SOCRATES & DIONISIO
Houve um tempo em que eu caminhava pelas avenidas da cidade à procura de pretorias alcoólicas, sob o sol dos trópicos. Ao chegar nelas, o pretor budegueiro sempre me questionava:
— Quem és tu?
Respondia, quase sem pensar:
— Eu sou o que sou...
Na realidade, deveria dizer: “Eu serei o que serei”. Não desconstruindo a semântica, apenas comunicando que os adjetivos me são indiferentes, pois sou o substantivo primordial.
Após essa introdução, sentava-me à mesa de asbesto e turmalinas. Logo surgiam copos e taças de vinho, repletos do néctar do Olimpo, servidos pelas Hébes — copeiras dos deuses míticos. Minha existência avançava a passos largos rumo à eternidade, ainda que a noite conspurcasse minha ilibada divindade.
O escuro chegava e a cidade acendia suas luzes artificiais, que atraíam bêbados e mariposas. Os deuses já estavam adormecidos ou entorpecidos. Nas mesas impróprias da eternidade repousavam martelinhos de cachaça e a pagã cerveja germânica.
Era nesse momento que os vândalos se infiltravam pelo império. Agora, tudo se tornava mundano. Não tínhamos mais divindades; éramos apenas homens comuns, afogando nossa mortalidade em álcool, nas tavernas de pouca luz e prostitutas abundantes.
Ainda assim, restava um pensamento superior. Nos escaninhos da mente, um lampejo resistia: “Já que eles são tão mesquinhos e medíocres, eu ainda flutuo numa atmosfera superior. Ou seja, eu sou o que não sei.”
Então, ergueram as taças e gritaram:
— Viva Sócrates e Dioniso!

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