Uma franja de fótons lambe o semiescuro da sala, com janelas fechadas. O sabor do uísque da noite anterior ainda permanece na língua, na boca. O dia chuvoso convida ao sono reparador, enquanto a cabeça fervilha em pensamentos quebrados.
Os caminhos tortuosos são uma constante no que chamo de estar aqui por enquanto, sucedidos por períodos de santificação — arroz integral, alimentos naturais e pensamentos límpidos tentando organizar o caos anterior — repouso contínuo.
Isto está conectado, paradoxalmente, com fases de explosões irracionais, bebedeiras imensuráveis, diálogos com marginais que habitam as praças, enquanto, no campanário, os sinos dobram em frente à praça que reúne bêbados, drogados e desocupados. As latas de cerveja espocam num festival capaz de arrepiar evangélicos, moralistas e toda a gama de conservadores.
O papel digital em branco, na tela, espera que eu relate estas peripécias explosivas quase cotidianas.
Lustro o corpo e a alma com a ilusão de ser salvo pela eternidade humana, que navega desde a estrela de carbono que possibilitou a vida. Efetivamente, temos a fugaz constituição de átomos que, no futuro, se desagregarão e constituirão outros objetos.
O antropomorfismo constrói seu castelo de areia com orgulho e presunção, que, na primeira onda mais forte, se desmancha. As carpideiras choram nos velórios, cercadas de flores e sentimentos diversos, recheados de lágrimas ou satisfação — mas, no fim, sabemos que este é o destino da existência.
Non plus ultra: o pensamento não vai além do corpo; depende dele, apesar dos deuses, paraísos e infernos construídos. Aceitar o destino é o que as leis do universo — ou multiverso — nos ensinam.
O bípede implume e (ir)racional projeta o futuro no paraíso do criador, com benesses devidas ao seu bom comportamento. O homem adulto apenas substitui as puerilidades da infância por conceitos fantasiosos — mas o desejo é o mesmo que move a ilusão humana.
Os pássaros gorjeiam no amanhecer primaveril; as serpentes arrastam o ventre pela terra; os vermes habitam o subterrâneo. A macieira gerou o fruto do pecado original, mordido por Eva e Adão — mas também é verdade que Newton elaborou a lei da gravidade a partir da maçã que caiu sobre seu crânio privilegiado.
A dialética possibilitou a evolução dos antônimos — algo intuído por Darwin em sua teoria. Terras estranhas foram habitadas por homens “civilizados”, que dizimaram povos originários. Escravizaram seres sem “alma”, acorrentaram e espancaram sem piedade.
O homem moderno não tem clavas nem cavernas; porém, abriga-se em bunkers e constrói bombas atômicas — tudo em nome de um deus construído à sua imagem e semelhança.
O homem busca o bronze da eternidade, mas sua transitoriedade só oferece a oxidação do ferro — a efemeridade que faz brilhar seu passado no alto da noite.
E assim caminha a humanidade..


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