INTRODUÇÃO AO DIÁRIO DO UNIVERSO SEM TEMPO
Ouço eternamente os sabiás no extremo sul do Brasil. Emitindo ondas como Vivaldi-vida, estou perdido na existência — o que é natural na relatividade do nada do ser.
Nietzsche inicia algumas de suas obras com uma advertência: seus escritos devem ser digeridos com estômago de bovino — precisam ser ruminados para que o leitor os compreenda. Minha advertência é outra: que haja flexibilidade neuronal, desconstrução de todos os parâmetros de mercado, culturais e formais.
Intuitivamente desenvolvi os maxikoans, um método cujo objetivo é desplasmar todo pensamento rígido, autocrático, fundado na autoridade. A intenção é que o ser se abra ao ser e se liberte do mercado, do capitalismo, da alienação que aprisiona o homem — ou seja lá como designamos essa manifestação de átomos, moléculas e subpartículas que se organizam ao acaso com o fim de existir e de ter consciência dessa existência: a mecânica do materialismo.
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PSICOLOGIA
Um behaviorismo que fazia o cotidiano se derreter numa loucura existencial de sentido vazio acompanhava minhas percepções infinitas sobre o nada. Isso ajudava a manter viva a existência, apesar de o nada se manifestar em cada célula do meu ser.
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Mais um dia pesado — mais um Dasein imerso na alienação obrigatória do capitalismo. Estou mergulhado numa libertação imanente e numa transcendência invertida, a caminho do Dasein de Heidegger, buscando o ser originário, uma metafísica que rompa este mundo ramerrão, que rasgue o tecido da tradição e deste jogo sem sentido, sem ciência do que fazemos automaticamente.
Não sei o que resta ao homem nesta curta duração. Certamente não esta vida inautêntica, em tempo integral, na busca incessante de objetivos alienados, reificados por um domínio que não pertence à motivação nem ao real do Dasein — do ser-aí-no-mundo.
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MUTAÇÃO INTRANSPONÍVEL
Sempre é difícil abrir um novo parágrafo. A existência transforma-se a cada instante, assim como o estado de coisas que entram pelos sentidos e são refletidos.
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INICIANDO O FLUXO DO UNIVERSO SEM TEMPO
Meu corpo — minha perna esquerda começava a ficar dormente. Já era a segunda noite sem dormir; apenas emendava frases pós-frases num fluxo tóxico que meu fígado começava a recusar. Minha forma corporal estava inchada. O tempo não existia fora da minha memória: tudo fluía unido — passado, presente e futuro. Pensava, sobretudo, em beber, em tomar um álcool consistente; entrementes, olhava pela janela solitária a movimentação do mormaço que atingia as folhas da minha companheira de viagem: um ligustro japonês de caule inerte, cujas folhas flutuavam no ar pesado do fim da América perdida.
Esquecido pela tecnologia escravizante, ouvia pássaros cantarem. Alguns carros rasgando a rua quebravam a contemplação positiva da totalidade da realidade que entrava pelos sentidos. Não, eu não estava alucinado nem louco; apenas obedecia à atmosfera da primavera.
Começamos a viver sem utopias e com realidades moldadas pelos interesses dos mais fortes. A adaptação darwiniana serve, muitas vezes, como ferramenta para que os fortes manipulem os fracos. A adaptação é, na verdade, modo de sobrevivência dos fracos: recorrem à religião, à autoajuda, às drogas “legais”, às banalidades oferecidas pelo capitalismo — ou, ainda, à negação de tudo isso por meio do álcool e das drogas ilícitas, para aqueles que renunciam a essa realidade de submissão aos contratos invisíveis da sociedade.
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E O FLUXO CONTINUA...
Era mais um dia. O ramerrão continuaria. Já não pensava em perspectivas para o meu Dasein; apenas caminhava afundado em pensamentos mais altos e, contraditoriamente, mais profundos. Alguém interrompeu meu devaneio: — Oi! Que belo dia.
Parei. Atentei para a luminosidade, o azul cerúleo, os pássaros cantando como se uma delícia se concretizasse em sua existência. Talvez, pensei, eu tenha dramatizado a existência. De fato, o estado de coisas naturais produzia um sentido benéfico, um bem-estar. Ainda assim, minha existência permanecia apartada do mundo dos homens e da natureza. Eu apenas vivia para que os dias finais se encaminhassem de um modo ou de outro.
Deixe o fluxo do espaço-tempo passar, pensava, e enquanto isso ocuparei-me de alguma ideia démodé, fora das questões superficiais do homem atual. Não buscava compensação alguma, apenas deixar fluir o espaço-tempo sem alterações. Não que eu fosse determinista, mas sentia o gosto da derrota — não pela semântica do nada, e sim pelo colóquio desenfreado das percepções profundas.
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MAIS FLUXO...
Cérebro em flutuação frenética: fluxo sem consciência, sem sistema, sem método — apenas o caos emergindo dos princípios ativos de medicamentos aparentemente benéficos. A todo momento um pensamento vinha, em associações à la Hume e Nietzsche. Melhor dizendo: suas leituras destruíram a razão na qual eu acreditava, mas da qual, no íntimo do processo cerebral, sempre desconfiei.
“Foi bom ter lido o martelador da razão”, pensei. Perdedor, talvez, porque o homem está perdido desde o ventre materno: nasce com prazo de validade. Não há muito o que fazer. Talvez os hedonistas passem melhor o tempo do que os outros homens.
No meu universo, nem as baratas se adaptam. Elas farejam, com suas antenas de super-sobreviventes, a tragédia pairando no ar. Sentem a atmosfera metacrítica prestes a queimar a etapa da estabilidade, à beira do precipício. Sabem que meu universo vai me esmagar; que meus pensamentos vão me esmagar. Talvez até respingue sangue, veias, carne velha e maltratada.
Se permanecerem neste universo particular dos meus pensamentos, não sobreviverão. A dose é maior que a radiação da arma nuclear mais radical. Fujam, baratas, para o esgoto confortável e seguro. Vivam mais alguns bilhões de anos nessa mesmice, nessa mediocridade existencial. Esperem pacientemente pelos restos do capitalismo: ele costuma ser generoso com suas migalhas àqueles que se resignam, que se ajoelham diante do altar do mercado, que rezam orações de demanda e oferta.
Eu, não. Prefiro ser esmagado pela atmosfera, curvado por um campo gravitacional, sumir na singularidade de um buraco negro ou simplesmente pela segunda lei de Newton — mas sempre pensando numa utopia. Que os homens comuns não encontrem suas necessidades fabricadas, seus medos disfarçados, suas loucuras da razão.
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E O FLUXO CONTINUA...
Hoje foi uma tarde diferente. Meu cérebro trabalhou no sentido de avivar a memória. Ouvi músicas retroativas à existência adquirida na experiência do que chamamos tempo. Billie Holiday extraía da alma — perdoe-se o termo — a essência do inefável, aquilo que não podemos expressar por conceitos. Como nos protocolos de Wittgenstein, do que não se pode falar, deve-se calar.
Mas todo esse esforço de evocação traz, de contrabando, o nada. Traz no ventre o niilismo. Nada mais importa quando o vácuo existencial se faz presente nos sentidos da física e da psicologia. Ainda assim, nada é mais real do que a existência sobrevivendo no vácuo do nada.
Invertendo Heidegger: por que existe o nada de sentido e não o ser de sentido?
Os paradoxos se anulam. O ser não é, o nada é. E desse conflito nasce o nada do nada. Os contrários se soldam no vácuo infinito da existência. Somos notas dedilhadas por um deus na teoria das cordas. Precisamos de uma oração do nada, de uma escala que permita ao nada existir no ser — sem ser.
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NIETZSCHE
Nietzsche talvez não tenha sido radical o suficiente para suportar a solidão dos pensamentos alpinos. Seu niilismo era, em certa medida, exotérico; ainda carregava a esperança de transvalorar os valores e ser reconhecido. Hoje, talvez tivesse à disposição os remédios que lhe faltaram. O nada, atualmente, vem embalado nas gôndolas dos supermercados, nos prazeres fugazes do mercado, na farmacologia abundante. A solidão perdeu o sentido, substituída pelo espetáculo.
Podemos dizer, no meu niilismo imanente, que a memória é a experiência sem o objeto. Sua evocação também é patológica, ainda que de forma mais suave. A pessoa depressiva, ao evocar memórias, tortura-se: uma constelação de objetos positivos não interfere em sua vivência do nada.
VONTADE DO NADA
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INCIDENTAL — MAXIKOANS
Um homem velho e maltrapilho, coberto de adjetivos pejorativos, fitava o gigante azul no fim do continente. No cômoro açoitado pelo vento nordeste, a areia fina como ouro em pó obnubilava sua visão. Seus pensamentos, contudo, sabiam exatamente a justificativa de seus últimos momentos de solipsismo.
Não havia espanto nem renúncia à vida. O fim fora planejado por estudos filosóficos e científicos. Nenhum argumento o demoveria de passar seus últimos dias inerte diante do oceano da costa sul-americana. Quantas vezes abrira Nietzsche para ler: “Deus está morto”. Com essa frase, construíra uma teoria da não existência do sentido.
O máximo que admitia era o epifenômeno: energia sobre a matéria, como no silício do computador, sustentada pelo carbono do cérebro. O mar ecoava, o vento castigava. Os sentidos eram tudo; o resto, ilusões para apaziguar o fel da existência.
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CONSAGRAÇÃO A MEINONG
A impossibilidade de excluir o terceiro. Entre o existente e o não existente, surge o terceiro excluído das filosofias tradicionais. O método maxikoan afirma: o não existente é uma forma do existente. Fundem-se, então, ser e não-ser, ou considera-se uma terceira possibilidade — a existência da não existência.
A mente é uma floresta densa. O quadrado redondo de Meinong pode existir em algum lugar do espaço-tempo, ou no tempo sem espaço, ou no espaço sem tempo. O que hoje parece absurdo já foi heresia: Bruno, Copérnico, Galileu, Newton, Einstein. Teorias sobrepõem-se, incessantemente.
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PRINCÍPIO DO TERCEIRO INCLUÍDO
A história do conhecimento humano é marcada pela dicotomia sujeito–objeto. Ou isto ou aquilo. Esquecemos o campo de atualização onde o Dasein atua e é atuado: o campo que comporta sujeito, objeto e o terceiro incluído. Assim como a corrente elétrica cria um campo magnético, a ação humana cria um campo ignorado pela epistemologia tradicional.
Nesse campo, as possibilidades são infinitas; até o contraditório é possível. Ali reside a vontade de potência de Nietzsche, afirmando a existência inclusive no sofrimento, além do bem e do mal, suportando até a extinção do antropomorfismo.
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POESIA CONCRETA NO ABSTRATO
Ouço eternamente os sabiás no extremo sul do Brasil. Emitindo ondas como Vivaldi-vida, estou perdido na existência — o que é natural na relatividade do nada do ser.

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