segunda-feira, 20 de abril de 2026




Houve um tempo em que eu vagava pelas avenidas da cidade à procura de pretórias alcoólicas, sob um sol indiferente. Não era busca — era vício com pretensão filosófica.

Ao entrar, o pretor de balcão sempre perguntava:

— Quem és tu?

E eu, já treinado na própria farsa, respondia:

— Eu sou o que sou.

Mentira confortável.

A verdade, se tivesse coragem de dizê-la, seria outra:

“Eu serei o que serei” — ou pior: nunca serei nada fixo, nada digno de definição. Mas isso não impressiona ninguém num boteco, então eu mentia com convicção metafísica.

Sentava-me. Mesa áspera, realidade áspera. Nada de asbesto ou turmalinas — só madeira cansada e copos mal lavados. Ainda assim, eu via Olimpo. Via néctar. Via hebes servindo deuses. Era mais fácil assim.

Minha eternidade cabia num gole.

E a noite vinha — não como poesia, mas como decomposição. A cidade acendia suas luzes vermelhas e roxas, não para iluminar, mas para maquiar o apodrecimento. Bêbados orbitavam como insetos queimando suas últimas sinapses.

Os deuses? Ausentes. Ou talvez sempre tenham sido invenção de gente com medo de balcão vazio.

Nas mesas, o vinho oxidava ao lado da cerveja morna. O sagrado já tinha sido diluído. O resto era espuma e saliva.

Então vinham os vândalos — não de fora, mas de dentro. A civilização desabava em cada gesto automático: beber, rir, repetir. Papas, Bórgias, santos, hereges — tudo reduzido ao mesmo impulso básico: esquecer que vai morrer.

E nós esquecíamos. Com disciplina.

Afogávamos a mortalidade em álcool barato e companhia descartável. Prostitutas, sim — mas a verdadeira prostituição era outra: vendíamos qualquer ideia de grandeza por mais uma dose.

Ainda assim — e isso é o mais irritante — sobrava um resíduo.

Um pensamento que não morria.

Nos cantos da mente, resistia:

“Eles são medíocres.”

Mas a frase seguinte vinha mais honesta, mais suja:

“E eu também.”

Então a última ilusão se refinava:

“Eu sou o que não sei.”

Não como elevação — mas como falta. Como vazio que nem o álcool resolve.

Nesse ponto, já não havia deuses para brindar.

Mesmo assim, levantamos os copos — por hábito, não por fé — e alguém gritou:

— Viva Sócrates e Dioniso!

Ninguém riu.

E isso foi o mais sincero da noite.




sábado, 11 de abril de 2026





Ela era tão fragil. Consumia muitos cigarros e ficava olhando os bebados sentados no seu fim de vida. Seu sorriso era bonito na tenra idade. Uma Lolita? - Quem sabe um anjo decaído dos céus morais. Era um sabado benovolente, o azul e as cores se destacavam na incomparavel incidencia da luz outonal. Os goles de cerveja desciam maviosamente diante de tanta sensorialidade exposta pelo deus-natureza como já dizia (Espinosa). E ela na sua simplicidade encantava. E a manhã foi passando, e o alcool se acumulava no fluxo sanguineo. Ficava ali sentado sonhando com utopias romanticas. Meus pensamentos nunca conseguiam acompanhar a realidade. Tudo era projetado em reinos impossíveis de alcançar. A cabeça girava contraria a translação da terra. O sol e a lua eram referencia e encantamento. Desejava ser um indio e com arco e flexa alvejar a hipocrisia humana, porém estou sentado sorvendo cerveja y amigos do passado surgem como holografias e não tenho como distinguir o real da ilusão que sempre guiou a existência. Contudo, os olhos continuavam fixo na cinzelidade cinza da garota esbelta que consumia cigarros como seus pulmnões exigiam oxígeneo. Que manhã esdruxula. A cleopatra dos ninhos virtuais estava tate a tate, seu sorriso era mistura de deboche e doçura, ela puxou mais um cigarrete e acendeu, sempr com seu sorriso enigmático, digno de monalisa. E eu me perguntava qual o sentido disto. Pensei que ficariamos paralisado na eternidade deste kairo, momento. Nada dura para sempre, e naquele momento nuvens com semblantes de tempestades terriveis chegaram e despejaram ventos e chuvas violentas. Corremos em direção contraria, ela tentou me estender a mão, mas não foi possível segurar. As ruas ficaram inundadas, intransitáveis & assim acabou nosso entamento quantico-romantico...


Ela era tão frágil. Consumia muitos cigarros e ficava olhando os bêbados, sentados em seu fim de vida. Seu sorriso era bonito na tenra idade. Uma Lolita? Quem sabe um anjo decaído dos céus morais.


Era um sábado benevolente; o azul e as cores se destacavam na incomparável incidência da luz outonal. Os goles de cerveja desciam maviosamente diante de tanta sensorialidade exposta pelo deus-natureza, como já dizia (Espinosa). E ela, na sua simplicidade, encantava.


E a manhã foi passando, e o álcool se acumulava no fluxo sanguíneo. Eu ficava ali, sentado, sonhando com utopias românticas. Meus pensamentos nunca conseguiam acompanhar a realidade. Tudo era projetado em reinos impossíveis de alcançar.


A cabeça girava contrária à translação da Terra. O sol e a lua eram referência e encantamento. Desejava ser um índio e, com arco e flecha, alvejar a hipocrisia humana. Porém, estou sentado, sorvendo cerveja, e amigos do passado surgem como holografias; não tenho como distinguir o real da ilusão que sempre guiou a existência.


Contudo, os olhos continuavam fixos na cinzelidade cinza da garota esbelta, que consumia cigarros como se seus pulmões exigissem oxigênio. Que manhã esdrúxula.


A Cleópatra dos ninhos virtuais estava tête-à-tête; seu sorriso era mistura de deboche e doçura. Ela puxou mais um cigarro e o acendeu, sempre com seu sorriso enigmático, digno de Mona Lisa. E eu me perguntava qual o sentido disso.


Pensei que ficaríamos paralisados na eternidade deste kairós, deste momento. Nada dura para sempre. E, naquele instante, nuvens com semblantes de tempestades terríveis chegaram e despejaram ventos e chuvas violentas.


Corremos em direção contrária. Ela tentou me estender a mão, mas não foi possível segurar. As ruas ficaram inundadas, intransitáveis — e assim acabou nosso entamento quântico-romântico...



quinta-feira, 9 de abril de 2026



Uma franja de fótons lambe o semiescuro da sala, com janelas fechadas. O sabor do uísque da noite anterior ainda permanece na língua, na boca. O dia chuvoso convida ao sono reparador, enquanto a cabeça fervilha em pensamentos quebrados.

Os caminhos tortuosos são uma constante no que chamo de estar aqui por enquanto, sucedidos por períodos de santificação — arroz integral, alimentos naturais e pensamentos límpidos tentando organizar o caos anterior — repouso contínuo.

Isto está conectado, paradoxalmente, com fases de explosões irracionais, bebedeiras imensuráveis, diálogos com marginais que habitam as praças, enquanto, no campanário, os sinos dobram em frente à praça que reúne bêbados, drogados e desocupados. As latas de cerveja espocam num festival capaz de arrepiar evangélicos, moralistas e toda a gama de conservadores.

O papel digital em branco, na tela, espera que eu relate estas peripécias explosivas quase cotidianas.

Lustro o corpo e a alma com a ilusão de ser salvo pela eternidade humana, que navega desde a estrela de carbono que possibilitou a vida. Efetivamente, temos a fugaz constituição de átomos que, no futuro, se desagregarão e constituirão outros objetos.

O antropomorfismo constrói seu castelo de areia com orgulho e presunção, que, na primeira onda mais forte, se desmancha. As carpideiras choram nos velórios, cercadas de flores e sentimentos diversos, recheados de lágrimas ou satisfação — mas, no fim, sabemos que este é o destino da existência.

Non plus ultra: o pensamento não vai além do corpo; depende dele, apesar dos deuses, paraísos e infernos construídos. Aceitar o destino é o que as leis do universo — ou multiverso — nos ensinam.

O bípede implume e (ir)racional projeta o futuro no paraíso do criador, com benesses devidas ao seu bom comportamento. O homem adulto apenas substitui as puerilidades da infância por conceitos fantasiosos — mas o desejo é o mesmo que move a ilusão humana.

Os pássaros gorjeiam no amanhecer primaveril; as serpentes arrastam o ventre pela terra; os vermes habitam o subterrâneo. A macieira gerou o fruto do pecado original, mordido por Eva e Adão — mas também é verdade que Newton elaborou a lei da gravidade a partir da maçã que caiu sobre seu crânio privilegiado.

A dialética possibilitou a evolução dos antônimos — algo intuído por Darwin em sua teoria. Terras estranhas foram habitadas por homens “civilizados”, que dizimaram povos originários. Escravizaram seres sem “alma”, acorrentaram e espancaram sem piedade.

O homem moderno não tem clavas nem cavernas; porém, abriga-se em bunkers e constrói bombas atômicas — tudo em nome de um deus construído à sua imagem e semelhança.

O homem busca o bronze da eternidade, mas sua transitoriedade só oferece a oxidação do ferro — a efemeridade que faz brilhar seu passado no alto da noite.

E assim caminha a humanidade..





terça-feira, 7 de abril de 2026

 

A maçã e eternidade efemera





Uma franja de fótons rasga o semiescuro.
A sala fechada respira restos de noite — uísque, língua, memória.

Chove.
O mundo pede repouso,
mas a cabeça insiste:
ruído, fragmento, entropia.

Vivo em ciclos —
ascese e queda.
Arroz integral, pureza provisória,
uma tentativa patética de ordenar o caos.

Depois, o retorno:
álcool, excesso, vozes marginais nas praças.
Os sinos dobram — ninguém escuta.
Latas estouram como pequenas rebeliões
contra o tédio moral dos corretos.

A tela em branco exige registro.
Quase um dever físico:
transformar desordem em linguagem.


Polimento inútil:
corpo e alma esfregados
na esperança de eternidade.

Mas somos isto —
átomos provisórios
em trânsito cego.

O antropomorfismo ergue castelos
com a arrogância da maré baixa.
Uma onda — basta —
e tudo retorna ao informe.

Velórios:
flores, lágrimas, alívio disfarçado.
A morte não escandaliza —
apenas confirma.

Non plus ultra.
O pensamento não ultrapassa o corpo.
Tudo o mais é arquitetura do medo.

O bípede implume projeta recompensas:
paraísos como salário moral.
Adultos —
crianças com vocabulário ampliado.


Manhã:
aves cantam, indiferentes.
Serpentes escrevem na terra,
vermes trabalham o invisível.

Entre mito e física,
uma maçã cai.
Nunca foi pecado —
sempre foi gravidade.

Civilização:
nome elegante para a violência organizada.
Povos apagados,
corpos acorrentados,
deuses usados como justificativa.

Saímos das cavernas —
entramos nos bunkers.
Troca-se a clava
pela bomba.

Progresso.


O homem deseja o bronze da eternidade.
Recebe o ferro —
e sua lenta oxidação.

Brilha por um instante,
depois escurece.

Memória:
apenas um reflexo fraco
na superfície da noite.

E, ainda assim, insiste.

E assim caminha.


   Ninguém entra - impune - num restaurante de luxo - em tempos de punk de operários - com joaninhas enferrujadas nas narinas y nos lábios e...