O Efeito Antipódico e o Galo de Esculápio
Um dia soturno, chuvoso e de trovões enfáticos. Lutei, relutei, mas levantei; peguei a botelha de vinho branco, vagabundo, tentando espantar a tristeza incrustada na atmosfera física do clima e na visão da consciência própria (pleonasmo). No primeiro gole, subiu um calor; uma memorização foi resgatada. O efeito foi antipódico, o inverso de tudo, um giro completo de 360 graus: veio a lembrança da alcoolemia que perpassa a minha existência de cabo a rabo. Lembrei do sino da Igreja Episcopal Anglicana de Teresópols, badalado pelos delinquentes de sábados alcoólicos. ao lado das festas do clube. Na época, achei que seria um gênio ao subir a escadaria íngreme daquele complexo administrado por ingleses e norte-americanos, nos tempos do velho Colégio Cruzeiro do Sul, para fumar maconha no ápice da minha loucura privatizada.
Mozart e Van Gogh morreram na miséria apesar de suas genialidades; a súcia humana não tem condições de distinguir o sabor do gosto, ou seja, a estética. Claro, estão todos envolvidos apenas na sobrevivência primária.
Caminhava na chuva acumulada e, como não sou um pula-pocinhas, mergulhei no fluido caído do céu; fiquei maculado para o status quo. Certamente, a grande maioria não entenderá. Como dizia Shakespeare: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia". Eu digo, parafraseando Sócrates — que bebeu a cicuta do sistema e, antes de morrer, mandou quitar a dívida junto a Esculápio oferecendo um galo: tudo o que sei é que nada sei.
Depois de provar todas as peçonhas humanas em diálogos e atos, cheguei à conclusão de que a insapiência é a melhor forma de viver nestes pagos, tão desgastados pelo aprofundamento do pensar. Alguns dirão: "É a idade afetando o cérebro". Eu direi: vocês têm razão, mas o etarismo chegará até a espinha dorsal de vocês. Certamente não estarei mais aqui para fazer frases jocosas sobre o seu estado físico, mas tenho uma vantagem: meu cérebro ainda funciona como um verdadeiro mecanismo biológico, o que duvido que vossas senhorias consigam na mesma condição. Um último conselho: aproveitem o momento...


