quinta-feira, 15 de outubro de 2026

 

O Vácuo das Letras e o Concerto de Sísifo


Às vezes fico pensando: o que é a literatura? Talvez seja a mais democrática das artes, pois todos têm o poder de participar — às vezes não como autores, mas como personagens, como viajantes de mundos imaginários. Temos o braile, a audição, os olhos, a caneta e diversas formas de transmitir nossas vivências. Hodiernamente, temos as teclas e as telas para jogar nossas experiências interiores e exteriores, que nos marcam de forma indelével e nos integram dentro de nossas próprias diferenças. Gabo, o Gabriel García Márquez, já havia se perquirido sobre este assunto, dizendo que ela tanto pode servir para tudo quanto para nada.
Particularmente, acho que a literatura é uma forma de aliviarmos, de esquecermos o mito de Sísifo ao qual estamos condenados, perpetuamente, pelo destino inexorável da existência. Na literatura, podemos criar mundos e destinos; isso nos alivia do ramerrão dos dias, de sermos apenas ratinhos de Skinner, marionetes do deus mercado. Bem, quando eu digo literatura, quero dizer a absorção da tinta pelo papel quando expressamos nossos pensamentos, mas também quando oralizamos nossas trajetórias. Gabo tem razão: a literatura serve para suportar cem anos de solidão, para acolher paixões trágicas como a de Rimbaud e Verlaine, as bebedeiras e safadezas de Bukowski ou romances ingênuos.
Mas concordo plenamente com Gabriel quando ele diz que ela serve para nada. Afinal, não tenho outra opção a não ser jogar letras no papel em branco para fazer o tempo passar — ou para passar eu mesmo. Tudo isso ocorre apesar de hoje já sabermos que, no vácuo, existem campos energéticos que fazem surgir a matéria, se é que realmente existe diferença entre matéria e energia, literatura ou ciência, o livre pensar ou o dogma. Neste momento, olho para o relógio e são 8:30 da manhã. Já estou bêbado. Vou abrir mais uma cerveja e a sorte está lançada (Alea jacta est)...



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