E O FLUXO CONTINUA...
Era mais um dia, o ramerrão iria continuar, não pensava mais em perspectivas para o meu Dasein, apenas caminhando afundado em pensamentos mais altos e, contraditoriamente, mais profundos. Alguém interrompeu o meu devaneio: "— Oi! Que belo dia". Parei, então prestei atenção na luminosidade, no azul cerúleo, nos pássaros cantando como se a delícia se concretizasse em sua existência; certo, pensei, talvez tenha dramatizado a existência. Com efeito, o estado de coisas naturais dava um sentido benéfico, um bem-estar, porém minha existência estava separada, apartada do mundo dos homens e da natureza, apenas vivia para que os dias finais se encaminhassem de um modo ou de outro — pensava: deixe o fluxo do tempo-espaço passar, mas, enquanto isso, me ocuparia de alguma ideia démodé, fora das questões superficiais do homem atual. Não que desejasse alguma compensação, apenas, repito, deixar o fluxo do espaço-tempo fluir sem alterações; não que fosse um determinista, mas sentia o gosto da derrota, não pela semântica do nada, mas sim pelo colóquio desenfreado das percepções profundas...
MAIS FLUXO......
Cérebro >>> numa flutuação frenética, num fluxo sem consciência, sem sistema, sem método, apenas o caos emergindo dos princípios ativos de medicamentos aparentemente benéficos. A todo o momento um pensamento vem, associação à lá Hume, Nietzsche... ou melhor, suas leituras destruíram a razão em que acreditava, mas de que no íntimo do processo cerebral desconfiava: "foi bom ter lido o martelador da razão, pois sou um perdedor, simplesmente porque o homem está perdido desde o ventre materno, nasce com prazo de validade, não há muito o que fazer, talvez os hedonistas passem melhor o tempo do que os outros homens..."
No meu universo, no meu mundo nem as baratas se adaptam, pois elas sentem, farejam com suas antenas de super-sobreviventes a tragédia pairando no ar, a atmosfera metacrítica prestes a queimar a etapa da estabilidade, de estar na beira do precipício e dar o passo. Elas sabem que meu universo vai me esmagar, meus pensamentos vão me esmagar, talvez até espirre meu sangue vermelho, minhas veias, minha carne velha e maltratada: se elas permanecerem neste universo particular dos meus pensamentos, não sobreviverão, a dose é maior que a radiação da arma nuclear mais radical. Fujam, baratas, para seu esgoto confortável, seguro, estabilizado, durem mais não sei quantos bilhões de anos nesta mesmice, nesta mediocridade existencial >>> esperem pacientemente pelos restos do capitalismo, ele custuma ser generoso com suas migalhas aos que se resignam, aos que praticam a genuflexão diante do altar do mercado, que rezam orações de demandas e ofertas >>> Não: prefiro ser esmagado pela atmosfera, pela teoria da relatividade geral, ser curvado por um campo gravitacional, sumir na singularidade de um buraco negro, ou simplesmente pela segunda lei de Newton >>> mas sempre pensando numa utopia; que os homens comuns não encontrem suas necessidades criadas, seus medos disfarçados, suas loucuras da razão >>> não há nada para eles, nem migalhas — as baratas já sabem — não se assomem à minha porta infernal, aos meus inertes diabos que me consomem lentamente na linha de tempo, lá não há orações que salvem, métodos, caminhos, taos; deixem-me sozinho no meu universo compactador, na prensa cruel de meus pensamentos, dos fluxos cerebrais que não escorrem pela realidade... pois esta é minha versão kafkiana de como eu me sinto, de como é possível ter um mundo impenetrável que produz a forclusão até nas baratas metamorfósicas ou não...


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