Passei dias tóxicos, pesados, radioativos. Um fluxo de diálogos e informação em profusão. Fiquei tão contaminado que mal conseguia dormir. No último dia, depois de uma longa temporada de frio e chuva, raios de sol penetraram pelas frestas da veneziana, que guardavam segredos que eu não imaginava. Os pés continuavam gelados, apesar da radioatividade dos pensamentos.
Foram tempos em que perdi o tempo; ele ficou inócuo, não havia movimento no espaço, só a geometria do espaço amorfo. A matemática do tempo era um blend de indeterminação e movimento sob a tutela do zero absoluto. O invisível me consumia; eu não era notado pela multidão que passava em direção ao pasto. Era a matéria escura que os físicos tanto querem explicar, mas para a qual não têm ferramentas.
Os raios de sol iniciaram um tímido degelo do corpo e da alma. O degelo fazia escorrer o fluido depressivo entre os vales verdejantes — era a dialética que levaria à síntese de uma nova existência efêmera. Uma verdade, porém, eterna nos prazeres passageiros que eu planejava usufruir. Os riachos das pequenas existências foram contaminados e, logo em seguida, desaguaram em rios de consciências maiores, que também se macularam sordidamente, levando depois os seus fluxos para o oceano divino que dilui as misérias humanas que violavam a natureza do existir.
Num diagrama de Venn, que almejo, sonho que os prazeres mundanos assaltem a interseção infinita dos meus sentidos...


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