terça-feira, 7 de abril de 2026

 

A maçã e eternidade efemera





Uma franja de fótons rasga o semiescuro.
A sala fechada respira restos de noite — uísque, língua, memória.

Chove.
O mundo pede repouso,
mas a cabeça insiste:
ruído, fragmento, entropia.

Vivo em ciclos —
ascese e queda.
Arroz integral, pureza provisória,
uma tentativa patética de ordenar o caos.

Depois, o retorno:
álcool, excesso, vozes marginais nas praças.
Os sinos dobram — ninguém escuta.
Latas estouram como pequenas rebeliões
contra o tédio moral dos corretos.

A tela em branco exige registro.
Quase um dever físico:
transformar desordem em linguagem.


Polimento inútil:
corpo e alma esfregados
na esperança de eternidade.

Mas somos isto —
átomos provisórios
em trânsito cego.

O antropomorfismo ergue castelos
com a arrogância da maré baixa.
Uma onda — basta —
e tudo retorna ao informe.

Velórios:
flores, lágrimas, alívio disfarçado.
A morte não escandaliza —
apenas confirma.

Non plus ultra.
O pensamento não ultrapassa o corpo.
Tudo o mais é arquitetura do medo.

O bípede implume projeta recompensas:
paraísos como salário moral.
Adultos —
crianças com vocabulário ampliado.


Manhã:
aves cantam, indiferentes.
Serpentes escrevem na terra,
vermes trabalham o invisível.

Entre mito e física,
uma maçã cai.
Nunca foi pecado —
sempre foi gravidade.

Civilização:
nome elegante para a violência organizada.
Povos apagados,
corpos acorrentados,
deuses usados como justificativa.

Saímos das cavernas —
entramos nos bunkers.
Troca-se a clava
pela bomba.

Progresso.


O homem deseja o bronze da eternidade.
Recebe o ferro —
e sua lenta oxidação.

Brilha por um instante,
depois escurece.

Memória:
apenas um reflexo fraco
na superfície da noite.

E, ainda assim, insiste.

E assim caminha.


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