domingo, 4 de outubro de 2026



O Efeito Antipódico e o Galo de Esculápio


Um dia soturno, chuvoso e de trovões enfáticos. Lutei, relutei, mas levantei; peguei a botelha de vinho branco, vagabundo, tentando espantar a tristeza incrustada na atmosfera física do clima e na visão da consciência própria (pleonasmo). No primeiro gole, subiu um calor; uma memorização foi resgatada. O efeito foi antipódico, o inverso de tudo, um giro completo de 360 graus: veio a lembrança da alcoolemia que perpassa a minha existência de cabo a rabo. Lembrei do sino da Igreja Episcopal Anglicana de Teresópols, badalado pelos delinquentes de sábados alcoólicos. ao lado das festas do clube. Na época, achei que seria um gênio ao subir a escadaria íngreme daquele complexo administrado por ingleses e norte-americanos, nos tempos do velho Colégio Cruzeiro do Sul, para fumar maconha no ápice da minha loucura privatizada. 
Mozart e Van Gogh morreram na miséria apesar de suas genialidades; a súcia humana não tem condições de distinguir o sabor do gosto, ou seja, a estética. Claro, estão todos envolvidos apenas na sobrevivência primária. 
Caminhava na chuva acumulada e, como não sou um pula-pocinhas, mergulhei no fluido caído do céu; fiquei maculado para o status quo. Certamente, a grande maioria não entenderá. Como dizia Shakespeare: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia". Eu digo, parafraseando Sócrates — que bebeu a cicuta do sistema e, antes de morrer, mandou quitar a dívida junto a Esculápio oferecendo um galo: tudo o que sei é que nada sei.
Depois de provar todas as peçonhas humanas em diálogos e atos, cheguei à conclusão de que a insapiência é a melhor forma de viver nestes pagos, tão desgastados pelo aprofundamento do pensar. Alguns dirão: "É a idade afetando o cérebro". Eu direi: vocês têm razão, mas o etarismo chegará até a espinha dorsal de vocês. Certamente não estarei mais aqui para fazer frases jocosas sobre o seu estado físico, mas tenho uma vantagem: meu cérebro ainda funciona como um verdadeiro mecanismo biológico, o que duvido que vossas senhorias consigam na mesma condição. Um último conselho: aproveitem o momento...




 


Zeptossegundos, Freud, Jung & quetais

Absorvo um novo eu a cada zeptosegundo, que equivale a 10⁻²¹ segundos (ou seja, 0,000000000000000000001 segundo). O rio de Heráclito se move à velocidade da luz e 330 bilhões de células são renovadas a cada dia, sob a sinfonia do universo — multiversos desconhecidos. Os neutrinos atravessam a matéria sem intervenção aparente e demoram cerca de 2,3 segundos para sair do Sol e 8 minutos e 20 segundos para chegar até a Terra. Já os fótons (partículas de luz), embora também viajem à velocidade da luz, colidem constantemente com os elétrons e íons do plasma solar. Esse processo de "ricochete" faz com que a luz leve entre 10.000 e 170.000 anos para conseguir escapar do núcleo e alcançar a superfície do Sol, e cerca de 8 minutos e 20 segundos para chegar ao nosso planeta. Minha consciência adquire impulsos gerados pelos sentidos numa velocidade que a imaginação não consegue medir, apesar de estarmos tão próximos ao infinito do infinito (talvez a uma velocidade supraluminosa). Já meu inconsciente é uma fusão de Freud & Jung: enquanto um fica em casa, o outro passeia na imensidão da retenção antropomórfica. Já não tenho quase mais o que falar ou escrever. Neste momento, fui até a cozinha temperar o grão-de-bico: páprica defumada e picante, açafrão, cebola e outros condimentos. Os pés nus estão gelados, a cerveja cold e os ladrilhos vermelhos encerados são a única sensação que faz sentido num corpo além do corpo...



O Efeito Antipódico e o Galo de Esculápio Um dia soturno, chuvoso e de trovões enfáticos. Lutei, relutei, mas levantei; peguei a botelha de ...