O Concerto das Marés e o Desconserto do Ser
Às vezes penso que o ser humano não tem conserto porque, fundamentalmente, nos falta concerto. Somos uma orquestra caótica e desafinada, onde cada átomo de carbono toca sua própria nota egoísta e barulhenta, incapaz de encontrar a harmonia na sinfonia da existência. Aprisionados no ruído das telas virtuais, nos esquecemos de como escutar. Mas enquanto nos afogamos em nosso próprio desconserto, o universo segue sua regência perfeita. Basta olhar para a imensidão dos oceanos e o fluxo incessante de suas ondas. Há um ritmo cósmico ali, uma partitura ancestral escrita na água que nos diz que o compasso do planeta e do universo está escondido nos sons que a maré produz. Essa plasticidade aquatica, esse vai e vem que molda costões e engole praias, nada mais é do que o reflexo visível das forças misteriosas que o cosmos esconde da nossa intuição limitada. O mar não precisa de axiomas, de silício ou de mercados para saber para onde ir. Ele apenas flui, obedecendo à gravidade, à Lua e ao tempo. Nós, os supostos maestros da criação, somos os únicos que rasgaram a partitura. Enquanto a água canta a harmonia das forças ocultas da física, nós preferimos o isolamento de nossa própria dissonância. Talvez a salvação não esteja em consertar o homem, mas em aceitar que o verdadeiro concerto do mundo continuará tocando, soberbo e belo, muito depois de a nossa última e desafinada nota silenciar.

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