quarta-feira, 7 de outubro de 2026




O Despertar Cinzento e a Perna de Rimbaud





Hoje levantei com uma inspiração divina penetrando no ser que andava pelas avenidas da depressão. Abri a porta lateral e entrou um ar tépido, morno, que convida à contemplação da vida; um perfume de natureza intocável me fez acreditar que a vida é bela e que eu estava prestes a vivenciar, a recuperar o paraíso perdido, a redenção de Eva e Adão. Coloquei água gelada no rosto para despertar; depois, sorvi duas colheres de mel para energizar. Minha refeição era uma mistura, um blend de comida natural: arroz integral e lentilha — apesar de eu não me vender por um prato de lentilhas. Deixando as digressões de lado, o céu estava diáfano no seu azul inefável. Pensei em sentar na rua com um dos meus livros empoeirados e começar a deglutir suas letras.
Depois, resolvi ir até a bodega. Sentei num banco e o bodegueiro já me trouxe uma cerveja, sem eu pedir. A vida é assim: o hábito faz o monge. Ali, comecei um diálogo — ou fui iniciado nele — com um descendente de austríacos, coisa comum no Rio Grande do Sul, onde sempre se está falando sobre raças. Na realidade, a conversa ganhou corpo quando da chegada de uma tedesca que foi comprar cachaça e mel na bodega. O assunto tornou-se central: a Europa, os museus e a tal "cultura superior". Eu tentava rebater, mas não tinha espaço; resolvi tomar minha cerveja e me abstrair. Fiquei pensando: acho que vou morrer sozinho. Claro, isso porque tenho consciência da natureza do que Sidarta Gautama disse: "Nascemos e morreremos sozinhos".
Aos poucos, o céu foi se tornando plúmbeo, e o otimismo epifânico e climático foi se cinzeando. Foi neste ínterim que olhei para a minha perna esquerda: ela estava gangrenada, assim como a de Rimbaud quando, vindo da Abissínia, aportou em Marselha. Enfim, a tempestade anunciada pelos sites de meteorologia estava correta. O despertar foi apenas uma vã esperança neste mundo transitório...




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