terça-feira, 23 de junho de 2026



Dia próprio para perquirições internas. Muitas coisas me preocupam (pré-ocupam); o céu sombrio, a temperatura baixa e a umidade me levam a caminhar mais longe e não sair do lugar. No mercado, adquiri algumas cervejas e alguns vinhos, mais algumas coisas abstratas e concretas. Os carros passam no asfalto molhado, a chuva leve dá o sabor que faltava. O silêncio dominado pelo coaxar dos pneumáticos de borracha pressionando o píxe...

Tenho que voltar para um tempo em que um jazz suave e doce tocava nos bares das ruas do orco-paraíso. A roupa já está molhada, e o vinho vagabundo servido aos beats já está nos esperando nas mesas carcomidas, enquanto a osteoporose consome nossa estrutura existencial. Vejo vultos com taças na mão — arriba, compañero, largue a pena e venha festejar nossas vontades inconfessáveis. Uma réplica de Van Gogh enfeitava a parede pincelada de ketchup, mostarda e vá saber o que mais. Olhei de novo: a garota que tinha me ajudado a chegar em casa no dia anterior estava na minha frente. Ela perguntou:
— Tudo ok com as cervejas?
— Cheguei em casa & assim caminha a humanidade, te devo uma.
Não quis aprofundar meu olhar nos seus olhos. Resolvi sair do bar e caminhar novamente pela avenida. Os pulmões já tinham virado guelras; a iluminação de sódio refletia nas lajes e pedrarias fantasmagoricamente. O jazz soava e me conduzia pela noite infinita, e o relógio digital marcava um tempo que eu não entendia. A música me conduziu para o infinito. A sarjeta me chamava, os anjos da loucura tentavam me erguer com acordes de harpas. Non Plus Ultra...

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