quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 



Radículas que se insinuam no ventre da terra, raízes que se entrelaçam em segredos antigos, troncos que guardam cicatrizes de desencontros e encontros. Caules erguem-se como colunas frágeis, galhos se estendem em gestos de procura, seivas correm como rios invisíveis, flores se abrem em oferenda, cardos resistem em sua aspereza, frutos amadurecem em promessa edulcorantes.

O pólen flutua como pensamento errante, o néctar se esconde em delicadeza, insetos dançam em coreografias estravagantes, pássaros atravessam o ar como flechas de canto.

Tudo sob um céu insano, azul oliviáceo, que parece rir da nossa pequenez.

E ali, a árvore — soberana, silenciosa — projeta sua sombra um pouco afastada da avenida diminindo a temperatura.

Eu, sentado, observo o cume do ser verde, esse organismo que respira e dá vida, esse microssistema no qual me incluo, parte e testemunha.

Sou raiz e folha, pólen e pássaro, sombra e claridade.

Sou também desencontro, mas encontro-me na árvore, que me devolve ao mundo em silêncio.


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