quarta-feira, 8 de julho de 2026



 


BAR BUKOWSKI - só para iniciados




Dei uma volta no entorno e sentei - logo se aproximou um garção, trajado meio estilo soldado do filme Rin Tin Tin, meio parecendo um metaleiro anfetaminado perdido na natureza; solicitei imediatamente um whisky on the rocks - junto a janela, fiquei algum tempo sorvendo o malte e olhando a arcádia paisagem;

Alguma coisa pressionava meu sexto sentido, sentia que estava sendo vigiado; virei-me e enxerguei uma morena de olhos pretos, com jeans de um azul celeste indescritível, com pássaros bordados de fios de ouro; secamente, seus olhos me abduziam, convidavam para uma iluminação sexual, um insight selvagem, alguma coisa indefinida mas que trazia augúrios de prazer e perigo;

Dei um sorriso e levantei o copo a cumprimentando - o garção se aproximou e solicitamente pedi mais um whisky - porém o idílio sexual que se insinuava foi interrompido por uma voz máscula, forte que grasnou:

-Chefe..

Não tive tempo de olhar em direção a voz, somente senti uma garrafa de cerveja estourar no meio do cérebro; sangueira total - escorria e se derramava como uma catadupa em meu blusão de marinheiro, agora maculado, manchado - mas estranhamente sentia-me bem, não sentia dor; estava bêbado, ensanguentado e lucido;


Lembrei-me de um conto de Bukowski e resolvi não revidar e como o velho safado convidei o agressor e seu acompanhante para se juntarem a mesa; o garção rapidamente trouxe o Jack Daniels por mim solicitado; três copos se encheram rapidamente e da mesma forma foram esvaziados;





Quando a bebida formal acabou - o capanga do agressor puxou do bolso interno do casacão uma garrafa escura sem rotulo, com tampa de rosca - sem falar nada, derramou um insólito líquido roxo nos copos vazios; o virulento colocou um olhar frio e enérgico, impondo uma ordem silenciosa que eu deveria engolir o fluido.

A morena de jeans havia sumido - comecei absorver sucessivos copos do líquido estranho - os objetos começavam a se distorcer- psicodelia total - cores se misturavam, para depois se separarem e recombinarem; num determinado momento, senti que iria perder a coordenação, precisava agir, senão viraria churrasquinho dos brutamontes;






Juntei todas as minhas forças e consegui ir até o banheiro, por sorte havia uma janela basculante na qual poderia escapar - corri tortuosamente pela grama, entre carvalhos e olmos, até chegar a entrada do túnel, respirei por uns instantes - enquanto tudo se distorcia e se recompunha;

-Ei, vou lhe ajudar a sair daqui, pode se abraçar em mim...


A morena estava me esperando; coloquei o braço em volta da sua cintura esbelta e exotérmica; fiquei contaminado pelo calor ébano de sua derme; atravessei o túnel como um cego guiado por seu labrador - finalmente subimos as escadas para o mundo real;


Chegamos em casa, bebemos o resto do garrafão de vinho húngaro, consumimos ervas olorosas, rolamos na cama, copulamos, abri uma garrafa de licor africano, copulamos mais uma vez, dormimos lânguidos, esgotados e bêbados;


Amanheceu - o lençol estava manchado de roxo e vazio - ela já tinha indo embora, como nos filmes; pensei, enquanto a luz ocupava a casa - a vida está ficando perigosa e estranha, hoje não vou sair, ficarei de resguardo - comecei a ouvir leonard bernstein a reger mahler...

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