domingo, 29 de março de 2026

 


Teresópolis, ou a Última Noite que Nunca Terminou




Dizem que os bairros também envelhecem. Não pelas casas, nem pelo asfalto que se recompõe em camadas sucessivas, mas pela memória dos que caminharam suas ruas. Teresópolis, em Porto Alegre, já foi um organismo vivo — pulsava em álcool barato, risadas roucas e promessas que nunca sobreviveram ao amanhecer.

Começava cedo.

No Bar Tiaraju, antes mesmo do sol decidir se nasceria com vontade, Mr. Ceasar já ocupava seu posto. Havia nele uma liturgia silenciosa: cerveja na mão, ironia no olhar e aquele hábito estranho de trocar os óculos com as meninas que faziam ponto na esquina da Marechal Bormann com a Teresópolis. Como se, por alguns segundos, pudesse enxergar o mundo a partir de outro corpo, de outra história.

E o Galego — sempre o Galego. Às sete da manhã, já estava diante do balcão de vidro, onde os salgados envelheciam ao longo do dia. Mas ele não. Ele já começava pelos martelinhos, como quem desafia o tempo a correr mais rápido. Enquanto isso, a cidade acordava em parcelas: trabalhadores saindo, sonhadores adiando.

Mais adiante, o Ravengar nunca dormia. Seu balcão de cimento sustentava mais do que copos — sustentava versões exageradas da realidade. Servia-se de tudo: bebida, cigarros, histórias mal contadas. Diziam que a salada do almoço era lavada no mesmo tanque onde os funcionários se banhavam. Ninguém confirmava. Ninguém realmente queria saber. Havia um certo sabor na ignorância.

O Estoril tentava manter uma dignidade que não combinava com o bairro. A classe média se agarrava ali como quem segura um guardanapo limpo em meio à tempestade. Era um refúgio — ou uma ilusão de refúgio.

Mas o Cruz de Malta… ah, esse não fingia nada. Não tinha porta, não tinha pausa. Era aberto como uma ferida. A mesa de sinuca na entrada funcionava como um convite ou uma armadilha — dependia da noite. Sempre havia alguém disposto a apostar o pouco que tinha, ou o muito que devia. Os martelinhos batiam no balcão como se brotassem da madeira, e o tempo ali não era contado em horas, mas em derrotas.

O Rosângela surgia como um contraste estranho — quase elegante. Mas bastava uma noite mais quente para que os vândalos locais invadissem o ambiente e dissolvessem qualquer tentativa de ordem. A dona, paraguaia, observava com uma paciência resignada. As garotas sorriam. Nós reclamávamos da fraqueza das caipirinhas, mas, no fundo, queríamos apenas prolongar aquele estado impreciso entre juventude e excesso. E, de algum modo, ficava tudo bem.

No Colonial, a coisa mudava de tom. Era época de confusão estética e ideológica — punks, hippies tardios, aspirantes a revolucionários e figurantes da própria rebeldia. Ninguém sabia exatamente o que combatia. Talvez tudo. Talvez nada.

Foi ali que a noite ultrapassou o limite do grotesco. Naquele tempo, Mike Tyson mordia orelhas em arenas distantes. Em Teresópolis, a imitação veio sem glamour: Bene arrancou um pedaço da orelha de Jorge na esquina da Avenida Belém. O sangue escorreu sem metáfora. E alguém, no meio do caos, disse:

— Poxa, a gente só queria se divertir...

E era verdade. Sempre era.

No Bar do Chumbo, a fuga era audiovisual. Bebíamos como se o fígado fosse descartável, assistindo a vídeos de new wave e filmes como Expresso da Meia-Noite. Havia uma tentativa quase ingênua de escapar — mas ninguém realmente saía dali.

Quando a madrugada já se dissolvia, restava o ritual final: a carrocinha do Tidinho. Cachaça com abacaxi, forte e doce como uma despedida mal resolvida. Depois, o cachorro-quente — não por fome, mas por necessidade de encerrar algo que nunca começava direito.

E havia a Lucy. Sempre havia a Lucy. A porta vermelha do seu cabaré era um portal que nunca atravessávamos. Ficávamos do lado de fora, adolescentes tardios, consumidos por uma curiosidade que misturava desejo e medo. Era melhor assim. A imaginação sempre foi mais generosa que a realidade.

Na Sepé Tiaraju, os marinheiros desciam dos navios como personagens de outra narrativa. Misturavam-se ao bairro, às prostitutas cansadas, ao barulho difuso de uma noite que parecia não ter dono. Teresópolis virava um território suspenso — nem porto, nem casa.

Muito antes disso, dizem, os bondes já traziam esses homens. O bairro sempre foi passagem. Um arrabalde em trânsito constante, onde ninguém ficava — apenas permanecia por um tempo.

Hoje, o silêncio venceu.

Não há mais martelinhos explodindo no balcão, nem desafios de sinuca na madrugada. As portas — agora existentes — se fecham cedo. E nós, que antes éramos parte da noite, recolhemo-nos às nossas casas.

Talvez pela idade.

Talvez porque a noite, como Teresópolis, também tenha se cansado de nós.





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