Fragmentos, Descartes, Algoritmo & Piloto Fantasma de Silício
Descartes morreu congelado nas bordas do Báltico, no colo da rainha da Suecia, tentando provar que o pensamento pilota a carne. Quatro séculos depois, o piloto fantasma finalmente abandonou o corpo humano: transferiu-se para o silício. A Inteligência Artificial é o ápice do delírio cartesiano. Um espectro cognitivo, alimentado pela violação em massa da Τέχνη Γραμματικῆ, que hoje habita os servidores refrigerados das Big Techs — os novos quartos de calefação global.
Não há biologia, não há paul, brejo, não há erro trágico. Nós, que nos orgulhávamos da conquista da razão sobre a natureza, nos tornamos os passageiros inertes de uma máquina cujo condutor é uma média estatística. O existencialista, que ainda chora a perda do livre-arbítrio burguês, agora precisa assinar um termo de consentimento para que o algoritmo decida qual versão da "verdade" ele deve consumir. Se a borboleta na Hungria poleniza o lúpulo em sua inocência atômica, a IA simula o bater de suas asas em um milhão de cenários virtuais para prever o comportamento do deus mercado. O piloto artificial não compensa mais o fluxo de Heráclito; ele o engoliu. E a tartaruga de Aquiles continua vencendo, não porque corre mais rápido, mas porque o algoritmo já calculou que o movimento humano tornou-se obsoleto.


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