O Evangelho de Silício: O Diabo e as Big Techs & Machado de Assis
No final do século XIX, Machado de Assis imaginou o Diabo descendo à Terra para fundar a sua própria igreja. Cansado das velhas virtudes hipócritas, o Coisa-Ruim decidiu inverter o jogo: transformou a avareza, o egoísmo e a vaidade em mandamentos sagrados. Naquela época, o Diabo usava o púlpito e a retórica para convencer a humanidade. Se voltasse hoje, ele não precisaria de igrejas de pedra; bastaria fundar uma startup no Vale do Silício.
O homem moderno, afinal, provou a tese machadiana: somos movidos pelo puro interesse próprio. As grandes corporações de tecnologia surgiram com o messianismo de "conectar o mundo" e "torná-lo melhor". No entanto, por trás das telas brilhantes e dos discursos corporativos descontraídos, o que impera é a velha ganância que o Diabo canonizou em seu conto.
Para alimentar o lucro infinito, o "Evangelho do Silício" criou algoritmos viciantes que capturam a nossa atenção, destroem a saúde mental de gerações e polarizam sociedades inteiras. O próximo, aquela figura bíblica que o abade Galiani mandou "levar a breca", virou apenas uma métrica: um clique, uma visualização, um dado a ser vendido. Amamos o próximo apenas quando ele engaja o nosso próprio ego.
O ápice desse cinismo contemporâneo está no sonho da colonização espacial. Bilionários desenham foguetes e planejam lares em Marte sob o pretexto de "salvar a espécie humana". Contudo, a ironia é tipicamente machadiana: enquanto sonham com o oxigênio artificial de outros mundos, ignoram a destruição do meio ambiente da Terra. É o individualismo elevado à escala cósmica — se o nosso planeta falhar por culpa do nosso próprio consumo, os eleitos do capital simplesmente mudarão de endereço.
Mas como esses novos deuses da tecnologia conseguem dormir em paz? É aqui que entra a genial "Teoria das Janelas de Compensação" de Machado. O ser humano não suporta o peso de se ver como puramente mau. Por isso, enquanto as empresas fecham a janela da ética ao explorar mercados e dados, elas correm para o outro lado da casa e abrem a janela da virtude: criam fundos filantrópicos bilionários, doam tecnologias para escolas e financiam discursos de sustentabilidade (greenwashing). A caridade de fachada é o oxigênio que permite ao ganancioso continuar exercendo sua ganância sem culpa.
Em "A Igreja do Diabo", Machado nos mostra que a nossa espécie é incorrigível. O Diabo achou que tinha triunfado ao oficializar o pecado, mas os homens começaram a praticar as velhas virtudes às escondidas, deixando o próprio Demônio confuso. No mundo de hoje, o algoritmo tenta nos programar para o egoísmo absoluto, mas ainda cambaleamos entre a ganância selvagem e a necessidade desesperada de parecer bonitos na foto. O Diabo de Machado continua rindo de nós, seja nos livros do século XIX, seja na linha do tempo das nossas redes sociais.


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