quarta-feira, 25 de março de 2026




 Hoje: descobri —

o fundo do poço não é limite,
é interface.
há um subsolo.
(e talvez um gradiente infinito de quedas)

Ainda assim:
aves.
uma sinfonia estatisticamente improvável ao amanhecer
num bosque que não existe fora da mente
— mas existe como estado.

As ilusões não “crescem”:
elas se acumulam como ruído térmico,
aumentam a entropia informacional
até sufocar qualquer sinal de realidade.

Estou à deriva
(não metáfora: ausência de referencial inercial estável)
e os alertas de tempestade são só previsões caóticas
num sistema sensível às condições iniciais
— timeline como equação divergente.

Concertinas. arames. venenos.
topologia hostil.
tento emergir num rio
que já não conserva identidade ao longo do fluxo.

Heráclito mal interpretado:
não é o rio que muda —
é a impossibilidade de definir o mesmo estado em t₁ e t₂.

quando entender que “rio” é só uma função dependente do tempo,
talvez reste algo como consciência
(ou só mais uma ilusão de continuidade).

Flertei com o budismo:
aniquilação do eu como solução elegante.
mas recaí
em equações mal postas, mal condicionadas,
sem solução física admissível.

Carros passam:
máquinas térmicas imperfeitas
convertendo ordem em dissipação,
CO₂, NOx, partículas —
respiramos o subproduto da irreversibilidade.

Já não flutuo no rio.
sou comprimido por blocos discretizados de tempo:
passado (memória), presente (instável), futuro (probabilidade).

a seta do tempo não volta —
não por proibição moral,
mas por estatística:

ΔS0\Delta S \geq 0

ΔS0

a entropia não negocia.

Causa → efeito?
aproximação macroscópica.
no fundo: correlações, não narrativas.

a escrita do universo não é invertida —
somos nós que lemos tarde demais.

Caminhamos ao abismo, sim —
mas “abismo” é só um atrator estranho
no espaço de fases.

Multiversos?
hipóteses inflacionárias,
talvez excesso de liberdade matemática
sem evidência empírica suficiente.

armadilhas elegantes.

E ainda assim:
a intuição primitiva insiste —
voltar.

coletores. caçadores.
baixa entropia local às custas de ignorância global.

Maldita hora em que os símios olharam para o céu
e abstraíram.

Desde então:
linguagem > realidade
modelo > fenômeno

e nos perdemos no mapa.

Heidegger tentou:
ser-no-tempo
mas o tempo não “é” —
é parâmetro,
ou emergência.

A caverna não como regressão,
mas como redução de variáveis.

Esqueçam:
IA, viagens interestelares, delírios quânticos mal compreendidos.

tecnologia = amplificação da capacidade de dissipar energia.

Resta:
fermentar.
caçar.
coletar.
alterar a consciência por vias bioquímicas
(e não algorítmicas).

Deus?
não entidade.

campo.
processo.

Natureza.

E o universo —
talvez não seja mais do que isso:
um sistema fechado
onde tentamos, inutilmente,
reduzir a entropia local
enquanto o todo
silenciosamente
vence.





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