quinta-feira, 2 de julho de 2026

 


LAVO ROSA NO LAVABO




Lavo a rosa no lavabo da poesia e da prosa; suas pétalas desmaiam em metáforas adstringentes de tristezas. Os espinhos rememoram a dor carnil, aliviada pelo vinho tinto na taça de cristal. A noite chega suave como um ácido cáustico, mas a alcalinidade do prazer secreto quase equilibra as sensações do cotidiano. Um mar com excesso de ondas afasta a calmaria; procuramos uma baía, um porto seguro, porém uma voz soturna e invisível nos diz: 'Vocês estão procurando uma lápide?'

Continuamos a navegar pelo mar revolto. O vento nos açoita, revoluções circulares nos afastam da bonança; à deriva seguiremos. Uma ânsia silenciosa invade nossos corpos almáticos, e o farol nos leva a abismos infernais. Parece que o sol nunca mais vai nascer na equação existencial; as incógnitas estão disfarçadas por roupagens não humanas. Avançamos em meio à escuridão, não temos como voltar ou sair da influência do ciclone vivencial.

Já tiramos água com canecas; o barco balança de um lado para o outro, como um bêbado em zigue-zague. O capitão drogado procura o rum dos piratas; ele é o próprio motim da viagem transcendental no inferno de Dante. 'Homem ao mar!', uma parte da tripulação grita — um salto para a felicidade, longe do nosso orco presente. Não temos mais juventude e nem procuramos mais a fonte; somos malditos poetas sem rimas ou expressões figuradas...

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