O ASFALTO MOLHADO
Carpe Noctem
O asfalto totalmente molhado reflete as luzes de sódio. Sento-me na mureta de cimento úmida e tomo mais uma cerveja. Estamos disponíveis para as mudanças das estações. Agora, quatro graus e três décimos, num fim de inverno onde já despontam os gorjeios dos sabiás na madrugada.
Uma nova esperança ensaia surgir: carros elétricos passam silenciosos, sem poluição. Bobagem. Eles me lembram o velho filósofo Sartre — que, apesar de burguês, desceu às sarjetas operárias de Paris em maio de 68. Completo o seu pensamento, pois ele mesmo disse: "Esta pode ser minha última ingenuidade", referindo-se a acreditar no progresso humano. Na prática, as máquinas novas são iguais às de combustão: não respeitam sinaleiras, muito menos a faixa de pedestres.
Fico olhando a chuva cair, maravilhosa, nesta noite estética e gélida que poucos sabem apreciar. Raros transeuntes cruzam meu caminho. Estou cercado por um deserto de espigões e condomínios verticais; estão todos hipnotizados em seus apps, capturados por telas de superficialidade e seus condimentos alienantes.
Pensei até em celebrar minhas próprias exéquias. Sinto a alma me abandonar na encruzilhada que logo vem. Mas na minha contraprodutividade racional, prefiro gerar maxikoans. Na essência, eles fundam um novo método de encarar a realidade. Afinal, como bem escreveu Nietzsche: "Não existem fatos, apenas interpretações".
Que vivam as loucuras que flutuam acima do senso comum.


Nenhum comentário:
Postar um comentário