sexta-feira, 23 de janeiro de 2026


SOCRATES & DIONISIO




Houve um tempo em que eu caminhava pelas avenidas da cidade à procura de pretorias alcoólicas, sob o sol dos trópicos. Ao chegar nelas, o pretor budegueiro sempre me questionava:

— Quem és tu?

Respondia, quase sem pensar:

— Eu sou o que sou...

Na realidade, deveria dizer: “Eu serei o que serei”. Não desconstruindo a semântica, apenas comunicando que os adjetivos me são indiferentes, pois sou o substantivo primordial.

Após essa introdução, sentava-me à mesa de asbesto e turmalinas. Logo surgiam copos e taças de vinho, repletos do néctar do Olimpo, servidos pelas Hébes — copeiras dos deuses míticos. Minha existência avançava a passos largos rumo à eternidade, ainda que a noite conspurcasse minha ilibada divindade.

 O escuro chegava e a cidade acendia suas luzes artificiais, que atraíam bêbados e mariposas. Os deuses já estavam adormecidos ou entorpecidos. Nas mesas impróprias da eternidade repousavam martelinhos de cachaça e a pagã cerveja germânica.

Era nesse momento que os vândalos se infiltravam pelo império. Agora, tudo se tornava mundano. Não tínhamos mais divindades; éramos apenas homens comuns, afogando nossa mortalidade em álcool, nas tavernas de pouca luz e prostitutas abundantes.

Ainda assim, restava um pensamento superior. Nos escaninhos da mente, um lampejo resistia: “Já que eles são tão mesquinhos e medíocres, eu ainda flutuo numa atmosfera superior. Ou seja, eu sou o que não sei.”

Então, ergueram as taças e gritaram:

— Viva Sócrates e Dioniso!



Nenhum comentário:

Postar um comentário

  Está tudo sacramentado.... As muretas ofereciam um descanso momentaneo, apesar de umas gramineas plantadas no vale de concreto que geravam...