A maçã e eternidade efemera
Uma franja de fótons rasga o semiescuro.
A sala fechada respira restos de noite — uísque, língua, memória.
Chove.
O mundo pede repouso,
mas a cabeça insiste:
ruído, fragmento, entropia.
Vivo em ciclos —
ascese e queda.
Arroz integral, pureza provisória,
uma tentativa patética de ordenar o caos.
Depois, o retorno:
álcool, excesso, vozes marginais nas praças.
Os sinos dobram — ninguém escuta.
Latas estouram como pequenas rebeliões
contra o tédio moral dos corretos.
A tela em branco exige registro.
Quase um dever físico:
transformar desordem em linguagem.
Polimento inútil:
corpo e alma esfregados
na esperança de eternidade.
Mas somos isto —
átomos provisórios
em trânsito cego.
O antropomorfismo ergue castelos
com a arrogância da maré baixa.
Uma onda — basta —
e tudo retorna ao informe.
Velórios:
flores, lágrimas, alívio disfarçado.
A morte não escandaliza —
apenas confirma.
Non plus ultra.
O pensamento não ultrapassa o corpo.
Tudo o mais é arquitetura do medo.
O bípede implume projeta recompensas:
paraísos como salário moral.
Adultos —
crianças com vocabulário ampliado.
Manhã:
aves cantam, indiferentes.
Serpentes escrevem na terra,
vermes trabalham o invisível.
Entre mito e física,
uma maçã cai.
Nunca foi pecado —
sempre foi gravidade.
Civilização:
nome elegante para a violência organizada.
Povos apagados,
corpos acorrentados,
deuses usados como justificativa.
Saímos das cavernas —
entramos nos bunkers.
Troca-se a clava
pela bomba.
Progresso.
O homem deseja o bronze da eternidade.
Recebe o ferro —
e sua lenta oxidação.
Brilha por um instante,
depois escurece.
Memória:
apenas um reflexo fraco
na superfície da noite.
E, ainda assim, insiste.
E assim caminha.
