terça-feira, 25 de agosto de 2026


Matéria Invisível e uma Oração Boêmia





Pode ter sido uma das minhas últimas tosses, mas ainda tenho força nos dedos para relatar metáforas da existência — seja por uma caneta ou por uma tecla. Uma taça de vinho funciona como energia para o corpo debilitado. O copo vazio, mas cheio de matéria invisível para a nossa visão, permanece na mesa com seus segredos do dia anterior. Levanto-me e a constituição dos ossos estala.
Exoro a Deus para que meu caminho até o túmulo não seja pesado, que alivie minhas dores e, por favor, se não é pedir demais, faça do meu calvário uma rota cheia de bares, cerveja abundante, mulheres generosas e boa música. Isso não é pedir demais, pois bem me lembro: ia às missas todos os domingos — claro, não sem antes levar um puxão de orelha da minha mãe carola. Mas, mesmo obrigado, eu tinha fé que, depois da ladainha do padre obeso, poderia sair pelas ruas fazendo travessuras, chutar uma bola e, quem sabe, encontrar as Vivianes.
Por isso, imploro mais uma vez: seja justo. Eu não mastiguei a hóstia, inventei algumas mentiras só para poder me confessar, tudo isso em sua glória e pelo medo da vara de marmelo da minha progenitora. Tenho a meu favor o fato de seguir os hábitos de Jesus: sempre querendo que o vinho se multiplique, ostentando os mesmos cabelos compridos numa época em que isso era condenável e, para terminar, tendo uma Madalena para me distrair nas noites mais solitárias...




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