria ontológica. Não existo em superposição; não sou possibilidade coexistente, mas colapso contínuo. Sou a atualização irreversível da entropia — o vetor silencioso da desordem que estrutura o real.

A seta do tempo não se curva à vontade humana. Tentar revertê-la é apenas constatar sua tirania. Ao fazê-lo, não encontrei redenção, mas o Érebo — não como lugar mitológico, mas como condição: a ausência de horizonte, o confinamento em um presente sem transcendência. Enquanto isso, Perséfone — símbolo dos ciclos — escapa, reafirmando que a natureza ainda conhece retorno, enquanto a consciência permanece presa à irreversibilidade.

No equinócio de março, a simetria entre luz e escuridão é apenas aparente. O tempo, na descrição relativística do universo-bloco, não flui — ele é. Passado, presente e futuro coexistem em uma estrutura quadridimensional onde o devir é ilusão fenomenológica da consciência. Não há “agora” privilegiado — apenas cortes arbitrários em uma totalidade já dada.

Se tudo está inscrito, então a liberdade é um problema — ou uma ficção necessária. Ainda assim, o sentimento de escolha persiste, como um ruído existencial que a física não dissolve.

O eterno retorno não precisa ser cosmológico para ser verdadeiro. Ele se manifesta na repetição estrutural da experiência. Sísifo não é apenas condenado — ele é a própria condição humana. A pedra não é externa: é o peso da consciência que insiste em buscar sentido onde talvez haja apenas recorrência. O absurdo emerge dessa fratura — entre a necessidade de significado e o silêncio do universo.

A verdade, então, não é linear. É circular — mas não um círculo harmonioso: um circuito fechado, autorreferente, no qual o humano se perde ao tentar encontrar um ponto de saída que talvez não exista.

E ainda assim perguntamos: há fuga? Ou apenas variações do mesmo labirinto?

O sentido da vida talvez não seja finalidade, mas tensão. Não a cenoura inalcançável, mas o próprio movimento de persegui-la — um sistema dinâmico que se sustenta na ausência de resolução.




Nos hemisférios, a luz não apenas ilumina — ela regula. A inclinação do eixo terrestre inscreve no corpo humano oscilações de humor, energia e percepção. Não somos autônomos: somos sistemas abertos, modulados por variáveis astronômicas e atmosféricas. O minuano, o mistral, o nordestão — não são apenas ventos, mas agentes que atravessam o corpo e reorganizam estados internos.

A Lua, com sua gravidade sutil, talvez não governe diretamente a mente, mas simboliza nossa vulnerabilidade às forças que não controlamos. Já as tempestades solares — interferindo em campos magnéticos e sistemas tecnológicos — revelam uma dependência ainda mais profunda: nossa civilização está acoplada ao cosmos de maneira estrutural.

Talvez seja necessária uma sociologia radical — não centrada apenas no humano, mas nas interações entre matéria, energia e vida. Uma sociologia cosmológica.

Eratóstenes não apenas mediu a Terra — ele demonstrou que o pensamento pode ultrapassar a experiência imediata. Seu experimento é a prova de que a razão pode inferir o invisível a partir de relações. Foi esse gesto que permitiu a expansão marítima e a compreensão do planeta como esfera.

Mas o paradoxo permanece: quanto mais avançamos no conhecimento, mais vulneráveis nos tornamos à regressão. A Terra plana não é apenas erro — é sintoma. Indica que o problema não está na ausência de informação, mas na relação do sujeito com a verdade.

Assim, talvez o risco não seja apenas a extinção biológica, mas a dissolução da racionalidade enquanto projeto coletivo.






Ela era tão fragil. Consumia muitos cigarros e ficava olhando os bebados sentados no seu fim de vida. Seu sorriso era bonito na tenra idade....