Machado de Assis Vive
Estou olhando aquele imbróglio existencial — que vai caminhando pela avenida de um bairro de classe média. Vejo uma miscelânea de vivencias — este sou eu, um Brás Cubas com uma pena transcendental, defunto-autor — que se autodescreve a partir da composição de um ser que se achava superior. No seu ego intransponível, na sua consciência blindada com grafeno existencial, não havia espaço para outrem: tudo dependia da minha bênção e aprovação. Ambulava passando por transeuntes, sem me preocupar em cumprimentá-los. Os estudos, livros, filmes e correlatos, somados à total adesão ao digital, me faziam um imperador diante de tanta mesquinhez, de tanta inferiodade... A matemática me afastava do ramerrão infame. Estava reduzido a Pitagoras o mundo. É números... Não conseguia mais ouvir a política medíocre, que misturava corrupção e pastores...
Sentei na mureta do posto de gasolina da bandeira Shell, que havia se tornado um divã, onde me autoanalisava, embaixo de uma árvore exótica — que me acolhia com seus galhos, folhas, caules e bolotas, em vez de frutos. Havia um significado simbólico na interação homem-natureza — o deus de Espinosa: Deus é a natureza & a natureza é Deus... Aqui de cima, sem as emoções geradas pelo que entra pelos sentidos, senti que a existência é um fluxo sem controle. A liberdade é uma palavra sem correspondência na natureza da qual faz homens y deuses. Os liberais usufruem dela para impor poder e garantir direitos. A cantilena da superestrutura impede que as flores floresçam, que as sementes reproduzam o original & a colheita seja justa. Quantas vidas se perderam por venenos (agrotóxicos) jogados do céu pelas máquinas capitalistas. O verde está amarelando, secando — enquanto conchavos entre IA, Estados fascistas e big techs planejam um mundo em que os bilionários darão as cartas, marcadas pela corrupção dos seus desejos, apesar da destruição do planeta...


Nenhum comentário:
Postar um comentário