Carrego a corcunda existencial do Quasímodo: perdi minha agilidade e agucei os pensamentos. Sou uma máquina de pensar num corpo que gera repúdio e horror em outrem... Não tenho considerações favoráveis para o que chamam de sociedade, por isso me isolo inteiramente nos sinos da Catedral de Notre-Dame. A existência passa para mim em cavernas de Platão; não quero sair, pois a luz mostrará minhas deformidades corporais. Estou acima das pessoas hipócritas que rezam abaixo das naves de arte que custaram sangue humano e escravização no Novo Mundo.
Vamos tentar acreditar no ser humano que tem como deus o money. Não tínhamos nenhum quando apenas escambávamos; agora, temos uma orgia moral e ética para justificar a desigualdade e a injustiça — parece que as duas caminham juntas. De tempos em tempos aparecem messias nos indicando o caminho do paraíso, mas na realidade nos levam para o abismo incomensurável do capitalismo, que seca nossos poços para oferecer soluções de pagamentos infinitos, agora com a sanção de governos. Nossos esgotos servem de alimento para as crianças da favela e a bolsa de valores sobe a cada promessa de cortes dos benefícios sociais; claro, sobrará mais dinheiro para os imperialistas que sugam o sangue da população...
Eu continuo me arrastando pelas ruas de Paris na madrugada; ofuscado pelas luzes imperfeitas posso passear com minha corcunda sineira, mas o meu pensamento se consome no meu grande amor pela jovem cigana Esperança...


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