Durou alguns meses aquela extrema liberdade periferica, marginalizada. Nos reuniamos sem consciência da nossa liberdade impar. Sentávamos na mureta que cercava o posto de gasolina da Shell. Sempre no fim da tarde - comprávamos cervejas em vários comércios locais e convergíamos para o que chamávamos de open bar ou bar de rua, conforme a situação nos oferecia Os lumpemproletários se reuniam sem pertinencia de classe. Alguns trabalhavam em serviços domésticos, outros em pequenas transgressões, havia quem vendesse doces nos semáforos. Também, aparecia um taxista — que dizia ter sido fuzileiro naval US— que cheirava cocaína e adorava filmes de drogados como Christiane F. e Trainspotting (o seu preferido). Usava unhas pintadas
de marrom e cabelo platinado, mas nunca tinha assistido Breaking
Bad. O cortador de grama era um alcoólatra inveterado. Ganhava algum dinheiro e logo estava enchendo a cara pela avenida e adjacências. Só bebia cerveja, mas tinha crédito na comunidade, recebia adiantado por futuros trabalhos.
Havia também um pedreiro que dormia na rua. Perdeu o rumo após uma traição conjugal que não conseguiu superar. Fazia bicos aqui e ali. Era membro assíduo do open bar, dormia sob uma marquise, não sem antes ler os jornais disponíveis no espaço público.
Era um emaranhado de consciências tentando escapar do juízo final. Uma comunidade do caos, em busca de prazeres fúteis antes que o destino os levasse. O que chocava a maioria da vizinhança - era que todos eram ateus — alguns sem saber. “Esses caras nunca leram a Bíblia? Nunca tiveram contato com Descartes, que da dúvida chegou à conclusão de que Deus existe?” Quantas perguntas infames... Isso se passava na minha cabeça de ateu, um passo além de um agnóstico, apenas respondia com ironia diante de tanta ignorância pura. Contudo, entre zombarias e fés, ficou acordado que só a partir dos bling blongs dos sinos começaríamos a beber — nos domingos. Assim, estaríamos com “passaporte para o céu” pelo resto da semana. Ou seja, cairíamos de quatro no chão como Napoleão em Waterloo. O padre nos prometeu vinho na Páscoa, e nós negociamos um garrafão de tinto para encerrar nosso open bar, já que a polícia nos deu um ultimato para fechar o Irruption Bar. Os diálogos surgiam paradoxais: um falava sobre cortar grama sob o sol escaldante do extremo sul do Brasil; logo chegava o taxista-fuzileiro naval US, cheirado pelo pó - que nascemos e viraremos o pó das estrelas - por que as pessoas precisam de remédios para dormir. Ao mesmo tempo surgia uma mulher que vivia à mercê da praça, trocando o corpo por alguns trocados. Mas mostrava ter alguma cultura — não sei qual evento a arrastou para a fúria das ruas. ogos surgiam paradoxais: um falava sobre cortar grama sob o sol escaldante do extremo sul do Brasil; logo chegava o taxista-fuzileiro, cheirado, perguntando por que as pessoas precisam de remédios para dormir. Ao mesmo tempo surgia uma mulher que vivia à mercê da praça, trocando o corpo por alguns trocados. Mas mostrava ter alguma cultura — não sei qual evento a arrastou para a fúria das ruas.
E eu ali, bebendo, pensando em Kerouac e Cassady. Decidi transformar aquilo em texto. Nesse ínterim, muitas pessoas próximas faleceram. Fiquei encucado com a transitoriedade que nos ronda. A morte começou a fazer parte dos meus giros cerebrais.
No open bar também passaram pessoas com nível de entendimento compatível com o meu. Bebíamos cerveja nas manhãs ensolaradas de domingo. Marino era um cara que eu conhecia há décadas. Era um descendente de uma japonesa que se instalou no Mato Grosso e depois migrou para Santa Catarina. Tornou-se adepto de um budismo independente. Falava que precisava ler algumas sutras, para sobreviver nesta situação infernal. Antes disso, tinha sido skatista do boulevard inclinado; comun ista - depois fotógrafo de partos no hospital. Os laços foram cortados como cordões umbilicais.
Agora estávamos., face a face, no Irruption Bar. Omde uma árvore generosa ns dava uma sombra divina.. Hare Krishna, Krissna Hare..
Nenhum comentário:
Postar um comentário