domingo, 30 de agosto de 2026






Está tudo embaraçado — a visão, o clima, o pensamento. A umidade me faz curvar o corpo no frio intenso, mas isto não me faz desistir de sentar no cimento molhado, sob a chuva, tomar cerveja gelada e observar o fluxo do cotidiano interpretado de várias maneiras. Fluido contínuo, que não consegue mais separar passado, presente e futuro — coisas de vanguarda da ciência, que sempre alimenta o imaginário com os mesmos fatos.
A depressão é sólida, consistente. Ouço gemidos de dores aterrorizando a noite, varando a madrugada; vejo telas decadentes explorando e expondo o sofrimento humano. A idade avança e começamos a nos deter em minúcias, "as plantinhas e os animaizinhos", como cantou Cazuza. Para a satisfação, bem como para a frustração, antes não tínhamos preocupações que nos levassem a questionar o verdadeiro sentido da existência, simplesmente existíamos — e agora compreendemos que o tecido da superficialidade se dobra a cada movimento contrário à nossa "felicidade".
Erguemos muros para nos proteger do exterior, da finitude à qual estamos condenados. Criamos paraísos para nos recompensar do sofrimento que permeia nossa timeline, inventamos maneiras de ludibriar a consciência de nossa morte inescapável e, com isso, agravamos a ansiedade que mais tarde nos cobrará em dobro. Estamos em um beco sem saída — sinuca de bico —, enquanto mantivermos a ilusão de que transcenderemos no fim do nosso ramerrão de dor e prazer. Nada muda, apenas a percepção da consciência vai enfraquecendo, enquanto nosso corpo vai se debilitando com a aproximação do final do filme. Depois que cortam o cordão umbilical, não resta mais nada senão a solidão eterna — nascemos sozinhos e morreremos sozinhos...

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