quarta-feira, 10 de junho de 2026

 



Aqui, sozinho na mureta que suporta meus desvaneios alcoólicos. O posto de gasolina oferece a matéria-prima para a doidivana diária: a cerveja. Desemaranhado das relações e paixões existenciais, sinto-me bem. Ela, com seu cigarro indonésio, me olhou de forma fulminante; tentei interpretar o que sua expressão facial revelava. Não tivemos contato, apenas me lembrei do retroativo que levou a esta minha solidão racional e preventiva. A existência vem desde o Big Bang, e a coisa se intensificou desde que o Homo sapiens levantou do chão do planeta, passou a admirar o cerúleo e adquiriu a consciência — a maçã de Eva e de Newton. Não sou uma máquina; passei no teste que ela me propôs. Alan Turing desvendou os códigos, os enigmas, mas escondeu as relações humanas...
No meio de uma tarde muito fria, fui até o boteco da esquina curva e sorvi mais uma cerveja gelada, enquanto seres ofuscos tomavam café fervente. A garçonete perguntou, por entre seus cabelos lisos e pretos:
-  Cara, por que você bebe tanto?
Fiquei alguns minutos pensando. Porra. Deve ser porque tenho vontade. Disse para ela que, no próximo pedido, responderia. E a tarde foi virando noite; fiquei com o pensamento em circularidade: Por que eu bebo tanto? Acho que ela se deu conta da sua pergunta invasiva; não falou mais nada, apenas atendia ao meu pedido de mais uma cerveja. A vida não é uma continuidade em linha reta, pois o espaço é curvo, como provou Einstein. Saí do deletério bar e caminhei em direção ao centro da cidade, onde empinei uns conhaques no frio castigante do Sul...


Nenhum comentário:

Postar um comentário

  Aqui, sozinho na mureta que suporta meus desvaneios alcoólicos. O posto de gasolina oferece a matéria-prima para a doidivana diária: a cer...