domingo, 30 de novembro de 2025
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
Os Jalmares do Sul estão chegando. Eles vêm do pampa, onde a terra é coberta por uma relva verde — única no Brasil — e o toldo do céu é azul profundo.
Sua rotina alimentar era simples e rústica: carreteiros de capincho e carne seca, gaudéria raiz.
Acostumados a abater capivaras, beber cachaça em guampa de touro e acender fogueiras no campo para se aquecer das rigorosas temperaturas do meridiano sul, viviam como verdadeiros filhos da campanha.
À noite, deitavam-se em pelegos de ovelha e sonhavam com a cidade grande — enriquecer em Porto Alegre.
Finalmente, esse dia chegou. Os Jalmares do Sul alcançaram a capital dos gaudérios, conseguiram empregos e começaram a receber salários.
Com poupanças suadas, noites mal dormidas e alimentação precária, conseguiram juntar um capital considerável.
Foi então que tiveram uma grande ideia: emprestar dinheiro a juros. Sem perceber, tornaram-se agiotas.
Prosseguindo em seu sonho de riqueza na cidade grande, investiram aos poucos em lojinhas de R$ 1,99.
O dinheiro se acumulou, e logo fundaram uma agência de créditos, legalizando assim a agiotagem.
Todos os dias, num rito marcado pelas lembranças amargas do passado — como o mate que sorviam na campanha — reuniam-se no minimercado de um bairro de classe média da capital para recordar os tempos de dureza e gauderismo.
Agora, bem-sucedidos, falavam sobre a vida no campo, sobre o montar nos cavalos de pelo duro, enquanto desfrutavam de carros com bancos de couro macio.
Já pensavam em comprar carros elétricos chineses para “ajudar o meio ambiente”, mesmo explorando o suor dos trabalhadores que lhes garantiam fortuna.
Aos poucos, esqueceram-se do período em que ouviam desafinados cantos de galpão e viviam na simplicidade da campanha.
Assim caminha uma parte da humanidade: entre o gauderismo raiz e a ambição da cidade grande, entre o fogo da fogueira no campo e o brilho frio das vitrines urbanas.
sábado, 22 de novembro de 2025
Antanho, caminhávamos pelas ruas arborizadas, pavimentadas com lajes de basalto e de grês. De sapatos ou sandálias, sentávamos nas cadeiras dos bares sempre abertos e, como estanho fundido, soldávamos a união de nossos corpos. A música nos levava para lá e para cá, embalando os passos e os sonhos.
As borboletas de outrora voavam com suas asas diversas, sinal da boa qualidade do ar.
Nada parecido com a poluição atual: apenas os pequenos Vemaguetes, com seus motores de dois tempos, lançavam à atmosfera a mistura de gasolina e óleo.
A noite ia e vinha sem acidentes graves, apenas mortes comuns do cotidiano. As balas estavam nos mostruários dos antigos armazéns, não cruzavam o espaço urbano como as traçantes metralhas da situação presente.
Hoje, caminhamos separados, como fantasmas. De vez em quando cumprimentamos alguns vultos — espectros do passado. O belo bairro arborizado cedeu licença à motosserra, que ergueu espigões e tornou nossas vidas mais infernais que o próprio inferno.
Os chafarizes da cidade deixaram de jorrar. Nossas águas de arroios, valos e córregos, que antes abrigavam peixes e corriam límpidas, hoje carregam um plasma escuro, misturado a fezes e mosquitos vetores de doenças terríveis.
Enquanto isso, as ratazanas do serviço público lavam as mãos como Pilatos: privatizam, abandonam, e o povo passa fome.
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Uma Thurman & Hera Venenosa
Por que as borboletas, ao final da tarde, voam contra o vento?
Seria instinto, ou um desafio silencioso à ordem natural?
Alguém realmente acredita que o farfalhar das asas de uma libélula, perdida nos campos da Hungria, possa desencadear uma tempestade devastadora na América do Sul?
Os pólens flutuam no ar, leves como promessas não cumpridas, como o beija-flor que dança entre flores com uma estética que desafia a gravidade.
Uma Thurman imaginária emerge das águas, envolta em heras venenosas — símbolo de beleza e perigo entrelaçados.
O morcego, criatura da noite, alça voo carregando em si a maldição da hidrofobia, como se a própria água o rejeitasse.
As fêmeas humanas — guardiãs silenciosas dos segredos da jornada evolutiva — sabem, em sua carne e memória, os caminhos que o humano percorreu para chegar até aqui.
E eu, sozinho, novamente e sempre, tento decifrar padrões no caos do universo que me cerca.
Hoje não há lua.
Apenas insetos roçando minha pele, lembrando que o incômodo raramente vem de fora.
Eles não são o problema.
O problema talvez seja a ausência de sentido, ou o excesso de lucidez.
Alguém me diga: onde fica o paraíso?
Porque a realidade que me envolve é distorcida, distópica, mesmo quando ouço as canções mais belas que a humanidade já compôs.
Talvez eu seja apenas uma erva venenosa, destinada a ser esmagada pelas patas do cavalo de Átila, o Huno —
um fragmento dissonante num mundo que já não reconhece sua própria melodia.
Manifesto da Certeza Perdida
Até onde posso ir?
Até onde a memória genética me arrasta, embriagado pela alcoolemia ancestral que pulsa em meu sangue como um eco pré-histórico.
A existência — esse fardo imperioso e, por vezes, inútil — me lança contra os muros invisíveis da razão.
Evoco o tempo em que eu era apenas um primata, um quase-humano, esperando a noite cair para me recolher à caverna, ventre pétreo da minha mãe Lucy.
Hoje, carrego os pesadelos dessa travessia milenar.
Sou feito de pensamentos que me governam sob o disfarce da racionalidade — o bípede implume de Platão, domesticado por ideias que não são minhas.
Não sou dono de mim.
Sou produto embalado pelas tecnologias ideológicas da exploração consolidada.
Mas ainda pulsa em mim a raiz dos instintos, dos coacervados, das químicas primitivas que moldaram o primeiro sopro de vida.
O saber verdadeiro é o que nunca saberemos.
O tempo, esse alquimista silencioso, guarda revelações que desafiam nossas constantes universais.
Será tudo dissolvido na próxima ciência?
Ou encontraremos convicções na certeza da ignorância intransponível?
Jacta est.
O Rubicão foi cruzado — ou talvez existam infinitos Rubicões, espalhados por universos paralelos que jamais tocaremos.
Trocaria todo o ouro do mundo por uma única partícula de certeza.
Este manifesto é um grito contra a ilusão da completude.
É a afirmação da dúvida como força vital.
É a recusa em aceitar que o mistério seja um erro — quando, na verdade, é a única verdade que nos resta.
terça-feira, 18 de novembro de 2025
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