terça-feira, 25 de agosto de 2026



IMEXA: A Poetisa Que Abrigava Dr. Jekyll & Mr. Hyde Em Sua Alma


Toda vez que o sapato furava ou partia ao meio — literalmente —, encerrava-se um ciclo existencial. Depois da queimada irracional de uma fase, advinha outra: de racionalidade fria, metódica, porém no abrigo das letras revoltas dos poetas, num oceano profundo de insanidade. No refúgio, no intervalo entre a circularidade das fases, a mente era invadida por uma horda de escritores malditos. Sempre estavam presentes os "les poètes maudits": Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, etc. A existência de Imexa seguia o fluxo de alternâncias entre a veneta e a sobriedade. A intersecção entre a dialética — que podemos até denominar síntese — servia para a poetisa elaborar um balanço escriturado por rimas e verves doidivanas. Seu sapato de salto alto era o termômetro que indicava o fim de um ciclo. Às vezes, a quebra do salto indicava o fim da fase irracional; por outro lado, o aprofundamento no estouvamento só era interrompido diante de um furo na sola fashion: o contato da planta do pé com o chão cru da dura realidade.




Os intervalos eram uma aceleração para a fase irracional ou a desaceleração para a bonança. As escrituras poéticas sofriam a influência do álcool, a degradação do corpo ou uma paixão que não aceitava limites. Imexa, com seus cabelos negros, em época de racionalidade, irradiava de sua pele morena todos os quebrantos possíveis. Seus olhos sunshine inspiravam uma sensação de luminosidade, de zen-budismo e uma doce empatia das calmarias. O sapato de salto intacto era o índice do conjunto de predicados que iluminavam uma paz inefável, a qual emanava de sua aura. Sua voz era serena, suas palavras eram simétricas, ritmadas e edulcoradas como a ambrósia que Hebe serve no Olimpo aos deuses.
Na semana passada, Imexa andava quase descalça; seus pés encostavam nas lajes frias do basalto outonal. Sua graça, em tempos lógicos, era uma mistura das deusas gregas Atenas e Afrodite. Conseguia harmonizar a beleza e a sexualidade (sex appeal) com o conhecimento. No entanto, quando se encontrava no polo oposto, seus cabelos de Medusa davam à sua face uma beleza insana. Seus dedos e neurônios, em hábeis dígitos e fantásticas sinapses, preenchiam a tela do iPhone com poesias libertárias, emergidas no fluxo da consciência e submergidas no absinto que a fazia naufragar no Café Rimbaud Express. Sua mesa preferida ficava embaixo de uma árvore exótica, cujo nome e origem nem os garçons ou os habitués sabiam especificar. Seus livros, o iPhone e os copos da verde bebida dos poetas franceses do século XIX iniciavam a ocupação do campo de batalhas etílico-culturais ao entardecer. Uma luz verde intensa, vinda do solo, ganhava a copa do exótico vegetal. Imexa, antes de iniciar o ritual absíntico, bebia veloz e furiosamente duas taças de tequila, sugando o suco de limão e beijando o sal com os lábios injuriados de avidez poética. Sua alma se retorcia; sua verve ácida expulsava o Dr. Jekyll. Incorporado, Mr. Hyde absorvia o absinto vorazmente. Imexa iniciava a frenética digitação no seu aparelho do genial finado Steve Jobs — a maçã de Isaac Newton. Seus cabelos de Medusa se agitavam, seus pensamentos se absorviam e jactavam-se das sombrias zonas de criatividade do córtex, e seus olhos reviravam-se num êxtase luciferiano. Os serviçais que traziam e levavam copos de absinto juravam sentir cheiro de enxofre e murmúrios sibilinos do além. Esse estado de coisas sucedia-se por semanas, por meses, até o momento em que seus pés nus encostavam no chão invernal, no gelo das primeiras geadas sulinas. Sua alma ia perdendo o fogo do Hades. Cérbero abria uma exceção e a conduzia ao barco de Caronte, que a levava novamente ao mundo da Luz. Ela será uma Perséfone: terá que retornar ao Hades, pois, inocentemente, provou o fruto maldito da poesia francesa.





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