Houve um tempo em que eu vagava pelas avenidas da cidade à procura de pretórias alcoólicas, sob um sol indiferente. Não era busca — era vício com pretensão filosófica.
Ao entrar, o pretor de balcão sempre perguntava:
— Quem és tu?
E eu, já treinado na própria farsa, respondia:
— Eu sou o que sou.
Mentira confortável.
A verdade, se tivesse coragem de dizê-la, seria outra:
“Eu serei o que serei” — ou pior: nunca serei nada fixo, nada digno de definição. Mas isso não impressiona ninguém num boteco, então eu mentia com convicção metafísica.
Sentava-me. Mesa áspera, realidade áspera. Nada de asbesto ou turmalinas — só madeira cansada e copos mal lavados. Ainda assim, eu via Olimpo. Via néctar. Via hebes servindo deuses. Era mais fácil assim.
Minha eternidade cabia num gole.
E a noite vinha — não como poesia, mas como decomposição. A cidade acendia suas luzes vermelhas e roxas, não para iluminar, mas para maquiar o apodrecimento. Bêbados orbitavam como insetos queimando suas últimas sinapses.
Os deuses? Ausentes. Ou talvez sempre tenham sido invenção de gente com medo de balcão vazio.
Nas mesas, o vinho oxidava ao lado da cerveja morna. O sagrado já tinha sido diluído. O resto era espuma e saliva.
Então vinham os vândalos — não de fora, mas de dentro. A civilização desabava em cada gesto automático: beber, rir, repetir. Papas, Bórgias, santos, hereges — tudo reduzido ao mesmo impulso básico: esquecer que vai morrer.
E nós esquecíamos. Com disciplina.
Afogávamos a mortalidade em álcool barato e companhia descartável. Prostitutas, sim — mas a verdadeira prostituição era outra: vendíamos qualquer ideia de grandeza por mais uma dose.
Ainda assim — e isso é o mais irritante — sobrava um resíduo.
Um pensamento que não morria.
Nos cantos da mente, resistia:
“Eles são medíocres.”
Mas a frase seguinte vinha mais honesta, mais suja:
“E eu também.”
Então a última ilusão se refinava:
“Eu sou o que não sei.”
Não como elevação — mas como falta. Como vazio que nem o álcool resolve.
Nesse ponto, já não havia deuses para brindar.
Mesmo assim, levantamos os copos — por hábito, não por fé — e alguém gritou:
— Viva Sócrates e Dioniso!
Ninguém riu.
E isso foi o mais sincero da noite.


Nenhum comentário:
Postar um comentário