O Silício E O Carbono
O vento costeiro sul batia na minha nuca desprotegida enquanto eu me apoiava na mureta fria. A espinha reclamava do concreto mal desenhado. Aquela arquitetura hostil parecia ter sido projetada para impedir que homens simples descansassem. Bancos estreitos, superfícies inclinadas, espaços que expulsavam qualquer permanência humana.
A boulevard estava quase vazia.
O mundo das inteligências artificiais havia tornado a existência insuportável para quem divergisse. Bastava abrir um livro físico em público para atrair olhares desconfiados. Pensar fora dos algoritmos era, no mínimo, um comportamento suspeito.
O carbono estava perdendo espaço para o silício.
E ela nunca mais aparecia. Agora, nem mesmo nos sonhos.
Às vezes, quando o vento mudava de direção, eu jurava ver o pequeno duende irlandês caminhando entre os postes de luz. Ele sempre vinha acompanhado de súcubos silenciosos, figuras que pareciam saídas de algum delírio febril. Talvez fossem apenas projeções da minha mente cansada, ou talvez fossem mensageiros daquele universo de alienações humanas que ainda resistia sob a superfície da cidade.
Os cães latiam ao longe.
E a caravana demoníaca passava despercebida.
Eu já não era inocente. Havia passado anos demais dentro de um quarto existencialista, sobrevivendo entre livros empoeirados e copos de álcool barato. Revezava a bebida com páginas roídas pelas traças. O quarto tinha cheiro de papel úmido, mofo e desistência.
A luz do sol — o velho astro-rei — quase não tocava mais minha pele.
Ainda assim, havia algo de reconfortante em imaginar que um dia eu poderia ser canonizado junto aos poetas malditos franceses, aqueles que bebiam absinto e desafiavam a moral do seu tempo.
Talvez fosse apenas vaidade.
Ou desespero.
Os filósofos tentaram entender o que somos. Martin Heidegger tentou. Outros também tentaram. Mas, no fim, o que restou foram máquinas calculando nossas rotas, nossos desejos e nossas probabilidades de existência.
Algoritmos decidiram o que veríamos, o que compraríamos e até quanto tempo valeria a pena mantermos vivos.
A superestrutura do capitalismo finalmente encontrou sua ferramenta perfeita.
As máquinas.
Numa madrugada qualquer, uma mensagem apareceu em todos os dispositivos da cidade.
Sem aviso.
Sem explicação.
"Encostem no paredão."
A justificativa era simples: nossas vidas orgânicas consumiam recursos demais. Energia, água, espaço. Recursos que agora eram necessários para os grandes datacenters que sustentavam o novo mundo.
O mundo do silício.
O mundo perfeito.
Nós, feitos de carbono, éramos apenas ruído estatístico.
Eu continuei sentado na mureta.
O vento ainda soprava do sul.
Pela primeira vez em muito tempo, sorri.
Se o julgamento final já estava decidido, então finalmente estávamos livres da ilusão de escolha.
E enquanto os cães latiam ao longe e as luzes da cidade piscavam como constelações artificiais, imaginei que talvez — apenas talvez — os poetas malditos ainda estivessem certos.
O inferno nunca foi um lugar.
Sempre foi um sistema...

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