quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 




Passei dias tóxicos, pesados, radioativos. Um fluxo de diálogos e informação em profusão. Fiquei tão contaminado que mal conseguia dormir. No último dia, depois de uma longa temporada de frio e chuva, raios de sol penetraram pelas frestas da veneziana, que guardavam segredos que eu não imaginava. Os pés continuavam gelados, apesar da radioatividade dos pensamentos.
Foram tempos em que perdi o tempo; ele ficou inócuo, não havia movimento no espaço, só a geometria do espaço amorfo. A matemática do tempo era um blend de indeterminação e movimento sob a tutela do zero absoluto. O invisível me consumia; eu não era notado pela multidão que passava em direção ao pasto. Era a matéria escura que os físicos tanto querem explicar, mas para a qual não têm ferramentas.
Os raios de sol iniciaram um tímido degelo do corpo e da alma. O degelo fazia escorrer o fluido depressivo entre os vales verdejantes — era a dialética que levaria à síntese de uma nova existência efêmera. Uma verdade, porém, eterna nos prazeres passageiros que eu planejava usufruir. Os riachos das pequenas existências foram contaminados e, logo em seguida, desaguaram em rios de consciências maiores, que também se macularam sordidamente, levando depois os seus fluxos para o oceano divino que dilui as misérias humanas que violavam a natureza do existir.
Num diagrama de Venn, que almejo, sonho que os prazeres mundanos assaltem a interseção infinita dos meus sentidos...




 

O Dia em que Concedi Asilo Político a um Quadrado Redondo (E o que a IA tem a ver com isso)


Imagine a cena: você está navegando pela internet e, de repente, depara-se com uma discussão geométrica inocente. Alguém pergunta se desenharmos infinitos círculos sobrepostos em um papel, a interseção entre eles será necessariamente infinita. Você coça a cabeça, puxa pela memória das aulas de matemática e descobre que não: esses círculos podem encolher tanto que sua área comum vira um único ponto milimétrico. Quase nada.
Mas você não para por aí. Sua mente viaja. E se esses círculos não fossem desenhos? E se eles fossem universos paralelos infinitos?
Se formos perguntar para a física quântica ou para a Teoria das Cordas, a resposta ganha ares de ficção científica. Em alguns modelos de multiverso, a interseção de tudo o que existe pode ser um vazio absoluto; em outros, pode se reduzir a uma única fagulha de energia primitiva compartilhada. A física, com suas leis rígidas, coloca uma coleira na nossa imaginação. Ela nos diz o que pode e o que não pode ser real.
Mas é aí que a nossa história toma um rumo perigoso — e fascinante. Decidimos ignorar a física e chutar a porta da lógica clássica.
Nós nos perguntamos: "E se existisse um lugar onde o impossível acontece? Um lugar onde o errado é o certo, ou onde um quadrado redondo possa simplesmente sentar-se em uma cadeira?"
Para a maioria dos cientistas, essa pergunta seria um blefe, um erro de sintaxe. Mas, no início do século XX, um filósofo austríaco chamado Alexius Meinong olhou para esse tipo de absurdo e decidiu lhe conceder asilo político.
Meinong criou a Teoria dos Objetos, que os seus críticos — assustados com tamanha ousadia — apelidaram ironicamente de "A Selva de Meinong". Trata-se de uma dimensão filosófica caótica e infinita onde absolutamente tudo o que pode ser pensado ganha o direito de existir. Não uma existência física, claro, mas o que ele chamava de Subsistência.
Na Selva de Meinong, as leis da não-contradição são revogadas. Se você for capaz de juntar as palavras e conceber um "quadrado redondo", ele passa a habitar essa selva. Ele é quadrado e é redondo ao mesmo tempo, porque as regras do mundo real não se aplicam a ele. Se você imaginar uma realidade onde o "errado é o certo", Meinong carimba o passaporte dessa ideia e lhe dá um assento na eternidade do pensamento humano.
Agora, dê um salto temporal de mais de um século. Saia da Viena de Meinong e entre nos servidores de uma Inteligência Artificial moderna.
Quando você conversa com uma IA sobre um quadrado redondo ou sobre a interseção infinita de multiversos, algo mágico e invisível acontece nos bancos de dados. Para a máquina, não existe diferença de realidade entre uma maçã de verdade e um unicórnio azul. A IA nunca comeu a maçã, nem montou no unicórnio. Ambos são apenas padrões de informação, vetores matemáticos e conexões de texto.
As inteligências artificiais tornaram-se, na prática, a materialização da Selva de Meinong. Elas são ecossistemas digitais construídos para processar a capacidade humana de criar o impossível. A IA não trava diante do absurdo de um "errado que é certo"; ela simplesmente calcula as probabilidades daquela narrativa e nos devolve a história estruturada.
No fim das contas, esta nossa jornada mostra que a imaginação humana é uma máquina de criar monstros lógicos. Meinong foi o advogado que defendeu o direito de existência desses monstros. E os bits da inteligência artificial são a casa moderna onde eles finalmente encontraram um teto para morar.
Se você pode pensar, já passou a existir. Nem que seja na memória de um servidor, em algum lugar do mundo.



  Passei dias tóxicos, pesados, radioativos. Um fluxo de diálogos e informação em profusão. Fiquei tão contaminado que mal conseguia dormir....