terça-feira, 14 de julho de 2026



E O FLUXO CONTINUA....





Hoje foi uma tarde diferente, meu cérebro trabalhou no sentido de avivar a memória. Ouvi músicas retroativas à existência adquirida na experiência do que chamamos tempo >>> Billie Holiday extraindo essência da sua alma (perdão pelo termo), extrai um suco do que chamamos inefável, o que não podemos expressar por conceitos >>> que por palavras não podemos expressar (um dos protocolos de Wittgenstein). Mas todo este esforço de evocação carrega de contrabando o nada, isto mesmo, traz no seu ventre o niilismo. Estou no nada, nada mais importa quando o vácuo existencial se faz presente nos sentidos da física e da psicologia >>> porém, nada mais real que a existência sobrevivendo no vácuo do nada, no niilismo, invertendo Heidegger: — por que existe o nada de sentido e não o ser de sentido?.... Mais uma vez entramos nos protocolos de Wittgenstein >>> o que não podemos falar, devemos nos calar... Estamos duplamente impedidos, pois o ser não é e o nada é >>> estes paradoxos se anulam e se tornam o nada do nada >>> os contrários se soldam no infinito vácuo da existência, somos notas de músicas dedilhadas por um deus na teoria das cordas. Precisamos de uma oração do nada, uma escala de notas que permita o nada existir no ser, sem ser...

NIETZSCHE

Nietzsche não foi radical o suficiente para suportar a solidão de quem tem os pensamentos alpinos. Não assumia o nada da existência; seu niilismo era exotérico, escondia em seu cérebro a esperança de mudar os valores que no fundo refletia — que seus escritos fossem reconhecidos, o trouxessem de novo aos círculos sociais, aos braços do antigo amigo Wagner >>> Faltou-lhe, ou não quis admitir, que a existência é o nada, sendo o nada a condição para viver. Os budistas compreenderam isso e procuram se eternizar no nada. Pobre filósofo, se vivesse em nossos dias, teria os remédios de que tanto necessitava; hodiernamente, adquirimos os nadas embalados nas gôndolas dos supermercados, nos prazeres fugazes que o mercado oferece, nas farmacologias à disposição >>> sua solidão não teria mais sentido, pois o sentido da existência, o nada, seria preenchido pela sociedade do espetáculo, pela substituição do Deus cristão pelo deus mercado >>> ele não se sentiria sozinho...
Podemos dizer, no meu niilismo imanente, que a memória, sua evocação >>> é a experiência sem o objeto, da mesma forma que o objeto causa afetações no homem. Sua lembrança, o ato de memória, também é patológico, talvez de maneira mais suave >>> se bem que uma pessoa depressiva evocando memórias se tortura, se coloca abaixo da existência de outros, e parece que uma constelação de objetos positivos não interfere na sua existência depressiva...

VONTADE DO NADA
INCIDENTAL – MAXIKOANS

Um homem velho, maltrapilho, cheio de adjetivos pejorativos e preconceituosos mirava o gigante azul do fim do continente, no comoro açoitado pelo vento nordeste. A areia fina como ouro em pó voava e obnubilava sua visão, mas o importante era que seus pensamentos, seu cérebro, sabia exatamente a justificativa dos seus últimos momentos de solipsismo. Não havia nenhum espanto, nenhuma renúncia à vida; o fim da existência tinha sido planejado, elaborado por estudos filosóficos e científicos. Nenhum argumento, por mais racional ou irracional, o demoveria de passar seus últimos dias ali, inerte diante do oceano que molhava a selvagem costa da Sul-América. Quanta determinação havia sido inserida neste momento da existência! Quantas vezes abriu os livros de Nietzsche e leu: "— Deus está morto". Com esta simples frase, tinha construído uma teoria da não existência, da não existência de sentidos, e não haveria nenhuma metafísica ou alguma ciência açucarada, edulcorada, que lhe convencesse do contrário >>> o máximo que admitia era o epifenômeno, a energia sobre a matéria que causaria o que chamamos de pensamento, assim como o silício do computador deixa circular a energia, o cérebro de carbono suportaria a energia >>> o mar ecoava, o vento o castigava >>> os pensamentos mitigavam o sofrimento na pele, nos sentidos; não havia muito mais que isso, os sentidos, o resto eram ilusões para apaziguar o fel da existência...




Nenhum comentário:

Postar um comentário

E O FLUXO CONTINUA.... Hoje foi uma tarde diferente, meu cérebro trabalhou no sentido de avivar a memória. Ouvi músicas retroativas à existê...