A ESPERA DO ECLIPSE TOTAL
Sob a chancela de quatro paredes, aprisionando verbos, adjetivos e sujeitos, vou morrendo por osmose na inércia dos objetos. Respiro, umedeço o espírito com figuras imaginárias. Os livros se tornam animados, as figuras viram substâncias, visões consubstanciadas em palavras. Estou condenado: usei artifícios infernais, provei a maldade nietzschiana. Inalei o enxofre vaporoso das entranhas do Érebo e fiz previsões catastróficas, ultrapassei Nostradamus. Bebi a água pútrida do rio Aqueronte. Traí e fui traído, neguei todos os deuses, dormi com o corpo sujo de lascívia em cima das escrituras sagradas.
Como força, admiti a fraqueza; no delírio caótico, ofereci a carne ensanguentada ao espírito obscuro. Estou contaminado por micróbios, bactérias, miasmas, vírus, vícios e virtudes invertidas. Não tenho mais vontade de potência; imolei o corpo, sou guiado por febres, alucinações, loucuras incrustadas de naturezas ocultas que atuam nas entrelinhas do sobrenatural, na sombra da razão. Não vejo mais auroras nem crepúsculos; engulo fantasmas, expilo ectoplasmas amalgamados de vida e morte. Inspiro o ar drogado da moral escrita no remoto altar dos sacrificadores, exorcizo os sacerdotes dos demônios freudianos, vou além do além. Procuro tribos selvagens, canibais, culturas incipientes que adorem cabeças embalsamadas. Derramo a seiva no oceano da imaginação — uma hemofilia sem fim. O suicídio das ideias, a serpente peçonhenta como amiga. Ergo aços ingentes, diluo o concreto com o suco gástrico das valas do Hades; de tudo provo.
Evoco Mefistófeles, seduzo Perséfone do mundo inferior, sequestro a musa de Dante do sumo éter, espero na estação do prazer o trem do paraíso. Não tenho ícones, Windows, planilhas eletrônicas, mas surrupio as taças com ambrosia de Hebe. No target: estou fora do alvo, quase não existo, tomo o licor venenoso extraído das mandíbulas de najas. Os relógios de urânio congelaram o tempo, estão curvados no espaço-tempo, mas a carne se corrompe no tempo psicológico, no fluxo da inconsciência. Busco a matéria imaculada, sem nódoas, mas os deuses estão mortos. Herdei o chafurdar dos javalis selvagens na lama e no esgoto que formam o emplastro lenitivo das feridas eternas abertas no coração da humanidade...


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